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12 de dezembro de 2022

Organizando as bases para fortalecer a cadeia sustentável da castanha-do-Brasil no médio Purus

Encontro regional reuniu manejadores de castanha apoiados pela OPAN para debater desafios e pensar em estratégias coletivas visando a geração de renda justa aos castanheiros

Por Marina Rabello | OPAN

Marina Rabello | OPAN

Fortalecer os elos, para construir pelas bases. Este foi o mote do I Encontro Regional da Castanha, realizado pela Operação Amazônia Nativa – OPAN, entre os dias 22 e 24 de novembro, em Lábrea, no sul do Amazonas. O encontro teve como objetivo promover o debate sobre os desafios dessa cadeia produtiva no médio Purus, e a articulação de estratégias coletivas para superá-los. Estiveram presentes indígenas do povo Apurinã e Banawá, que têm apoio do Raízes do Purus – realizado pela OPAN, com patrocínio da Petrobras e do Governo Federal –, no manejo sustentável de castanha, respectivamente, nas Terras Indígenas Caititu e Banawá, e extrativistas da Reserva Extrativista do Ituxi.

Também marcaram presença representantes da Federação das Organizações Indígenas do Médio Purus – FOCIMP, de cooperativas que prestam assessoria técnica e viabilizam a comercialização da castanha, e de órgãos estatais como a Fundação Nacional do Índio – Funai, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, e o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas – IDAM.

Desafios históricos

O manejo sustentável de castanha-do-Brasil é uma atividade que produz alimento de alta qualidade nutricional, enquanto protege a floresta. “Esse trabalho tem uma enorme importância para gestão dos territórios. A gente tem que entender que esses territórios estão com a floresta em pé por causa do trabalho de ocupação territorial dos castanheiros”, explicou Diogo Giroto, coordenador do Programa Amazonas da OPAN. Isso porque, durante a temporada de coleta de castanha, que vai de janeiro a abril, os manejadores circulam por pontos remotos dos territórios, onde, muitas vezes, os próprios órgãos fiscalizadores têm dificuldade de ir. “São os castanheiros que sobem os igarapés, atravessam cachoeiras, passam inúmeras dificuldades, ficam lá 30, 50 dias, e dão notícias aos órgãos competentes sobre o que está acontecendo no território”, completa o coordenador.

O preço obtido na comercialização da castanha, no entanto, não remunera esse trabalho de valor inestimável. Na realidade, na maioria dos casos, o valor é insuficiente para cobrir até mesmo os custos da produção. Isso porque, como foi apontado durante o encontro, muitas das famílias manejadoras ainda dependem dos chamados atravessadores para vender o produto do extrativismo. “O Purus é um dos maiores rios do mundo, e é extremamente serpenteado. Quem navega nele sabe como as curvas prolongam os trajetos. Muitas vezes, os atravessadores vão até os pontos de coleta para comprar a castanha. Sem dúvida, facilitam a vida dos manejadores, mas pagam um valor muito baixo”, comentou Marcelo Horta, que atua há anos na assessoria técnica aos manejadores, e mediou o evento.

Marina Rabello | OPAN

Na região do rio Purus, os grupos envolvidos na cadeia produtiva da castanha estabelecem relações históricas com os atravessadores dos principais centros urbanos, como Lábrea e Humaitá (AM), e Porto Velho (RO). Geralmente, nesses sistemas, o atravessador – conhecido como “aviador” – adianta bens de consumo e alguns instrumentos de trabalho ao produtor, e este restitui a dívida contraída com produtos do extrativismo, como a castanha-do-Brasil.

Tal modelo começou a operar na região na época colonial, mas foi no ciclo da borracha que se consolidou como sistema de comercialização. Essa forma de crédito costuma ser bastante eficiente para as realidades amazônicas, uma vez que o sistema financeiro formal é incapaz de chegar onde os produtores extrativistas estão. Apesar da importância na viabilidade da atividade, muitos desses modelos são responsáveis por grandes impactos sociais e ambientais na Amazônia. Os sistemas de aviamento estabelecem uma relação de superexploração das comunidades locais, onde os produtos das cidades são vendidos por um preço superfaturado em troca do baixo valor agregado aos produtos da sociobiodiversidade, gerando um ciclo vicioso de endividamento dos extrativistas.

Organização é a base de tudo

No evento, foram discutidos os caminhos para superar a dependência em relação aos atravessadores. “Tudo começa pela organização coletiva dos castanheiros. Juntos, eles ficam mais fortes para conseguir melhores canais de venda, e negociar um preço maior”, aponta Giroto. Outro caminho indicado para conseguir um valor mais justo pela castanha foi o aprimoramento contínuo da qualidade do produto comercializado, por meio de boas práticas de coleta, limpeza e armazenamento. “A gente vem batendo muito nessa tecla das boas práticas da castanha. O manejador se empodera quando oferece um produto de qualidade, porque melhora as suas condições para negociar com os compradores”, afirma Cláudio Apurinã, manejador de castanha na TI Caititu.

Tanto para a organização coletiva, como para a incorporação de boas práticas, as parcerias são fundamentais. Um exemplo disso é o trabalho da Associação dos Produtores Agroextrativistas Colônia do Sardinha – ASPACS e da Associação dos Agropecuários de Beruri – ASSOAB, cooperativas formadas por extrativistas, que oferecem assessoria técnica aos castanheiros, e viabilizam a comercialização da castanha-do-Brasil a preços justos.

Marina Rabello | OPAN

Desde a sua primeira edição, que teve início em 2013, o Raízes do Purus busca fortalecer a cadeia produtiva da castanha-do-Brasil na TI Caititu, realizando oficinas de boas práticas, fortalecendo a organização e o planejamento coletivo das famílias para as safras, e prospectando canais para a comercialização conjunta e mais justa deste produto da sociobiodiversidade. Tais esforços resultaram na estruturação de um arranjo comercial coletivo de castanha do povo Apurinã, por meio do qual, desde 2017, boa parte da castanha coletada no território é comercializada.

A Associação dos Produtores Indígenas da Terra Indígena Caititu – APITC, está à frente deste arranjo, e, atualmente, é a ASSOAB que compra e beneficia a castanha-do-Brasil produzida pelos membros da APITC e de outras associações indígenas e extrativistas da região. Esse arranjo coletivo tem o objetivo de promover a quitação das dívidas familiares com os atravessadores, fortalecer a organização social e gestão do coletivo, e agregar valor ao produto por meio de boas práticas.

Em 2022, a APITC comercializou cerca de sete toneladas de castanha produzida na TI Caititu e na Resex Ituxi para a ASSOAB, gerando uma renda bruta de quase 50 mil reais. “A gente vai percorrer um longo caminho ainda. É um produto que tem muitos anos de comercialização injusta. E nosso grande desafio é construir um cenário em que esse trabalho seja tão importante e valorizado, que os nossos filhos tenham vontade de trabalhar com isso. Os produtores de castanha estão ficando velhos, e precisamos envolver as novas gerações” afirmou Diogo.

 

 

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