O maior contingente de escravos do Brasil veio de Angola e do Congo. Durante séculos, estiveram nas mãos desses negros as culturas da cana-de-açúcar, do tabaco, do algodão e do café. Eles legaram aos seus descendentes formas de batuque, que apesar de misturadas com outras danças, populares ou não, ainda são reconhecíveis; formas que, primitivamente rurais, de execução nos terreiros das fazendas, sempre estiveram em diferentes estágios de urbanização.
O lundu segue a mesma linha do batuque ou samba:
"No centro de uma roda de espectadores, um par solista desenvolve a dança, que consta de sapateados, meneios acentuados dos quadris e umbigada".
(Oneyda Alvarenga)
Semba era o nome com que os angolenses designavam a umbigada. O essencial na maioria das danças nativas de Angla era o entrechoque dos ventres.
"Samba viria de semba, a vênia com que os dançadores de batuque, na África, passavam a vez de dançar - a umbigada brasileira".
(Edison Carneiro - Folguedos Tradicionais)
Trazido pelos africanos, desenvolveu-se gradativamente até chegar aos quilombos. Ritmo gostoso, cadenciado por natureza, teve que passar pelo dissabor de ver seus integrantes protegendo, aprendendo com os cantores de samba a magia contagiante de sambar, "dizer no pé" e cantar, improvisar nos versos a beleza musical angolense e a conguês. E o samba era coisa de capeta moleque. Avançou, com o negro fugindo do cativeiro para dentro das matas. No quilombo, o negro estava à vontade, com tempo de sobra para sambar.
O samba tinha uma grande aliada, a majestosa capoeira. Capoeirista cantava samba e dançava como ninguém. Os donos de engenho passam a usar os capoeiristas como guarda-costas e leões-de-chácara nas suas agremiações.
Filhos de homens de negócios, "a nobreza", se apaixonam pela capoeira tornando-a mais enriquecida de valores. As rodas de samba eram formadas em Salvador e no Rio de Janeiro com o apoio dos meninos ricos e o pau comia solto.
Com a abolição da escravatura, o negro se avoluma na dança e na música populares.
No Rio de Janeiro, no início do século atual, era grande o número de residentes negros, africanos, crioulos e mestiços, vindos de todo território brasileiro.
Realizavam-se, então, obras de remodelação, embelezamento e saneamento da capital. Com a demolição, seus habitantes tiveram de mudar-se para regiões distantes de seus locais de trabalho, indo procurar moradia na periferia ou subindo os morros que circundavam o centro.
"Assim, antes de construir a Avenida Central, era preciso tirar pobres e pretos do caminho. Iniciava-se, então, apocalíptico "bota-abaixo", com centenas de casas e cortiços sendo arrasados, numa verdadeira operação de guerra".
(Nei Lopes - O negro no Rio de Janeiro)
É no morro da Conceição que se concentram os migrantes negros, chegados principalmente da Bahia, estendendo-se depois até a Cidade Nova e formando:
"A Pequena África no Rio de Janeiro".
(Roberto Moura - Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro)
O sambista inaugura uma nova era: a "batucada" ou "capoeira", que se formava em círculos com instrumentos, atabaques ou tambores. Tocando, iam tirando versos e outros respondendo. Ficava tudo bonito e violento, pois a polícia chegava furando o que hoje chamamos de "surdo", e dando pancadas nos sambistas e o inferno era visto. O samba de morro ou urbano, próprio para ser dançado e cantado em cortejo.
O partido alto, para ser cantado e dançado em roda.
O samba deixa de ser sagrado para ser profano. A capoeira, o samba de morro e o partido alto trazem o samba para a rua de vez.
Com argumento real de ser discriminado nos salões de festa da cidade, cria a primeira Escola de Samba, a "Deixa Falar", no Estácio, formando um movimento de resistência.
A repressão continua. Nada muda?
Mergulhando no mar de nossa história, sabemos que samba, capoeira, batuque e partido alto estão de mãos dadas, não podem caminhar separados.
"O primitivo samba era o raiado, com aquele som e sotaque sertanejos. Depois, veio o samba corrido, já melhorado e mais harmonioso e com a pronúncia de gente da capital baiana. Apareceu então o samba chulado que é este samba hoje em voga; é o samba rimado, o samba civilizado, o samba desenvolvido, cheio de melodia, exprimindo uma mágoa, um queixume, uma prece, uma invocação, um expressão de ternura, um verdadeira canção de amor, uma sátira, uma perfídia, um desafio, um desabafo, ou mesmo um hino!"
(Francisco Guimarães - "Vagalume" - Na Roda do Samba - Funarte)
Em consequência dos deslocamentos do samba da Cidade Nova, especificamente da Praça Onze, para os bairros mais afastados, surge, em Oswaldo Cruz, um grupo de sambistas formando um triunvirato para dirigi-la, compondo essa emoção ardente da beleza do vôo ao sol da Águia do Samba, personificado por Paulo Benjamin de Oliveira - Paulo da Portela.
"Cada povo tem a sua alma, produto das suas origens étnicas, do seu meio, das suas histórias, das suas paisagens, dos seus climas, das suas paixões".
(Orestes Barbosa - Samba - Funarte)
A PORTELA, berço de emoções, criou a sua alma e, com ela, o seu ritmo musical - O GRANDE E VIGOROSO SAMBA PORTELENSE.
Apoteótica, Águia do Samba vai alçar o seu vôo contagiante de energia, transferindo a sua grande força de magnetismo, de amor, de cores, de alegria para toda essa massa-carnavalesca-africana.
A ÁFRICA NEGRA RESSURGE.
O samba é carioca.
O samba é de Oswaldo Cruz.
O SAMBA É DA "PORTELA".
José Félix