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Dulfacar

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Dulfacar (em árabe: ذو الفقار; romaniz.: Ḏū 'l-Faḳār) foi a espada do profeta islâmico Maomé, posteriormente entregue a Ali ibne Abi Talibe, tornando-se um dos mais importantes símbolos históricos e religiosos do islã. Segundo a tradição, foi capturada como espólio na Batalha de Badre, após pertencer ao coraixita Alás ibne Munabi, embora algumas fontes atribuam sua posse anterior a outros membros da família de Alhajaje. Seu nome deriva da expressão árabe Ḏū 'l-Faḳār, literalmente "o possuidor das vértebras" ou "das articulações", em referência aos sulcos ou entalhes existentes na lâmina. Segundo a tradição preservada pela Encyclopaedia of Islam e pela TDV İslâm Ansiklopedisi, essa designação provavelmente lhe foi atribuída apenas após sua captura, em virtude dessas características físicas. Após a morte de Maomé, Dulfacar permaneceu na posse de Ali e de seus descendentes, tornando-se um dos principais símbolos da legitimidade da Casa de Ali e, posteriormente, do xiismo. A espada foi mais tarde preservada pelos califas abássidas, enquanto sua representação iconográfica evoluiu para a forma de uma espada de duas pontas, difundida na arte e na cultura islâmicas, especialmente entre os bektashis e no Período Otomano.[1][2]

Etimologia

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O nome Dulfacar deriva do árabe em árabe: ذو الفقار, composto por ḏū ("possuidor de") e faqār ("vértebras", "articulações" ou "sulcos").[3] Segundo a tradição preservada pelas principais fontes islâmicas, a espada recebeu esse nome em razão dos sulcos existentes ao longo de sua lâmina, comparados às vértebras de uma coluna. A Encyclopaedia of Islam observa que essa explicação decorre da presença de entalhes ou ranhuras (fukra) na espada, mencionando também a expressão sayf mufaqqar ("espada sulcada") para designar esse tipo de lâmina.[1] A TDV İslâm Ansiklopedisi acrescenta que a denominação provavelmente foi atribuída à espada apenas após sua captura na Batalha de Badre, quando suas características físicas passaram a distingui-la das demais armas.[3]

História

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Uma miniatura persa do Khawran Namah retratando Ali matando o dragão com sua espada

Segundo a tradição islâmica, Dulfacar foi obtida por Maomé como espólio na Batalha de Badre, em 624. A espada é geralmente identificada como pertencente ao coraixita Alás ibne Munabi, morto durante o confronto, embora algumas tradições a atribuam anteriormente a Munabi ibne Alhajaje ou Nabi ibne Alhajaje. Como seu captor permaneceu desconhecido, foi incorporada ao espólio comum e posteriormente escolhida por Maomé durante a repartição dos despojos. As fontes descrevem-na como uma espada de aproximadamente sete palmos de comprimento e um de largura, provida de empunhadura com adornos de prata, havendo ainda a tradição de que teria sido forjada por um armeiro chamado Marzuque Açaquil. Maomé utilizou Dulfacar até entregá-la a Ali. A tradição mais difundida sustenta que isso ocorreu durante a Batalha de Uude, ocasião em que teria sido proclamada a célebre frase: "Não há espada senão Dulfacar, nem herói senão Ali" (Lā sayfa illā Ḏū 'l-Faḳār wa-lā fatā illā ʿAlī).[1] Outras tradições, porém, apresentam versões diferentes. Segundo um relato transmitido por Aluaquidi, a espada foi entregue apenas em 627, quando Ali recebeu de Maomé a incumbência de decidir sobre a distribuição dos prisioneiros e despojos obtidos na Expedição de Hisma, servindo a arma como sinal visível da autoridade que lhe havia sido conferida.[3]

Após a morte de Maomé, Dulfacar permaneceu com Ali. Segundo a tradição, quando Alabás ibne Abede Almotalibe questionou o califa Abu Becre (r. 632–634) acerca da herança do profeta, indagando por que a espada, a montaria Duldul e sua armadura haviam passado a Ali em vez de a seu tio, Abu Becre respondeu que a espada já se encontrava em poder de Ali e que não seria apropriado retirá-la dele. Posteriormente, Dulfacar foi transmitida a Alhaçane e Huceine, permanecendo entre os descendentes deste último. Durante a revolta de Maomé Anafes Azaquia contra o califado Abássida, a espada ainda se encontrava em sua posse, sendo posteriormente adquirida por Jafar ibne Solimão ibne Ali e incorporada ao patrimônio dos califas abássidas. As tradições registram que Dulfacar permaneceu durante algum tempo entre os tesouros dos califas abássidas. O filólogo Alasmai afirmou tê-la examinado pessoalmente quando se encontrava na posse de Harune Arraxide, descrevendo-a como uma espada provida de dezoito sulcos.[3] Há indícios de que a arma continuou pertencendo aos abássidas até o século X, embora alguns autores sustentem que ela tenha permanecido temporariamente em poder dos fatímidas, retornando depois aos califas de Baguedade. Seu paradeiro posterior é desconhecido.[2]

Dulfacar tornou-se um dos mais importantes símbolos da figura de Ali e da legitimidade da Casa de Ali na tradição islâmica. Embora reverenciada também por muitos muçulmanos sunitas em razão de sua associação com Maomé e Ali, a espada adquiriu significado especialmente destacado no xiismo, no qual passou a representar a autoridade espiritual e temporal dos imames descendentes de Ali. Segundo a tradição xiita, Dulfacar integra, juntamente com outros objetos herdados dos profetas, o conjunto de relíquias transmitidas entre os imames e que permanecerão em poder do Mádi até seu reaparecimento. A representação artística de Dulfacar também evoluiu ao longo dos séculos. As fontes mais antigas a descrevem como uma espada dotada de sulcos na lâmina, mas a iconografia islâmica posterior passou a representá-la com duas pontas, forma que se difundiu amplamente na arte e na cultura material do mundo islâmico.[1] Essa representação tornou-se frequente em manuscritos ilustrados, como o Siyar-i Nebi, em obras de caráter divinatório, em estandartes militares, armas cerimoniais, lápides, amuletos e camisas talismânicas, alcançando particular popularidade durante o Império Otomano e entre os bektashis, para os quais Dulfacar se converteu em um dos principais emblemas religiosos e identitários.[2]

A literatura turca atribuiu a Dulfacar um papel de destaque como a espada lendária de Ali, quase sempre associada à montaria Duldul e ao servo Cambar. Obras como o Fazîletnâme, de Yemînî, e os romances épicos conhecidos como Hz. Ali cenkleri descrevem-na como uma arma dotada de poderes extraordinários, capaz de variar de tamanho conforme o inimigo enfrentado, cortar pedras, destruir feitiços, produzir estrondos aterradores e abater simultaneamente numerosos adversários. Nessas narrativas, Dulfacar constitui um dos principais atributos heroicos de Ali e um elemento central das histórias de suas campanhas militares lendárias.[4] Na poesia turca, especialmente na tradição alevita e bektashis, Dulfacar tornou-se um dos símbolos mais recorrentes de Ali. A expressão «Lâ fetâ illâ Alî, lâ seyfe illâ zülfikâr» ("Não há herói senão Ali, nem espada senão Dulfacar") foi empregada por numerosos poetas, figurando com frequência como refrão ou motivo poético. Além de representar literalmente a espada de Ali, Dulfacar passou a servir como metáfora para coragem, poder, justiça, eloquência e autoridade espiritual, sendo comparada, conforme o contexto, à pena do escritor, à palavra, ao olhar, às sobrancelhas, às mãos e a outros elementos cuja força ou eficácia se pretendia exaltar. Entre os autores que recorreram a essa imagem encontram-se Hatâî, Nâilî, Şeyh Galib, Bâkî, Yavuz Sultan Selim, Taşlıcalı Yahyâ, Kadı Burhâneddin, Mesîhî, Müştak Baba, Nesîmî, Aziz Mahmud Hüdâyî e Sun‘ullah Gaybî.[5]

A influência simbólica de Dulfacar estendeu-se também às artes visuais e à cultura material. Entre grupos de abdais, eram conhecidas tatuagens representando Ali e sua espada, enquanto a crença popular de que Dulfacar possuía uma ponta bifurcada, embora não corresponda às descrições históricas mais antigas, difundiu-se amplamente na arte islâmica. Essa forma passou a aparecer em pinturas, miniaturas, composições caligráficas, inscrições devocionais e representações do nome de Ali, cujo traçado podia ser estilizado para recordar a espada. O motivo também foi aplicado a outros elementos caligráficos, especialmente ao lâmelif, tornando-se um dos símbolos gráficos mais característicos da tradição artística islâmica.[6] Diversas tradições populares posteriores procuraram explicar a origem ou o destino de Dulfacar. Algumas narrativas afirmam que ela teria sido forjada com o ferro retirado de um ídolo destruído por Ali no Iêmen; outras sustentam que, por determinação de Maomé, Ali jamais voltou a empunhá-la após a morte do profeta. Segundo outra tradição, antes de morrer Ali ordenou que a espada fosse lançada no mar de Néguefe, onde desapareceu nas águas, tornando-se inacessível aos homens. Essas narrativas pertencem ao ciclo lendário desenvolvido em torno da figura de Ali e não encontram respaldo nas fontes históricas mais antigas.[7]

No mundo turco-islâmico, Dulfacar converteu-se ainda em um importante símbolo de legitimidade religiosa e poder militar. A crença em espadas dotadas de qualidades sobrenaturais já existia entre povos turcos antes da islamização, circunstância que favoreceu a incorporação de Dulfacar ao imaginário religioso. Durante o período otomano, o símbolo passou a ser estreitamente associado aos janízaros e ao bektashis, figurando em estandartes militares e em diversos objetos cerimoniais. Sua importância também foi relacionada à cerimônia de investidura dos sultões conhecida como taklîd-i seyf ("cingimento da espada"), enquanto representações de Ali empunhando Dulfacar e montado em Duldul tornaram-se um tema recorrente na pintura religiosa, nas miniaturas e na ornamentação otomana.[8]

Referências

  1. 1 2 3 4 Mittwoch 1965, p. 233.
  2. 1 2 3 Öz 2013, pp. 553–554.
  3. 1 2 3 4 Öz 2013, p. 553.
  4. ↑ Yıldıran Sarıkaya 2013, p. 554.
  5. ↑ Yıldıran Sarıkaya 2013, pp. 554–555.
  6. ↑ Yıldıran Sarıkaya 2013, p. 555.
  7. ↑ Yıldıran Sarıkaya 2013, pp. 555–556.
  8. ↑ Yıldıran Sarıkaya 2013, p. 556.

Bibliografia

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  • Mittwoch, W. (1965). «D̲h̲u 'l-Faḳār». In: Lewis, B.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, New Edition. II: C–G. Leida: E. J. Brill. OCLC 495469475 
  • Öz, Mustafa (2013). «Zülfikar». TDV İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 44. Ancara: Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi. pp. 553–554. Consultado em 30 de julho de 2026 
  • Yıldıran Sarıkaya, Meliha (2013). «Zülfikar». TDV İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 44. Ancara: Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi. pp. 554–556. Consultado em 30 de julho de 2026