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Campanha da Itália

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 Nota: Para a campanha na primeira guerra mundial, veja Campanha Italiana.
Campanha da Itália
Frente do Mediterrâneo, Segunda Guerra Mundial

Soldados americanos da 92ª Divisão de Infantaria combatendo forças alemãs em Lucca, 1944.
Data10 de julho de 1943 – 2 de maio de 1945
LocalItália
DesfechoVitória dos Aliados
Beligerantes

 Reino Unido

 Estados Unidos
 Reino da Itália (a partir de 8 de setembro de 1943)

 Polônia
Brasil Brasil
França Livre
Grécia Grécia

Alemanha Nazista Alemanha Nazista

Reino de Itália
 (até 8 de setembro de 1943)
República Social Italiana
 (até 25 de abril de 1945)

Comandantes

Estados Unidos Dwight D. Eisenhower (até janeiro de 1944)
Reino Unido Henry Maitland Wilson (janeiro até dezembro de 1944)
Reino Unido Harold Alexander
 (a partir de dezembro de 1944)

Alemanha Nazista Albert Kesselring
Alemanha Nazista Heinrich von Vietinghoff (Prisioneiro de guerra)
Benito Mussolini  
Rodolfo Graziani (Prisioneiro de guerra)

Forças

1 333 856 soldados (abril de 1945)[1]
4 000 aeronaves (março de 1945)[2]

Alemanha Nazista 439 224 soldados, 79 aeronaves operacionais (abril de 1945)
160 180 homens (abril de 1945)[2]

Baixas

Sicília: 22 000 baixas[3]
Na Itália: 308 536 [obs 1][obs 2] – 320 000 baixas[obs 3]
8 011 aeronaves perdidas[9]

Sicília: 165 000 baixas (dos quais 30 000 alemães)[10]
Na Itália: 336 650[obs 4] - 580 360 baixas[obs 5]


Aproximadamente 152 940 civis mortos

A Campanha da Itália foi o conjunto das operações militares conduzidas pelos Aliados na Itália no âmbito da Segunda Guerra Mundial, no período que vai de junho de 1943 a maio de 1945; a campanha foi empreendida inicialmente para derrotar a Itália fascista, considerada a mais fraca entre as três principais Potências do Eixo, e depois, após a sua rendição incondicional anunciada a 8 de setembro de 1943, para atrair para a península italiana ocupada pelas tropas do marechal de campo Albert Kesselring outras forças da Wehrmacht, aliviando assim os outros teatros europeus.

A campanha, liderada do lado aliado primeiro pelo general Dwight Eisenhower e depois pelo general Harold Alexander, foi caracterizada por uma série de desembarques e por sangrentas batalhas de desgaste ao longo das sucessivas linhas defensivas preparadas pelo exército alemão. As tropas aliadas, constituídas por contingentes provenientes de múltiplos países, foram prejudicadas pelo áspero território dos Apeninos, pelas dificuldades climáticas e pela tenaz resistência alemã, que provocaram fortes perdas e o lento avanço da frente. Roma só foi libertada a 4 de junho de 1944. A Linha Gótica foi superada apenas em abril de 1945 com uma maciça ofensiva final que permitiu alcançar a Planície Padana; a 2 de maio, com a Rendição de Caserta, os combates na Itália chegaram ao fim.

Na Campanha da Itália tomaram parte também algumas unidades da República Social Italiana, que combateram ao lado dos alemães, e as formações do Corpo Italiano de Libertação, que, por sua vez, combateram juntamente com os exércitos aliados. Durante a dura ocupação alemã, desenvolveu-se o movimento da Resistência italiana, que organizou uma crescente atividade militar de guerrilha na Itália centro-norte que dificultou o aparato militar e repressivo nazifascista.

Antecedentes

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A partir do outono de 1942, o andamento da Segunda Guerra Mundial no teatro do Mediterrâneo havia sofrido uma virada irreversível a favor das potências aliadas. Enquanto os britânicos do general Bernard Law Montgomery concluíam vitoriosamente em 4 de novembro de 1942 a dura Segunda Batalha de El Alamein e forçavam as forças ítalo-alemãs remanescentes do marechal de campo Erwin Rommel a uma extenuante retirada ao longo de toda a costa líbia, uma imponente força expedicionária anglo-americana sob o comando do general Eisenhower efetuou com pleno sucesso, a partir de 8 de novembro de 1942, a Operação Tocha, ou seja, o desembarque no Marrocos e na Argélia[13].

Nos meses seguintes, as operações no Norte da África prosseguiram com combates acirrados de resultados alternados; apesar do pesado empenho da Wehrmacht na frente oriental, onde estava em curso a longa Batalha de Stalingrado, que terminou com uma desastrosa derrota, Adolf Hitler decidiu enviar contingentes de reforço à Tunísia para ganhar tempo e apoiar militarmente seu aliado Benito Mussolini, cuja posição política no Reino da Itália estava se enfraquecendo devido às contínuas derrotas[14].

Apesar da resistência obstinada e hábil, as forças do Eixo no Norte da África, em nítida inferioridade de homens e meios em relação aos exércitos aliados, foram finalmente derrotadas e se renderam em maio de 1943; a Campanha da Tunísia terminou, assim, com um grande sucesso estratégico dos Aliados, que tomaram posse de toda a costa norte-africana, podendo assim dominar as rotas marítimas mediterrâneas e atacar diretamente todas as costas italianas, cujas defesas já eram completamente inadequadas para enfrentar, apesar do alardeado otimismo de Mussolini, a poderosa coalizão adversária[15].

Planos operativos

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Enquanto a campanha da Tunísia ainda estava em curso, a liderança político-militar anglo-americana já havia iniciado o planeamento para o prosseguimento das operações no teatro do Mediterrâneo. Na Conferência de Casablanca, entre 14 e 24 de janeiro de 1943, o presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill reuniram-se com os chefes dos estados-maiores aliados; após discussões longas e complexas, decidiu-se — apesar do ceticismo e da deceção dos generais estadunidenses, ansiosos por interromper as operações no setor meridional e acelerar a invasão da Europa do Noroeste — colher os frutos da vitória prevista no Norte da África realizando um desembarque na Sicília[16].

O presidente Franklin Delano Roosevelt e o primeiro-ministro Winston Churchill durante a Conferência de Casablanca

Os generais britânicos conseguiram convencer os chefes americanos, destacando como um desembarque na Sicília poderia levar a um colapso do Reino da Itália, com a consequência de que a Alemanha seria forçada a intervir em peso no teatro sul-europeu, dispersando as suas divisões na península italiana, nas ilhas e nos Balcãs, aliviando assim a pressão exercida na frente russa[17]. Com a conquista da Sicília, além disso, todo o Mar Mediterrâneo tornar-se-ia aberto à navegação aliada, melhorando a situação logística das forças anglo-americanas; por fim, previu-se estender as operações até incluir a Itália meridional onde, na área de Foggia, poderiam ser organizadas grandes bases aéreas de onde bombardeiros estratégicos poderiam atingir o sul da Alemanha e a Áustria[18].

Em 12 de fevereiro de 1943, foi constituído em Argel, sob a liderança do general Charles Gairdner, o HQ Force 141, o quartel-general encarregado do planeamento detalhado do projeto de invasão da Sicília[19]; anteriormente, já se havia decidido renunciar aos audaciosos planos de ataque à Sardenha, considerada demasiado distante das bases aéreas aliadas, e de ataque imediato à Sicília antes mesmo do fim dos combates no Norte da África[20]. A orientação inicial do quartel-general previa uma multiplicidade de desembarques a serem efetuados nos primeiros três dias da operação, que permitiriam a captura dos dois portos de Siracusa e Palermo. O almirante Andrew Cunningham concordou com tal escolha dado que, quanto mais as forças atacantes fossem fracionadas, mais os ataques aéreos ítalo-alemães seriam dispersivos e ineficazes; além disso, os Aliados tinham à disposição algumas unidades de paraquedistas, cujo emprego foi hipotetizado na Calábria para dificultar o previsível afluxo de reforços alemães através do Estreito de Messina[21].

Embora inicialmente, em 13 de março de 1943, os chefes militares anglo-americanos tivessem aprovado o ambicioso plano, ele foi posto em causa dois dias depois, quando o general britânico Bernard Montgomery enviou uma carta ao general Gairdner criticando fortemente o projeto original de desembarque na Sicília e sugerindo a concentração das zonas de desembarque e o reforço do corpo de expedição. Em 18 de março, realizou-se então uma conferência após a qual, em 5 e 6 de abril de 1943, as variantes propostas pelo general Montgomery foram aprovadas pelo comandante-em-chefe aliado no Mediterrâneo, Dwight Eisenhower, e pelo vice-comandante-em-chefe, Harold Alexander[22]. Na realidade, as discussões recomeçaram em breve dentro da liderança político-militar aliada: o general Eisenhower manifestou receios pelas possíveis reações das forças alemãs presentes na Sicília, despertando o descontentamento de Churchill; no final de abril, o general Montgomery voltou a criticar o plano operacional e, em 2 de maio, numa reunião em Argel, propôs uma nova variante segundo a qual as forças anglo-americanas efetuariam desembarques muito concentrados na parte sudeste da Sicília: desta forma, o próprio Montgomery assumiria um papel preponderante na operação, relegando as tropas americanas a tarefas de apoio. Alexander partilhou as avaliações de Montgomery e Eisenhower aprovou este novo plano, apesar das oposições de alguns altos oficiais aliados[23].

Enquanto prosseguia a organização das forças designadas para o desembarque na Sicília, os chefes anglo-americanos encontraram-se em Washington na chamada "Conferência Trident", que teve início em 12 de maio de 1943 e continuou de forma muito acesa e contrastada até 24 de maio, com a presença do presidente Roosevelt e do primeiro-ministro Churchill[24]. Deviam acordar-se os programas bélicos subsequentes no teatro europeu: os americanos, liderados pelo chefe do estado-maior general George Marshall, solicitaram novamente o lançamento do grande ataque decisivo através do Canal da Mancha e a interrupção de todas as operações no Mediterrâneo após a conquista da Sicília; os militares britânicos, apoiados por Churchill, propuseram novamente os seus planos para prolongar as operações no sul da Europa, provocar "a eliminação da Itália" e forçar a Alemanha a fragmentar ainda mais as suas próprias forças[25]. No final, alcançou-se um compromisso: decidiu-se efetuar o ataque em França até maio de 1944 e transferir para a Grã-Bretanha uma parte das divisões anglo-americanas estacionadas no Mediterrâneo para participar na futura Operação Overlord; contudo, o general Eisenhower estava autorizado a aproveitar o sucesso previsto na Sicília com novas operações para favorecer "a saída da Itália da guerra". Os chefes britânicos afirmaram que uma campanha na Itália seria fácil, que seriam suficientes nove divisões e que os alemães não seriam capazes de opor uma resistência eficaz[26].

Benito Mussolini e Adolf Hitler

A catástrofe final na Tunísia, precedida durante o inverno pela perda da Líbia e pelo trágico desastre do ARMIR na Rússia, provocou um grave enfraquecimento do regime fascista na Itália e da posição do próprio Benito Mussolini. O general Vittorio Ambrosio, o novo chefe do estado-maior general em substituição do marechal Ugo Cavallero, estava pessimista sobre a possibilidade de continuar a guerra; após as pesadas perdas de homens e meios dos últimos meses, as forças armadas italianas estavam numa situação crítica: dez divisões estavam em fase de reorganização, trinta e seis estavam empregadas no estrangeiro em tarefas de ocupação e na Itália estavam disponíveis apenas treze divisões prontas para a ação[27]; as forças navais e aéreas eram fracas. Mussolini não parecia totalmente consciente destas carências e do colapso moral entre as autoridades dirigentes: a 11 de março de 1943, tinha ridicularizado os "indivíduos de nervos fracos" que, após a derrota na Rússia, tinham pensado "que o 'bigodudo' (Stalin) chegaria a Longatico"[28], e mantinha uma aparente confiança em Hitler e na potência militar alemã. Os dois encontraram-se em Salzburgo em abril de 1943; inicialmente Mussolini avançou com a proposta de procurar um compromisso com Stalin e transferir a massa das forças da Wehrmacht para o Mediterrâneo, mas no final concordou com os planos de Hitler que, rejeitando as propostas do Duce, se mostrou otimista e seguro de poder vencer a guerra na frente oriental até 1943, lançando uma terceira ofensiva de verão[29].

O marechal de campo Albert Kesselring

Os sinais evidentes de colapso do seu principal aliado induziram, aliás, Hitler — informado por inúmeras fontes da escassa solidez política do governo fascista — a iniciar um planeamento preciso tendo em vista um colapso da Itália face ao ataque aliado ou um derrube de Mussolini[30]. Antes mesmo do fim dos combates no Norte da África, estavam presentes na Sardenha e na Sicília contingentes de três divisões móveis alemãs, cujo envio para a Tunísia estava originalmente previsto; em meados de maio, Hitler decidiu reforçar as suas forças na península enviando outras duas divisões mecanizadas que foram postas à disposição do comando Oberbefehlshaber Süd liderado pelo hábil marechal de campo Albert Kesselring[31]. Em 21 de maio, o alto comando alemão emitiu as diretrizes preparadas para enfrentar em todos os teatros de operação as consequências de uma possível deserção italiana: foram então preparadas a Operação Alarico (ocupação da península), a Operação Konstantin (neutralização das forças italianas nos Balcãs), a Operação Siegfried (ocupação das áreas do sul da França), a Operação Nürnberg (salvaguarda da fronteira franco-espanhola) e a Operação Kopenhagen (controlo das passagens na fronteira franco-italiana)[32]. Simultaneamente, a Wehrmacht prosseguiu o reposicionamento das suas reservas móveis: Hitler estava preocupado com um possível ataque aos Balcãs e, talvez desviado pelo plano de diversão aliado "Mincemeat", decidiu enviar para o Peloponeso uma divisão blindada. Em 17 de junho, finalmente, Mussolini apresentou, após contrastes entre os dirigentes político-militares italianos, pedidos precisos de reforços alemães para enfrentar as armadas aliadas, aos quais Hitler respondeu com a transferência, até 9 de julho, de outras três divisões mecanizadas que foram posicionadas no centro-sul da Itália; na véspera do desembarque aliado, oito experientes divisões alemãs encontravam-se na península ou nas duas maiores ilhas italianas.

Entretanto, a situação do regime fascista estava a deteriorar-se ainda mais: projetos diplomáticos irrealistas para um afastamento acordado da Itália do Eixo ou para a constituição de uma coligação de potências menores europeias "neutralizadas" foram excluídos por Mussolini; desenvolveram-se projetos político-militares confusos dentro das estruturas dirigentes das forças armadas e dos aparelhos administrativos do estado, e o rei Vítor Emanuel III iniciou os primeiros passos para uma eventual destituição de Mussolini[33]. Dentro do próprio Partido Fascista, alguns hierarcas começaram a conspirar contra o Duce. Mussolini não pareceu perceber o perigo: tentou galvanizar os militantes fascistas com novas e belicosas palavras de ordem e, ainda em 24 de junho de 1943, com um otimismo de fachada, falou em "congelar" o atacante que tentasse desembarcar na Itália "na linha da beira-mar"[34].

O campo de batalha

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A geomorfologia italiana impunha algumas limitações às operações dos Aliados: enquanto os bombardeiros tinham autonomia suficiente para atingir qualquer alvo na península, apenas os caças embarcados em porta-aviões podiam alcançar a Itália continental, mas estavam em número limitado e, de qualquer forma, a ameaça submarina do Eixo não permitia operações navais de longo alcance. A invasão da Sicília era, portanto, uma etapa obrigatória porque permitia permanecer no raio de ação dos aviões táticos com base na Tunísia, motivo que levou o comando aliado a preferi-la em vez da Sardenha[35]. Os Aliados tinham objetivos limitados na Itália e adotaram durante toda a campanha uma estratégia prudente[36], além de não explorarem completamente a sua supremacia aeronaval.

Hitler não atribuía um valor estratégico decisivo ao sul da Itália e estava convencido da necessidade de manter o mínimo de forças na península para não desproteger as outras frentes; por isso, não concedeu ao marechal Kesselring os reforços solicitados[37]. Os alemães decidiram renunciar a defender toda a península e concentrar as suas forças nas áreas onde a conformação geográfica era mais favorável à construção de sólidas posições defensivas, ou seja, onde a península se estreitava oferecendo enormes obstáculos orográficos e a presença de vários cursos de água podia constituir um obstáculo relevante, em particular durante a estação do inverno.

As forças em campo

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As forças em campo estiveram constantemente desequilibradas a favor dos Aliados, ainda mais porque o exército italiano, após a rendição, dissolveu-se e reformou-se posteriormente, em grande parte, no lado aliado, com exceção das unidades que seriam mobilizadas pelo Exército Nacional Republicano. Apesar da superioridade numérica e material, a eficiência das forças aliadas diminuiu na segunda metade de 1944 devido à retirada de muitas unidades de elite anglo-americanas, destinadas a serem empenhadas na França, que foram substituídas por unidades menos experientes[38].

O emprego de numerosas e poderosas forças aéreas deu aos Aliados uma nítida superioridade nos céus; os alemães, empenhados sobretudo em defender o Reich, destacaram apenas um número limitado de aviões na Itália. Os Aliados usaram constantemente as forças aéreas táticas em apoio às forças terrestres e as únicas operações aéreas de certa consistência foram os bombardeamentos às cidades do norte da Itália e aos centros industriais italianos envolvidos na produção bélica para a Alemanha. Por parte do Eixo, as operações foram quase exclusivamente defensivas, com exceção dos ataques às forças navais aliadas empenhadas nos principais desembarques[39].

A Campanha da Itália

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É preciso que, assim que o inimigo tentar desembarcar, seja congelado naquela linha que os marinheiros chamam de beira-mar, a linha de areia onde a água acaba e a terra começa...

Afirmação de Mussolini à direção do Partido Nacional Fascista a 24 de junho de 1943, relatada pela imprensa a 5 de julho de 1943[40]

O desembarque na Sicília

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A Operação Husky, o nome de código aliado para designar a invasão da Sicília, teve início a 9 de julho de 1943, precedida no mês de junho pela ocupação das ilhas de Lampedusa, Linosa, Lampione e Pantelária, a qual caiu a 12 de junho, após ter sofrido intensos bombardeamentos por parte da Royal Air Force[41], e foi ocupada por unidades de uma divisão britânica sem encontrar resistência[42].

O general George Patton, comandante do 7.º Exército estadunidense na Sicília
O general Bernard Montgomery, comandante do 8.º Exército britânico na Sicília

A força de invasão aliada liderada pelo general Eisenhower era composta pelo 8.º Exército britânico do general Bernard Law Montgomery e pelo 7.º Exército estadunidense do general George Smith Patton, dependentes hierarquicamente do 15.º Grupo de Exércitos do general Harold Alexander, que tinha a responsabilidade efetiva das operações no terreno[43]. Os dois exércitos dispunham de uma força inicial de 181 000 homens com 600 carros de combate e 1 800 canhões[44]; o corpo expedicionário era constituído por sete divisões de infantaria, duas divisões blindadas e duas divisões aerotransportadas; o apoio vindo do mar era garantido por 2 275 navios de carga, 1 800 embarcações de desembarque e 280 navios de guerra[45]. As forças aéreas aliadas, comandadas pelo Air Chief Marshall Arthur Tedder, dispunham de mais de 5 000 aeronaves e gozavam de uma esmagadora superioridade em relação aos 520 aviões do Eixo[46]. O exército do general Patton, com uma força de quatro divisões, desembarcou nas zonas adjacentes a Licata, Gela e Scoglitti, enquanto o do general Montgomery, forte de quatro divisões e uma brigada, desembarcou a leste, entre Capo Passero e Siracusa[47]. No decorrer da curta campanha, os Aliados fizeram intervir outras unidades e, no final da operação, dispunham na Sicília de cerca de 467 000 soldados[48].

O general Alfredo Guzzoni, comandante do 6.º Exército italiano na Sicília
O general Hans-Valentin Hube, comandante do 14.º Panzerkorps alemão

As forças do Eixo presentes na ilha no momento do desembarque eram representadas pelo 6.º Exército italiano, comandado pelo general Alfredo Guzzoni e com uma força de nove divisões: as divisões "Aosta", "Assietta" (estacionada entre Palermo e Trapani), "Livorno" (estacionada em Caltagirone) e "Napoli" (estacionada entre Siracusa e Augusta) e cinco divisões costeiras, totalizando cerca de 200 000 homens[49]; o exército era integrado por duas divisões alemãs formadas em parte por tropas originalmente destinadas à campanha da Tunísia e ainda em fase de organização, a "Hermann Göring" do general Paul Conrath e a 15.ª Divisão Panzergrenadier comandada pelo general Eberhard Rodt, num total de cerca de 30 000 soldados que subiram a cerca de 60 000 no decorrer da campanha. O general Fridolin von Senger und Etterlin, representante alemão no seio do comando do general Guzzoni situado em Enna[50], respondia diretamente ao comandante supremo alemão do teatro meridional (Oberbefehlshaber Süd), o marechal de campo Albert Kesselring[49].

O desembarque aliado de 10 de julho de 1943, precedido por alguns lançamentos difíceis de paraquedistas na retaguarda e apoiado pelo poderoso suporte aéreo e naval, teve sucesso apesar da resistência das fracas divisões costeiras italianas. A 11 de julho, o general Guzzoni tentou contra-atacar a cabeça de ponte estadunidense de Gela com as divisões "Livorno" e "Hermann Göring"; a tentativa, embora alguns panzers tivessem chegado a poucas centenas de metros das praias, foi frustrada pelas artilharias, pela intervenção de forças blindadas e pelo apoio naval dos EUA. Os britânicos encontraram menor resistência e, logo a 11 de julho, o 8.º Exército ocupou sem dificuldade Siracusa e Augusta, uma importante base naval que se rendeu sem combater[51]. A 14 de julho, os Aliados uniram as suas cabeças de ponte e conquistaram Ragusa e Comiso.

Tropas britânicas desembarcam na Sicília a 10 de julho de 1943

Apesar dos sucessos aliados e dos sinais de colapso das tropas italianas, o marechal Kesselring conseguiu transferir para a Sicília a veterana 29.ª Divisão Panzergrenadier e a excelente 1.ª Divisão de Paraquedistas do general Richard Heidrich, transferida de urgência do sul da França; o enérgico e experiente general Hans-Valentin Hube, veterano da Batalha de Stalingrado, assumiu o comando de todas as forças alemãs agrupadas no XIV Panzerkorps e, na prática, dirigiu as operações das forças do Eixo na ilha, conseguindo estabelecer uma sólida frente defensiva a sul de Catânia que travou o avanço dos britânicos de Montgomery[52].

Movimentos das forças aliadas na Sicília de 12 de julho a 17 de agosto de 1943

Enquanto o 8.º Exército britânico enfrentava uma dura resistência na zona do Etna, o general Patton conseguiu, pelo contrário, sair da cabeça de ponte e avançar com as suas unidades blindadas diretamente para Palermo; as fracas defesas italianas foram facilmente superadas e os estadunidenses tomaram a cidade a 22 de julho. O 7.º Exército virou imediatamente para leste com o objetivo de chegar a Messina e cortar as linhas de comunicação das tropas do Eixo na Sicília[52]; no entanto, o marechal Kesselring e o general Hube foram capazes de constituir uma nova linha defensiva para proteger Messina e os estadunidenses, apesar da chegada à Sicília de outras divisões, foram travados a partir de 23 de julho em San Fratello e em Troina, onde se desenrolaram combates ferozes. Os desenvolvimentos políticos gerais, com a queda de Mussolini e a desintegração das unidades italianas, e a clara superioridade numérica e material aliada, levaram Hitler e o alto comando alemão a organizar uma evacuação metódica das divisões do Eixo através do estreito de Messina (Operação Lehrgang); até 17 de agosto, o general Hube conseguiu completar com sucesso a retirada de grande parte dos seus soldados e equipamentos[53]: foram evacuados cerca de 40 000 soldados alemães com 9 789 veículos, cinquenta e um carros de combate e 163 canhões[54] e 62 000 soldados italianos com 227 veículos e quarenta e um canhões.

No final da campanha, o 7.º Exército contabilizou 2 811 mortos, 6 471 feridos e 686 desaparecidos; o 8.º Exército registou 2 721 mortos, 7 939 feridos e 2 183 desaparecidos. As forças do Eixo sofreram cerca de 29 000 baixas: os italianos tiveram cerca de 4 700 mortos, os alemães 4 300; os feridos somaram cerca de 20 000 homens e os prisioneiros eram mais de 140 000, dos quais apenas 5 500 eram soldados alemães.

A queda do governo Mussolini e o armistício

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As desastrosas notícias provenientes da Sicília provocaram desenvolvimentos decisivos para as duas potências do Eixo. Hitler, preocupado com os sinais de colapso do exército italiano, deslocou-se a 19 de julho de 1943 à Itália e encontrou-se com Mussolini perto de Belluno (embora a historiografia o recorde como o encontro de Feltre[55]): o Duce pareceu deprimido e abúlico e, apesar das exortações dos seus generais e conselheiros, não conseguiu influenciar as decisões do Führer; Hitler confirmou querer lutar até ao fim em todas as frentes, exortou a reforçar a coesão interna com medidas draconianas, prometeu o envio de divisões alemãs e perspetivou a vitória graças a "armas secretas" em preparação[56]. O fracasso das conversações ditas de Feltre acelerou as decisões do Rei e dos generais, já decididos a destituir Mussolini, enquanto os hierarcas, liderados por Dino Grandi, durante a dramática reunião noturna de 25 de julho, contestaram abertamente a atuação do Duce e favoreceram a desintegração do regime[57].

O armistício de Cassibile: da esquerda, os generais Walter Bedell Smith, Giuseppe Castellano e Dwight Eisenhower

Na tarde de 25 de julho de 1943, Mussolini foi detido pelo rei Vítor Emanuel após uma breve conversa e transferido sucessivamente para uma série de refúgios secretos; em poucas horas o regime fascista desagregou-se, os hierarcas fiéis ao Duce fugiram e o marechal Pietro Badoglio foi nomeado chefe do novo governo, que oficialmente confirmou a fidelidade à aliança com a Alemanha e a decisão de continuar a lutar contra os Aliados. Na realidade, o Rei, Badoglio e os principais dirigentes do novo governo consideravam inevitável sair da guerra; após algumas indecisões, a 12 de agosto de 1943 emissários italianos encontraram-se em Lisboa com o chefe de estado-maior de Eisenhower, general Walter Bedell Smith, do qual souberam que os chefes aliados previam a rendição incondicional da Itália[58]. Hitler, informado da inesperada destituição de Mussolini, compreendeu imediatamente que esta colocaria em perigo a aliança do Eixo, não deu qualquer confiança à nova liderança e preparou rapidamente novos planos para enfrentar militarmente a esperada deserção da Itália. Após ter equacionado uma intervenção imediata em Roma, Hitler decidiu ganhar tempo à espera dos acontecimentos e, entretanto, reforçar substancialmente a presença alemã na península[59]. Segundo as diretrizes do novo plano Achse, enquanto o marechal Kesselring preparava a evacuação da Sicília e a defesa do sul da Itália, o marechal Rommel assumiu o comando de um novo Grupo de Exércitos B que transferiu o seu quartel-general para Bolonha a 14 de agosto; em poucas semanas entraram no norte de Itália mais oito divisões alemãs, entre as quais duas divisões blindadas, enquanto uma divisão de paraquedistas aterrou em Pratica di Mare, a sul de Roma[60].

Informados dos contactos secretos iniciados em Lisboa com os emissários do novo governo italiano, os dirigentes anglo-americanos procederam a uma nova análise do seu planeamento operacional: Eisenhower propôs prolongar as operações após a conquista da Sicília, explorando a prometida colaboração italiana para ocupar o território compreendido entre os importantes aeroportos de Foggia e o grande Porto de Nápoles[61]; o general Marshall e os restantes chefes estadunidenses concordaram com este plano, convictos de que o objetivo das operações na península devia ser estritamente limitado à ocupação de bases aéreas e a manter ocupado, longe das frentes principais, o maior número possível de tropas alemãs. A 14 de agosto de 1943, o presidente Roosevelt e o primeiro-ministro Churchill encontraram-se no Quebec e tomaram as decisões definitivas: foi confirmada a data de 1 de maio de 1944 para a Operação Overlord e foi ordenado ao general Eisenhower que ocupasse a Sardenha e a Córsega; a 17 de agosto foi aprovada a invasão da península italiana através de um desembarque principal em Salerno, previsto para 9 de setembro de 1943[62].

Benito Mussolini após a sua libertação por parte dos paraquedistas alemães

As discussões entre os enviados italianos e os representantes aliados, primeiro em Lisboa e depois na Sicília, arrastaram-se com dificuldade durante alguns dias: temendo uma violenta reação alemã, o marechal Badoglio pediu uma maciça intervenção anglo-americana em simultâneo com o anúncio do armistício, e estudaram-se planos para empregar uma divisão de paraquedistas americana na área de Roma[63]. A 3 de setembro de 1943, o general Giuseppe Castellano assinou o Armistício de Cassibile, mas surgiram novos problemas de execução: Badoglio pediu um adiamento do anúncio, enquanto o general Maxwell Taylor, chegado em segredo a Roma, aconselhou a renunciar, devido à evidente desorganização italiana, à intervenção dos paraquedistas. Na noite de 8 de setembro de 1943, Eisenhower deu a comunicação oficial da rendição italiana e Badoglio, após uma dramática reunião na presença do Rei, foi por sua vez obrigado a difundir pela rádio a notícia[64].

A reação de Hitler e dos comandos alemães, apesar da surpresa pelo repentino anúncio do armistício, foi rápida e eficaz: o plano Achse foi imediatamente ativado e as tropas da Wehrmacht tomaram a dianteira em todos os teatros de guerra onde estavam presentes unidades italianas, explorando sobretudo a desorganização e a confusão presentes entre as tropas e os altos comandos do Exército Real que, privados de diretrizes precisas e atempadas, se desintegraram em grande parte. No norte de Itália, o marechal Rommel ocupou as cidades mais importantes e capturou a massa das divisões italianas que opuseram escassa resistência; em Roma, após alguns duros combates e negociações confusas, o marechal Kesselring tomou posse da cidade; nos Balcãs os alemães ocuparam todo o território e esmagaram brutalmente as tentativas de resistência locais, com mais de 600 000 soldados italianos deportados para a Alemanha[65]. Badoglio, o Rei e os seus colaboradores preferiram abandonar imediatamente Roma e, após terem alcançado Pescara, transferiram-se para Brindisi onde reconstituíram uma estrutura de governo no território que escapara à ocupação alemã, o chamado Reino do Sul; a 13 de outubro de 1943 o governo Badoglio declarou guerra à Alemanha obtendo dos Aliados o estatuto de "cobeligerante". Entretanto, a 12 de setembro de 1943, uma unidade de paraquedistas alemães tinha libertado Mussolini da prisão no Gran Sasso; fortemente instado por Hitler e embora debilitado e deprimido, o Duce decidiu assumir a direção de um novo estado fascista, a República Social Italiana (RSI), que foi constituída a 23 de setembro na Itália centro-norte para colaborar com o ocupante alemão[66].

Os desembarques aliados no sul da Itália

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Tropas aliadas desembarcam em Salerno

A 3 de setembro de 1943, o 8.º Exército iniciou a invasão da Itália continental com os primeiros desembarques na Calábria (Operação Baytown), da qual as unidades alemãs se tinham retirado sem avisar os italianos e sabotando as infraestruturas[67]. Segundo o planeamento aliado, a saída da guerra da Itália deveria ter ocorrido em simultâneo com o desembarque principal na península, previsto para o setor de Salerno segundo o projeto Avalanche. A 9 de setembro de 1943, de facto, as principais forças anglo-americanas, que a bordo dos navios tinham festejado o alegado fim das operações militares no teatro italiano na sequência do armistício de Cassibile, desembarcaram em Salerno, enquanto tropas britânicas punham em prática uma ação secundária ocupando Taranto (Operação Slapstick)[68].

O general Mark Clark, comandante do 5.º Exército estadunidense

A 1.ª Divisão Aerotransportada britânica, sob a cobertura das forças navais do vice-almirante Arthur Power, desembarcou diretamente no Porto de Taranto; os elementos de paraquedistas alemães presentes no setor preferiram recuar e não opuseram resistência ao desembarque, mas por falta de meios de transporte os paraquedistas britânicos não puderam avançar imediatamente para Foggia e para o próximo e ambicionado Aeroporto de Amendola, na altura o maior aeroporto militar da Europa[69]. A 11 de setembro as tropas britânicas chegaram a Brindisi, onde se tinham refugiado Vítor Emanuel e o marechal Badoglio. A 22 de setembro os paraquedistas britânicos chegaram por terra a Bari, enquanto uma outra divisão desembarcava no porto[69]; a cidade já tinha sido evacuada pelos alemães desde 8 de setembro. Foggia e o aeroporto de Amendola foram finalmente ocupados a 27 de setembro[69].

A ação principal aliada em Itália tinha começado às 03:30 de 9 de setembro, quando o 5.º Exército estadunidense liderado pelo tenente-general Mark Clark desembarcou numa secção de costa com 40 quilómetros de largura, entre Minori e Paestum: o VI Corpo de exército americano do general Ernest Dawley tomou terra a sul, perto de Paestum, o X Corpo de exército britânico do general Richard McCreery desembarcou a norte, na zona de Salerno e Minori. Cada um dos corpos compreendia duas divisões num total de cerca de 200 000 homens. Inicialmente as operações decorreram favoravelmente e a 11 de setembro desembarcou também a 45.ª Divisão americana alargando a linha de invasão a 70 quilómetros, entre Amalfi e Agropoli[70].

Na realidade os alemães tinham mantido a posse das posições dominantes nas colinas, e o marechal Kesselring e o general Heinrich von Vietinghoff puderam controlar a situação fazendo afluir numerosas divisões móveis do sul e do norte. Após alguns ataques iniciais que colocaram em dificuldade as pontas de lança aliadas, a contraofensiva alemã teve início a 12 de setembro com a intervenção, em reforço da 16.ª Divisão Panzer já presente no local, de duas divisões Panzergrenadier e duas divisões Panzer adicionais. Os alemães exploraram a brecha central ao longo do curso do rio Sele na cabeça de ponte e obtiveram alguns sucessos importantes que fizeram temer uma catástrofe para os Aliados. As tropas alemãs, muito mais experientes e combativas, expulsaram os britânicos de Battipaglia e os americanos de Persano; algumas unidades aliadas foram destruídas e a Luftwaffe atacou os navios aliados ao largo infligindo perdas sensíveis; as forças da Wehrmacht estiveram a ponto de obter uma vitória resolutiva[71].

Canhão antitanque alemão em ação durante a batalha de Salerno
O general Heinrich von Vietinghoff, comandante do 10.º Exército alemão

Os anglo-americanos tiveram de recuar e o general Clark, embora coordenando diretamente das praias a defesa e tentando energicamente resistir, tomou em consideração a possibilidade de uma evacuação da cabeça de ponte de Salerno[72]. A situação crítica foi resolvida com a chegada de reforços pelo mar e pelo ar, constituídos por elementos de paraquedistas americanos e por uma divisão blindada britânica; também o maciço bombardeamento aero-naval de 14 e 15 de setembro sobre as posições alemãs teve um papel fundamental[73], além do facto de, nesta fase, o marechal Rommel ter recusado, de acordo com as disposições de Hitler, enviar em auxílio para o sul as duas divisões blindadas cujo comando ele detinha no norte de Itália[74]. Kesselring desistiu de novos ataques à cabeça de ponte de Salerno considerando já impossível rechaçar os Aliados para o mar e, a 16 de setembro, deu ordem para retirar em direção à linha do rio Volturno. As tropas da Wehrmacht perderam em Salerno 3 500 homens, mas tinham capturado 5 000 prisioneiros e infligido baixas muito mais elevadas aos anglo-americanos[75]; o general von Vietinghoff afirmou que "mais uma vez os soldados alemães deram provas da sua superioridade sobre o inimigo"[76].

Na Calábria, a manobra de diversão do 8.º Exército britânico não alcançou grandes resultados: os alemães retiraram-se ordenadamente e conseguiram concentrar as suas forças na zona de Salerno; os britânicos avançaram lentamente ao longo de 300 quilómetros em direção a norte sem encontrar resistência. Por fim, a 16 de setembro, elementos do 5.º e do 8.º Exércitos juntaram-se perto de Vallo della Lucania, enquanto, entretanto, na Apúlia os paraquedistas britânicos ocuparam a Base Aérea de Gioia del Colle. Os alemães recuaram metodicamente com hábeis manobras das suas retaguardas, abandonando Foggia a 27 de setembro após terem efetuado muitas demolições. A 29 de setembro, o general Montgomery entrou na cidade com o grosso do seu exército. A 1 de outubro, elementos do Exército Privado de Popski completaram a libertação do Complexo Aeroportuário de Foggia, considerado essencial pelo alto comando aliado para poder atingir com os bombardeamentos aéreos as regiões meridionais da Alemanha e a Europa do sudeste.

Entretanto, as unidades alemãs presentes na Sardenha, sob o comando do general Fridolin von Senger und Etterlin, receberam a ordem de evacuar a ilha e retirar para a Córsega. As tropas da Wehrmacht efetuaram com sucesso a retirada, concluída a 18 de setembro apesar da oposição das unidades italianas; por fim, os alemães completaram a 4 de outubro também a evacuação da Córsega onde tinham desembarcado unidades francesas, retirando-se para Piombino[77].

A libertação de Nápoles e o avanço para o norte

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As linhas defensivas alemãs no centro-sul da Itália

Reorganizadas as tropas após os duros combates na planície de Salerno e substituído o general Dawley — considerado o responsável pelas dificuldades iniciais em Salerno — pelo general John Lucas no comando do VI Corpo de exército, o general Clark ordenou retomar o avanço para o norte. Clark tinha estabelecido que as tropas britânicas sob o comando do general McCreery, depois de ocuparem Nápoles, atingiriam o rio Volturno fixando-se na sua margem esquerda até Cápua, de onde se reuniriam aos estadunidenses que se posicionariam à sua direita até Benevento.

Mas o avanço revelou-se mais lento do que o previsto, também devido às inumeráveis destruições rodoviárias, facto que permitiu aos alemães minar ainda mais, e de forma maciça, tanto as vias rodoviárias que conduziam a Nápoles, como numerosas estruturas da própria cidade, bem como efetuar rusgas que provocaram a resistência de civis e soldados italianos dispersos durante as chamadas "Quatro Dias de Nápoles"[78]. A 29 de setembro, o marechal Kesselring foi informado pelo comando do 10.º Exército alemão de que «Nápoles está em plena revolta» e a 1 de outubro, com a entrada das primeiras unidades blindadas britânicas na cidade, os alemães completaram a evacuação das suas tropas[79]. Após a libertação de Nápoles, os Aliados esperavam poder chegar rapidamente e ocupar Roma, um objetivo de prestígio, fortemente ambicionado tanto por Clark como por Montgomery, o qual, após a desilusão pela sua exclusão do teatro de Salerno, antevia a oportunidade para o 8.º Exército entrar primeiro na capital[80]. O general britânico considerava estar numa posição mais favorável em relação ao seu rival: subindo a costa do Adriático e tendo nas costas o porto seguro de Bari para os abastecimentos, estava convencido de poder chegar rapidamente a Pescara e prosseguir para oeste em direção à bacia de Avezzano, cuja posse abriria as portas de Roma e tornaria possível uma grande manobra de cerco às forças alemãs[81].

Tropas britânicas em marcha em outubro de 1943

Na frente do Adriático, na noite entre 2 e 3 de outubro de 1943, grupos de comandos britânicos chegados por mar perto de Termoli ocuparam tanto o porto como a povoação, à espera que o 8.º Exército, atravessando o rio Biferno, os alcançasse; contudo, foram contra-atacados pelos alemães da 16.ª Divisão Panzer, que os colocaram em dificuldade. Após dois dias de combates chegou finalmente o grosso do 8.º Exército, atrasado pela destruição das pontes sobre o Biferno, e os alemães recuaram para as posições defensivas do rio Trigno[82]. Na frente do Tirreno, o general Clark chegou ao Volturno, onde recebeu relatórios sobre os trabalhos de consolidação das posições alemãs ao longo da chamada linha "de inverno" ou "do Volturno"; o general decidiu antecipar a ofensiva marcando a travessia do Volturno para a noite de 12 de outubro com três divisões estadunidenses[82]. As divisões conseguiram atravessar o rio em vários pontos entre Cápua e Caiazzo, enquanto uma divisão do X Corpo britânico do general McCreery se viu em dificuldades no setor costeiro; de qualquer modo o general Clark retomou os ataques e ao fim de sete dias de combates os alemães decidiram retirar-se ordenadamente para a linha defensiva seguinte[83].

Após o rompimento bem sucedido da linha do Volturno, os exércitos anglo-americanos depararam-se com dificuldades crescentes devido ao terreno íngreme dos Apeninos e ao agravamento das condições climáticas que tornou o terreno quase impraticável. Também as retaguardas alemãs, mantendo o controlo das elevações dominantes, contribuíram para atrasar o avanço aliado agindo a partir dos postos avançados da linha principal de resistência, a chamada Linha Gustav[84]. Nesta fase surgiram de novo fortes contrastes entre Rommel, que considerava oportuno desistir de defender Roma e estabelecer a principal linha de resistência nos Apeninos toscano-emilianos a sul do Vale do Pó, e Kesselring que, pelo contrário, mais otimista, estava certo de poder organizar a sul da capital uma defesa sólida, capaz de travar o avanço aliado. Hitler manteve-se por muito tempo indeciso e pareceu inicialmente concordar com a opinião de Rommel, mas por fim preferiu dar um voto de confiança ao marechal Kesselring que, por isso, a partir de 21 de novembro de 1943, assumiu o comando supremo de todas as forças alemãs em Itália, agrupadas no novo Grupo de Exércitos C com a ordem de resistir até ao fim a sul de Roma, enquanto Rommel foi chamado de regresso à Alemanha[85].

No final de outubro, o general Henri Giraud chegou a Nápoles para preparar com Clark o previsto destacamento na Itália de uma força expedicionária francesa; a 4 de novembro, perante as dificuldades do avanço causadas pelo mau tempo e pela escassez dos recursos disponíveis, iniciaram-se as primeiras discussões sobre uma eventual nova operação anfíbia[86]. Em meados de novembro, o 5.º Exército tinha já alcançado as posições montanhosas em frente à Linha Gustav[87], enquanto do lado do Adriático, a 2 e 3 de novembro as tropas de Montgomery, superado o Trigno, tiveram de parar perante as posições defensivas alemãs ao longo do rio Sangro (Batalha do Sangro), da torrente Moro e da povoação de Ortona.

O assalto à Linha Gustav

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Rompimento da linha de inverno alemã

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Paraquedistas alemães em posição com uma metralhadora MG 34 na frente italiana

O marechal de campo Kesselring havia assegurado a Hitler ser capaz de parar o avanço aliado e de poder defender a Itália centro-norte ao sul de Roma[88]: ele havia organizado uma série de posições de resistência sucessivas onde pretendia frear progressivamente o ímpeto aliado, explorando as vantagens do terreno e do clima. O setor tirreno da frente alemã havia sido designado ao general von Senger und Etterlin, comandante do 14º Panzerkorps, que dispunha de três divisões de infantaria e de uma divisão Panzergrenadier para defender a Linha Bernhardt[89].

O alto comando aliado do Mediterrâneo, liderado pelo general Eisenhower, havia estabelecido em 8 de novembro de 1943 o novo plano de ofensiva geral, com o nome de código Operação Raincoat, para romper a linha de inverno alemã[90]. Nesta fase, algumas das melhores formações aliadas foram retiradas do teatro mediterrâneo para serem transferidas para a Grã-Bretanha em preparação para a Operação Overlord, definitivamente confirmada após a Conferência de Teerã: quatro divisões americanas (incluindo uma de paraquedistas) e três divisões britânicas deixaram então a Itália. Em compensação, o general Alexander recebeu, além do corpo expedicionário francês sob o comando do general Alphonse Juin, uma unidade de elite de tropas canadenses e estadunidenses comandada pelo coronel Robert Frederick, duas combativas divisões polonesas lideradas pelo general Władysław Anders[91] e uma unidade italiana do novo Exército Cobeligerante, o I Agrupamento Motorizado sob o comando do general de brigada Vincenzo Dapino[92]. O corpo expedicionário francês, em particular, demonstraria notáveis capacidades de combate em áreas montanhosas, mas se tornaria tristemente conhecido pela população italiana, sobretudo feminina, pelos inúmeros atos de violência que ficariam conhecidos como "Marocchinate"[93].

Tropas canadenses durante a Batalha de Ortona

O plano do general Alexander para romper a frente alemã previa lançar um primeiro ataque no setor adriático em direção a Pescara e Avezzano; logo em seguida, o general Clark atacaria através do passo de Mignano até Cassino e depois Frosinone, esperando alcançar as duas cidades até o Natal. O general Clark, apesar das dificuldades do terreno, estava otimista e decidido a chegar a Roma, assegurando a Alexander que romperia a linha de inverno e desbarataria os alemães[94]. A ofensiva aliada teve início em 28 de novembro de 1943 no setor adriático: inicialmente o general Montgomery, atacando com cinco divisões (incluindo uma divisão canadense e uma neozelandesa), conseguiu atravessar o rio Sangro e considerou que "a estrada para Roma está aberta"; na realidade, nos dias seguintes, os alemães retardaram o avanço, dificultado também pelas fortes chuvas, e os britânicos foram finalmente forçados a parar contra os redutos de Orsogna e Ortona[95]. Os canadenses atacaram Ortona, mas tiveram que enfrentar a dura resistência de unidades de elite de paraquedistas alemães: a Batalha de Ortona, a "Stalingrado da Itália", terminou em 27 de dezembro de 1943 com a retirada alemã, mas os canadenses sofreram perdas altíssimas e tiveram que parar. Na Batalha de Orsogna, foram os neozelandeses a serem bloqueados, e as outras divisões do 8º Exército também se encontraram em dificuldade. Os planos do general Montgomery haviam falhado: o comandante britânico teve que interromper a ofensiva e renunciar ao avanço sobre Pescara[96]. O ataque no setor adriático foi prejudicado também pelo bem-sucedido ataque da Luftwaffe ao porto de Bari em 2 de dezembro de 1943, que infligiu graves danos às instalações e provocou um desastre químico devido ao vazamento de gás mostarda transportado secretamente por um dos navios aliados atracados no porto[97].

O general Clark havia começado sua ofensiva em 3 de dezembro contra a série de difíceis posições montanhosas guarnecidas pelos alemães do general von Senger. Uma divisão britânica do X Corpo conseguiu, com um ataque noturno, conquistar o monte Camino, que em novembro havia resistido a todos os assaltos[98]. Por outro lado, o ataque principal da 34ª Divisão texana foi direcionado contra a cidade de San Pietro Infine e as colinas circundantes que davam acesso ao vale do rio Liri: as tropas especiais do general Frederick obtiveram algum sucesso, mas em 7 de dezembro os italianos do Primeiro Agrupamento Motorizado foram derrotados em Monte Lungo pelos Panzergrenadier alemães[99]. Em 8 de dezembro, teve início o ataque principal americano: após dez dias de sangrentos combates nas montanhas, os alemães tiveram que evacuar Monte Lungo e San Pietro Infine, que caiu em 17 de dezembro de 1943. Contudo, os Aliados haviam sofrido pesadas perdas e o general Clark também precisou suspender a ofensiva sem ter conseguido abrir o caminho para Roma; o marechal Kesselring consolidou, assim, suas posições na Linha Gustav, baseada em Cassino e no curso dos rios Rapido e Garigliano[100][101].

No final do ano de 1943, os líderes máximos aliados compreenderam definitivamente que, no momento, era impossível obter um sucesso decisivo na Itália; o teatro mediterrâneo passou então para segundo plano se comparado à grande Operação Overlord em fase de preparação na Grã-Bretanha. O general Eisenhower, designado comandante em chefe da força expedicionária prevista para o desembarque na França, cedeu o comando do teatro mediterrâneo ao general Henry Maitland Wilson e retornou a Londres; em 31 de dezembro de 1943, Montgomery também deixou a Itália e voltou para casa, após passar o comando do 8º Exército ao general Oliver Leese[102].

Primeira batalha de Cassino e desembarque de Anzio

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Citação: Eu achava que tínhamos atirado um gato selvagem nas Colinas, e em vez disso temos uma baleia encalhada na praia escreveu: «Winston Churchill comentando o decepcionante desenvolvimento das operações na cabeça de ponte de Anzio[103]»

Tanques americanos M4 Sherman desembarcam em Anzio

Winston Churchill, apesar de ter aprovado o planejamento geral aliado e de ter apoiado a execução da Operação Overlord em maio de 1944, continuava a projetar uma grandiosa estratégia alternativa, mediterrânea e balcânica, para apressar a derrota da Alemanha e prevenir a temida irrupção do Exército Vermelho no coração da Europa. Ele conseguiu, assim, que o Comitê dos Chefes de Estado-Maior Combinados anglo-americanos aprovasse uma nova operação de desembarque na Itália, que deveria permitir superar a situação de impasse ao longo da Linha Gustav, destruindo o exército alemão do marechal Kesselring e abrindo caminho para um avanço de Roma diretamente em direção a Liubliana, na Eslovênia. A Operação Shingle previa, por um lado, a retomada do ataque de Clark no setor de Cassino para atrair as reservas alemãs e, por outro, o desembarque no setor de Anzio e Nettuno de um corpo expedicionário anglo-americano sob o comando do general John Lucas, que avançaria rapidamente em direção a Roma, cortando as linhas de comunicação das forças alemãs de von Vietinghoff posicionadas na Linha Gustav[104].

O general John Lucas, comandante das forças aliadas desembarcadas em Anzio

Em 16 de janeiro de 1944, Clark deu início a uma série de ataques no setor de Cassino; o plano do alto comando aliado previa atrair com este novo ataque contra a Linha Gustav as reservas alemãs, favorecendo assim o sucesso do desembarque em Anzio[105]. No entanto, a primeira Batalha de Cassino não alcançou resultados decisivos e as tropas aliadas sofreram pesadas perdas: o II Corpo de Exército estadunidense do general Geoffrey Keyes lançou um difícil ataque através do rio Rapido, esperando ocupar a cidade de Sant'Angelo in Theodice e infiltrar-se no Vale do Liri, mas a 36ª Divisão texana, que realizou a travessia do rio na noite de 20 de janeiro de 1944, foi rechaçada sangrentamente pelas tropas alemãs da 15. Panzergrenadier-Division posicionadas ao longo da margem, sendo quase destruída[106]; os franceses do general Juin alcançaram alguns picos, mas não puderam avançar em direção a Atina, enquanto os britânicos de McCreery superaram o Garigliano, mas não conseguiram conquistar o Monte Maio. Apesar dos sucessos defensivos do 14º Panzerkorps do general von Senger, Vietinghoff, comandante do 10º Exército, alarmou-se e pediu reforços, levando Kesselring a enviar a 29ª e a 90ª Panzergrenadier-Division para a Linha Gustav, enfraquecendo assim suas reservas[107].

O desembarque do VI Corpo de Exército em Anzio e Nettuno, em 22 de janeiro de 1944, ocorreu com facilidade e praticamente sem oposição; os alemães foram pegos completamente de surpresa, e a 1ª Divisão de Infantaria britânica, a 3ª Divisão de Infantaria americana e três batalhões de Rangers desembarcaram sem dificuldade. O alto comando alemão só recebeu as primeiras notícias do desembarque seis horas depois e apressou-se a mobilizar todas as reservas para enfrentar a ameaça, mas, na teoria, a estrada para Roma permaneceu aberta durante os primeiros três dias[108].

O general Eberhard von Mackensen, comandante do 14º Exército alemão

Na realidade, apesar dos projetos otimistas de Churchill, o planejamento dos generais aliados não previa que as forças desembarcadas em Anzio marchassem imediatamente para Roma; Lucas era um comandante prudente, metódico e pessimista, e já havia sido aconselhado por Clark e também por Patton a não correr riscos: ele pretendia sobretudo completar o desembarque regular das tropas e materiais e consolidar calmamente a cabeça de ponte com a chegada das unidades blindadas da segunda onda, antes de avançar[109][110]. Kesselring, apesar da surpresa inicial, reagiu com grande rapidez e ativou imediatamente o chamado "Caso Richard", o plano já previsto em caso de desembarque na costa do Tirreno: em poucos dias afluíram ao setor da cabeça de ponte de Anzio o I Corpo de Exército Paraquedista com a divisão blindada "Hermann Göring" e a 4ª Divisão Paraquedista, além do 76º Panzerkorps com a 26ª Divisão Panzer, a 3ª e a 29ª Panzergrenadier-Division; ademais, o alto comando alemão enviou como reforço outras quatro divisões de infantaria provenientes do Norte da Itália e dos Bálcãs[111]. A partir de 23 de janeiro de 1944, o general Eberhard von Mackensen assumiu o comando do 14º Exército, encarregado de organizar essas divisões e conter as forças aliadas desembarcadas em Anzio e Nettuno; as tropas alemãs chegaram rapidamente ao local e, já em 29 de janeiro, eram numericamente superiores às forças de Lucas[112]. Somente em 30 de janeiro de 1944 o general Lucas iniciou operações ofensivas para sair da cabeça de ponte, mas até 2 de fevereiro todas as tentativas de avanço fracassaram: dois batalhões de Rangers do coronel William Darby foram surpreendidos pelo contra-ataque alemão e foram aniquilados em Cisterna, com muitos prisioneiros sendo depois forçados a desfilar no centro de Roma; os ataques da 3ª Divisão americana e da 1ª Divisão britânica também foram duramente repelidos, e Lucas decidiu suspender a ofensiva, após ter perdido 3 000 homens e um terço de seus veículos blindados[113].

Tropas alemãs no setor da cabeça de ponte de Anzio

Kesselring acreditava poder controlar a situação em Cassino, onde os Aliados estavam sofrendo pesadas perdas, e simultaneamente contra-atacar em massa em Anzio para empurrar de volta ao mar as tropas aliadas que estavam estagnadas na estreita cabeça de ponte; Hitler também buscava uma grande vitória em Anzio com o planejamento de uma contraofensiva maciça que infligisse uma derrota contundente aos anglo-americanos e demonstrasse o poder intacto da Wehrmacht[114]. O general von Mackensen recebeu em 29 de janeiro de 1944 a ordem de "aniquilar" a cabeça de ponte de Anzio lançando um ataque violento com a ajuda dos notáveis reforços de homens e equipamentos que lhe haviam sido atribuídos[115]. Para a contraofensiva prevista, Kesselring agrupou trinta e três batalhões de infantaria, 250 tanques e poderosas unidades de artilharia, incluindo um canhão ferroviário de 280 mm (o chamado "Anzio Annie"). A Operação Fischfang começou em 3 de fevereiro de 1944 com um ataque limitado no setor de Aprilia; após combates violentos e duras baixas de ambos os lados, os alemães conseguiram reconquistar Aprilia em 9 de fevereiro, e os britânicos tiveram que recuar[116].

Os setores da cabeça de ponte de Anzio e da frente de Cassino

Após a série de fracassos, o alto comando aliado estava fortemente preocupado com a situação cada vez mais difícil da cabeça de ponte de Anzio; reforços foram enviados, Clark viajou para Anzio e considerou-se a possibilidade de destituir o general Lucas e substituí-lo por Patton. O ataque principal alemão foi desencadeado em 16 de fevereiro de 1944: von Mackensen concentrou em um setor restrito uma divisão blindada, duas divisões Panzergrenadier e duas divisões de infantaria para avançar ao longo da estrada Albano-Anzio diretamente até o mar[117]. A ofensiva do 14º Exército inicialmente colocou as tropas aliadas em grave dificuldade; os soldados anglo-americanos ofereceram forte resistência, mas algumas posições foram superadas e, mesmo à custa de duras baixas, os alemães conseguiram avançar por alguns quilômetros no centro da cabeça de ponte no segundo dia do ataque, chegando a cerca de cinco quilômetros do mar. Apesar desses sucessos, os alemães não foram capazes de alcançar uma vitória decisiva e algumas unidades inexperientes foram repelidas; além disso, Clark e o general Truscott, nomeado vice-comandante do setor de Anzio, fizeram intervir as reservas, enquanto a aviação e a artilharia aliadas atingiam duramente as tropas alemãs. Os anglo-americanos contra-atacaram em 19 de fevereiro e detiveram o avanço alemão, mas a batalha continuou feroz até 22 de fevereiro de 1944, quando Kesselring interrompeu a ofensiva[118].

Os Aliados haviam evitado uma derrota estratégica em Anzio, mas as tropas na cabeça de ponte estavam muito enfraquecidas, tendo sofrido mais de 20 000 baixas desde o início da Operação Shingle; Clark decidiu destituir Lucas, substituindo-o pelo general Truscott[119]. A batalha em Anzio se transformou por muitas semanas em uma desgastante guerra de posições, onde as unidades aliadas se encontravam amontoadas em um espaço restrito e submetidas ao fogo da artilharia alemã[120]. As tropas alemãs também estavam enfraquecidas após a sangrenta batalha: Kesselring visitou o local, observou o cansaço e a queda do moral de seus soldados[121] e convenceu Hitler a renunciar a novos ataques; o Führer expressou lamento pelo fracasso da ofensiva, mas concordou com as avaliações de seus generais no local[122].

Segunda e terceira batalhas de Cassino

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A Abadia de Monte Cassino devastada pelo bombardeio aliado de 15 de fevereiro de 1944

Enquanto a situação das tropas aliadas desembarcadas em Anzio se tornava cada vez mais difícil, Clark havia retomado os ataques no setor de Cassino com o II Corpo de Exército do general Keyes e com as unidades francesas do general Juin, mas sem alcançar resultados decisivos. Os estadunidenses foram novamente bloqueados no rio Rapido, enquanto os franceses conseguiram, em 25 de janeiro de 1944, conquistar algumas posições montanhosas ao norte de Cassino após confrontos violentos com uma divisão alemã, mas esgotaram suas forças e foram obrigados a parar; von Vietinghoff enviou algumas formações de reserva que reforçaram as defesas do general von Senger[123]. Clark decidiu em 12 de fevereiro interromper os ataques do II Corpo de Exército e retirar os estadunidenses, utilizando em seu lugar as tropas do general Bernard Freyberg, compostas por uma divisão neozelandesa e uma indiana; acreditava-se que essas tropas, experientes e combativas, seriam capazes de conquistar a fortaleza alemã atacando Cassino pelo norte e abrindo uma passagem ao longo do Vale do Liri para as reservas blindadas aliadas[124].

O abade-geral da abadia de Monte Cassino, Gregorio Diamare (ao centro), deixa a abadia acompanhado, à sua esquerda, pelo tenente-general von Senger und Etterlin (fevereiro de 1944)

Nesta fase, as forças aéreas aliadas realizaram preliminarmente o Bombardeio da Abadia de Monte Cassino, considerada pelo general Freyberg um importante reduto alemão cuja destruição total ele julgava indispensável antes do ataque de seus soldados; na realidade, a abadia não estava ocupada pelas tropas alemãs, mas os generais Alexander e Wilson, pressionados por Freyberg e de posse de informações imprecisas, autorizaram o bombardeio apesar da oposição de Clark. Em 15 de fevereiro de 1944, 142 bombardeiros pesados e 87 bombardeiros médios lançaram mais de 400 toneladas de bombas: a destruição da abadia, porém, acabou favorecendo as tropas alemãs, que se instalaram entre os escombros[125]. Logo depois, teve início o ataque das divisões de Freyberg ao norte e ao sul de Cassino, mas os alemães defenderam tenazmente as posições nas elevações dominantes e, até 17 de fevereiro, os indianos e os neozelandeses foram bloqueados após sofrerem graves perdas[126].

Um dos soldados gurkhas recrutados pelo exército britânico

Apesar dos repetidos insucessos, a situação crítica que se formou na cabeça de ponte de Anzio levou os altos comandos aliados a organizar, no início de março de 1944, uma nova tentativa de romper a Linha Gustav e aliviar a pressão alemã contra as forças de Lucas; Alexander e Clark decidiram lançar um terceiro ataque no setor de Cassino, utilizando novamente o corpo de exército de Freyberg. O planejamento da chamada Operação Dickens previa o emprego em massa dos bombardeiros aliados, que lançariam mais de 1 000 toneladas de bombas, enquanto um fogo letal de artilharia precederia o ataque da infantaria; Clark, preocupado sobretudo com o setor de Anzio, estava cético quanto ao desfecho deste ataque, mas Alexander e Freyberg acreditavam que havia boas chances de alcançar a vitória[127].

A terceira Batalha de Cassino teve início na noite de 15 de março de 1944 com o bombardeio concentrado na área da cidade e da abadia por 550 bombardeiros médios e pesados, seguido imediatamente pelo fogo de 748 canhões que dispararam quase 200 000 projéteis; as defesas de Cassino haviam sido confiadas por Kesselring aos aguerridos paraquedistas do general Heidrich que, embora sofrendo graves perdas devido ao bombardeio maciço, se agarraram às ruínas dos edifícios e às posições nas cotas mais importantes, decididos a resistir[128]. As tropas neozelandesas atacaram no início da tarde de 15 de março, mas se depararam com uma oposição feroz dentro da cidade; os combates a curta distância continuaram por alguns dias sem resultados decisivos. Os paraquedistas alemães se defenderam por entre os escombros e resistiram também ao avanço das tropas indianas e gurkhas em direção às colinas a noroeste de Cassino; chuvas violentas tornaram o campo de batalha ainda mais difícil. Após alguns contra-ataques dos paraquedistas para conter o avanço dos gurkhas, em 22 de março o general Freyberg, pressionado por Clark, lançou um último assalto que, no entanto, custou novas baixas e não obteve resultados; na noite de 25 de março de 1944, os neozelandeses e os gurkhas suspenderam os ataques e iniciaram a retirada das posições mais expostas. A terceira Batalha de Cassino terminou, assim, com um novo sucesso defensivo alemão[129].

Operação Diadem e libertação de Roma

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Sei de interesses e maquinações para que seja o 8.º Exército britânico a tomar Roma... se Alexander sequer tentar fazer algo do gênero, terá em mãos outra batalha campal: contra mim

O general Clark em seu diário pessoal na data de 5 de maio de 1944[130]
O rompimento da Linha Gustav em maio de 1944

O sangrento fracasso da terceira tentativa de romper a linha Gustav no setor de Cassino e a decepcionante situação de impasse da cabeça de ponte de Anzio forçaram o comando aliado na Itália a suspender novas operações ofensivas e a proceder com uma completa reorganização das forças disponíveis. Em abril, Clark, muito exausto pelas dificuldades da campanha, retornou brevemente aos Estados Unidos e, no mesmo mês, Alexander também viajou para Londres; os dois generais discutiram com os líderes anglo-saxões no mais alto nível sobre os desdobramentos da situação e o novo planejamento[131] e os chefes anglo-americanos decidiram lançar uma ofensiva adicional para alcançar uma vitória decisiva na Itália. Foi considerado importante, inclusive por motivos de propaganda, derrotar os alemães e entrar em Roma antes do início da Operação Overlord, prevista para 5 de junho de 1944; esperava-se também poder atrair para a península as reservas alemãs e facilitar indiretamente o sucesso do desembarque na Normandia. O general Alexander, apoiado por Churchill e pelos chefes britânicos, conseguiu convencer o estado-maior combinado a reter na Itália, para uma nova ofensiva, as divisões designadas anteriormente para o previsto desembarque no sul da França, a Operação Anvil[132].

Um soldado marroquino do corpo expedicionário francês do general Alphonse Juin

O novo projeto ofensivo, chamado pelo nome de código Operação Diadem e idealizado pelo general John Harding, chefe de estado-maior de Alexander, previa transferir em segredo grande parte do 8.º Exército do general Oliver Leese do setor adriático para o de Cassino, enquanto o 5.º Exército de Clark restringiria sua zona de ataque ao setor de cerca de 32 quilômetros compreendido entre o rio Liri e a costa tirrena[133]. No total, Alexander atacaria a Linha Gustav com doze divisões do 8.º Exército, entre elas duas divisões polonesas, duas canadenses e uma sul-africana, e com sete divisões do 5.º Exército, entre elas quatro divisões francesas[134]. O ataque principal seria conduzido pelo 8.º Exército ao longo do vale do Liri, e o 5.º Exército, por sua vez, atacaria o difícil terreno dos Montes Auruncos, enquanto na cabeça de ponte de Anzio o VI Corpo de Exército do general Truscott tomaria a iniciativa em um segundo momento, avançando em direção às Colinas Albanas para interceptar as comunicações das forças alemãs. Clark concordava em termos gerais com esses planos, embora estivesse decidido a assumir o papel principal na iminente batalha e, principalmente, a chegar primeiro a Roma[135].

Estava também previsto que a Operação Diadem fosse precedida por um programa maciço de bombardeamentos nas retaguardas e linhas de comunicação, a chamada Operação Strangle; o general Ira C. Eaker, comandante das forças aéreas estratégicas aliadas no Mediterrâneo, contava conseguir impedir os movimentos das tropas alemãs para dar uma contribuição decisiva ao resultado da batalha. A Operação Strangle teve início em 22 de março de 1944 e foram lançadas 26 000 toneladas de bombas ao longo de 50 000 missões aéreas. Os danos às infraestruturas e às vias de comunicação foram notáveis e as forças alemãs foram seriamente prejudicadas, mas, no geral, a campanha de bombardeamentos não obteve os resultados esperados; o alto comando alemão foi capaz de manter a mobilidade e a eficiência de suas divisões[136].

Às vésperas da Operação Diadem, o marechal de campo Kesselring dispunha no teatro de guerra italiano de vinte e três divisões, das quais nove defendiam o setor da Linha Gustav entre o Mar Tirreno e a costa adriática; as tropas alemãs ainda eram eficientes e combativas, mas sofriam com graves dificuldades de abastecimento porque as forças aéreas aliadas haviam alcançado uma superioridade esmagadora e dificultavam as suas linhas de comunicação; o comando alemão estava também constantemente preocupado com a possibilidade de novos desembarques aliados na região de Civitavecchia ou de Livorno[137].

Os veículos blindados estadunidenses desfilam ao lado do Coliseu em Roma em 5 de junho de 1944

Precedida pelo fogo concentrado de mais de 2 400 canhões, a ofensiva geral aliada teve início durante a noite entre 11 e 12 de maio de 1944; o ataque foi uma surpresa parcial para os alemães, que, no entanto, nas primeiras horas lutaram duramente na defesa e mantiveram a posse das posições principais da Linha Gustav. Em particular, o novo assalto no setor de Cassino, lançado pelas duas divisões polonesas do general Władysław Anders, foi repelido mais uma vez pelos paraquedistas alemães e as unidades polonesas sofreram baixas altíssimas; no vale do rio Liri, duas divisões britânicas atravessaram o rio Rapido, mas não conseguiram romper a linha de resistência alemã. Em 12 de maio, os franceses do general Juin também fizeram apenas progressos modestos no setor montanhoso designado às experientes e combativas formações coloniais; o comandante francês lançou um novo ataque concentrado em 13 de maio e, finalmente, os soldados marroquinos e argelinos obtiveram os primeiros sucessos importantes conquistando o monte Maio e a cidade de Castelforte[138]. Kesselring tentou controlar a situação fazendo intervir algumas divisões de reserva e preparando o recuo ordenado para posições já preparadas, mas, enquanto no flanco esquerdo da Linha Gustav os alemães ainda mantinham as posições mais importantes, não foi possível deter o avanço do corpo expedicionário francês[139].

Foram sobretudo os agressivos soldados marroquinos que, demonstrando grande habilidade no combate em montanha, conseguiram subjugar os núcleos de resistência alemães; apesar da determinação das tropas do general von Vietinghoff, foi impossível deter o avanço do corpo expedicionário de Juin, que conquistou o monte Petrella em 15 de maio e alcançou Ausonia e Esperia. Os sucessos franceses forçaram o comando alemão a enfraquecer o setor tirreno e o II Corpo de Exército americano pôde avançar com facilidade ao longo da costa em direção a Formia[140]. O general Leese, por outro lado, não conseguiu acelerar a ação de suas tropas; os poloneses de Anders entraram finalmente em Cassino em 17 de maio, depois que a posição havia sido evacuada por ordem de Kesselring pelos tenazes paraquedistas, mas o avanço das forças mecanizadas ao longo do vale do Liri foi dificultado por problemas logísticos, pelas características do terreno e por barreiras de canhões antitanque alemães. O 8.º Exército chegou à posição de Aquino, na chamada linha Dora-Hitler, mas foi bloqueado em 19 de maio[141].

O marechal de campo Kesselring tentou ainda por alguns dias evitar a derrota com a chegada de formações vindas da frente de Anzio; duas divisões mecanizadas e uma divisão de infantaria contra-atacaram os franceses, enquanto em 22 de maio a 29. Panzergrenadier-Division tentou deter o II Corpo de Exército que, no setor costeiro, havia chegado a Terracina. Apesar desses reforços, os alemães não foram mais capazes de controlar a situação. Os franceses conquistaram os Montes Ausônios, enquanto os canadenses do 8.º Exército entraram em Pontecorvo; além disso, no setor da cabeça de ponte de Anzio as linhas do 14.º Exército do general von Mackensen, fortemente enfraquecidas, foram atacadas em 23 de maio pelo VI Corpo de Exército na chamada Operação Buffalo, que conseguiu finalmente superar as defesas e avançar rapidamente, entrando em contato em 25 de maio com as tropas do II Corpo[142]. Kesselring decidiu abandonar a Linha Gustav, esperando poder fechar o caminho para Roma e organizar um novo posicionamento fazendo os exércitos de Mackensen e Vietinghoff recuarem para uma nova posição entre as Colinas Albanas e os Montes Lepinos; a divisão blindada "Hermann Göring" estava a caminho do setor de Livorno e deveria defender Valmontone[143]. Nesta fase, ocorreram atritos dentro do alto comando alemão: Kesselring reclamou da pouca colaboração de von Mackensen e criticou o uso tardio das reservas, que consequentemente não puderam deter o avanço aliado[144].

Também no alto comando aliado surgiram conflitos de competência: Clark estava decidido a ser o primeiro a chegar a Roma e encontrava-se em forte rivalidade com os generais britânicos. Alexander havia ordenado enviar o grosso do VI Corpo do general Truscott diretamente para nordeste, sobre Valmontone, para fechar a estrada ao 10.º Exército de Vietinghoff em retirada da linha Gustav, mas Clark ignorou essas diretrizes e decidiu, já em 25 de maio de 1944, marchar com a maior parte das tropas para noroeste, sobre Velletri e depois sobre Roma[145]. Como resultado, as fracas forças americanas enviadas a Valmontone foram retidas pelas retaguardas alemãs, que ganharam tempo enquanto o 10.º Exército recuava em direção à Linha César ao sul de Roma; contudo, devido a um erro do comando do 14.º Exército, as unidades estadunidenses do II e do VI Corpo enviadas por Clark em direção à cidade conseguiram explorar uma brecha nas defesas alemãs e ocuparam Velletri[146]. Kesselring destituiu imediatamente o general von Mackensen, substituindo-o pelo general Joachim Lemelsen, mas já se viu forçado a abandonar também a linha César; ele então decidiu evacuar Roma sem combater e recuar para o norte em direção à linha do Lago Trasimeno[147].

Em 5 de junho de 1944, um dia antes do desembarque na Normandia, Clark chegou finalmente a Roma juntamente com as suas tropas; segundo as disposições do ambicioso general, apenas as unidades estadunidenses foram autorizadas a participar da libertação da cidade, onde foram recebidas entusiasticamente pela população[148].

O avanço no centro-norte da Itália

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Soldados e tanques britânicos em marcha na Toscana no verão de 1944

A Operação Diadem foi concluída com o sucesso aliado e a libertação de Roma, mas não alcançou resultados decisivos do ponto de vista estratégico; os alemães perderam cerca de 10 000 homens e tiveram 20 000 prisioneiros, mas as forças de Alexander também sofreram pesadas perdas (18 000 americanos, 14 000 britânicos e 10 000 franceses), sem conseguirem destruir os dois exércitos do marechal de campo Kesselring, que recuaram de forma ordenada para o norte de Roma mantendo a coesão. Além disso, devido às escolhas estratégicas fundamentais da liderança político-militar aliada, Alexander teve que renunciar aos seus planos de explorar a vitória com uma marcha ambiciosa em direção à Itália nordeste e à Áustria: os líderes americanos se opuseram a este projeto e impuseram a execução até 15 de agosto de 1944 da já programada Operação Anvil, que previa um desembarque no sul da França com tropas que seriam retiradas de Clark. Os generais Truscott e Juin deixaram a frente italiana e três divisões americanas e quatro francesas foram retiradas para preparar o desembarque na Provença; Alexander também teve que renunciar a boa parte das forças aéreas de apoio tático[149].

O general britânico pôde então retomar o avanço ao norte de Roma logo em 5 de junho de 1944, mas as suas forças se enfraqueceram progressivamente devido à partida das divisões franco-americanas; além disso, a ofensiva aliada foi conduzida com determinação insuficiente e deu ao alto comando alemão a oportunidade de reorganizar as suas forças com a chegada de quatro novas divisões provenientes de outras frentes[150]. Kesselring conseguiu mais uma vez controlar a situação e evitar um desastre irreversível, conduzindo com notável habilidade a retirada em combate de suas tropas através da Itália central graças ao elevado espírito de combate de seus soldados e a alguns erros dos Aliados: em particular, em suas memórias, o marechal de campo destacou como os anglo-estadunidenses não empenharam a fundo a aviação, não realizaram desembarques para contornar suas forças e não coordenaram o avanço com as atividades dos partigiani italianos nas retaguardas da frente alemã[151]. Kesselring recuou com ordem primeiro em direção ao lago de Bolsena e depois para a nova linha do lago Trasimeno, a chamada Linha Albert; o marechal de campo conseguiu convencer Hitler a renunciar a uma resistência obstinada para evitar novas perdas e a continuar uma defesa elástica para ganhar tempo[152].

Uma ponte Bailey construída sobre os escombros da Ponte Santa Trinita de Florença

Enquanto Kesselring liderava as batalhas de retaguarda na linha do Trasimeno, simultaneamente acompanhava o desenvolvimento dos trabalhos de construção e fortalecimento da Linha Gótica, a nova linha defensiva principal na qual pretendia bloquear o avanço aliado antes do inverno. O comandante alemão acreditava precisar de mais tempo para concluir as obras de defesa e, portanto, decidiu tentar conter os Aliados na linha Albert[153]. A 29. Panzergrenadier-Division defendeu Orvieto, enquanto mais a leste os Aliados do 8.º Exército alcançaram Spoleto e Perúgia somente após três semanas[154]; o 5.º Exército, que marchava em direção a Pisa e Lucca, foi temporariamente detido no rio Ombrone e os poloneses foram bloqueados no rio Chienti[155]. Após superar a linha Albert, as tropas alemãs ainda ofereceram resistência em Siena, que foi libertada pelos franceses de Juin pouco antes de serem retirados da frente, e em Arezzo; até 15 de julho estabeleceram-se em uma ampla cabeça de ponte ao sul do Arno, que incluía Pisa e Florença[156].

Nos dias seguintes, os exércitos aliados alcançaram sucessos significativos libertando Ancona em 18 de julho e Livorno em 19 de julho, melhorando assim sua situação logística[157], mas os alemães ainda assim conseguiram ganhar tempo e puderam realizar amplas e sangrentas operações de varredura nas retaguardas com graves perdas para as forças partisans. Kesselring decidiu evitar combates prolongados em Florença[158] e as tropas alemãs, destruindo todas as pontes sobre o Arno exceto a Ponte Vecchio, retiraram-se ao norte do rio após superar a oposição dos destacamentos partisans italianos; os Aliados cruzaram o Arno em Pontassieve e entraram em Florença em 13 de agosto, mas estiveram engajados em combates nos subúrbios do norte da cidade até os primeiros dias de setembro. Nesse momento, a batalha da Linha Gótica já estava em andamento, onde as forças alemãs se haviam posicionado após a longa retirada. O marechal de campo Kesselring, nesta fase da campanha, havia recebido algumas divisões de reforço de segunda categoria[159], mas foi capaz de estabilizar a situação e pôde abrir mão de duas excelentes divisões Panzergrenadier, que o alto comando alemão transferiu com urgência para a frente ocidental, em grave crise após o colapso da frente da Normandia, e da Panzer-Division "Hermann Göring", que foi enviada à frente oriental para participar dos combates de Varsóvia em agosto[160].

Os combates na Linha Gótica

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Soldados alemães durante a campanha na Linha Gótica

Winston Churchill havia se oposto fortemente à transferência das divisões americanas e francesas para a frente ocidental e continuava favorável a uma grande ofensiva estratégica para finalmente destruir o exército alemão na Itália e avançar em direção à linha do Danúbio. O general Alexander, portanto, iniciou em 25 de agosto de 1944 a chamada Operação Olive, que continuaria até outubro e colocaria frente a frente 900 000 soldados aliados, reforçados por potentes forças blindadas e apoiados por uma nítida superioridade aérea, contra cerca de 300 000 soldados alemães[161]. As formações alemãs, lideradas com habilidade pelo marechal de campo Kesselring e seus tenentes, estavam desgastadas pelas batalhas anteriores e dispunham de meios limitados, mas eram formadas em sua maioria por tropas experientes e tenazes que demonstraram uma habilidade tática superior durante a batalha defensiva[162].

O marechal de campo Kesselring inspeciona a Linha Gótica com alguns oficiais em 1944

Enquanto Kesselring completava com sucesso o recuo gradual de suas tropas para trás da Linha Gótica, que estava sendo preparada e reforçada havia semanas, Alexander e o general Harding planejaram a nova ofensiva; após desistir de um ataque direto ao centro da frente através dos Apeninos, o alto comando do 15.º Grupo de Exércitos decidiu, por proposta do general Leese, transferir novamente o 8.º Exército britânico para o setor adriático para lançar o ataque principal em direção a Rimini[163]. No setor dos Apeninos, Clark por sua vez passaria à ofensiva de Florença em direção a Bolonha para prender as reservas alemãs; a fase final da operação previa o giro das forças de Leese através da planície do Pó em direção à capital emiliana, onde os exércitos alemães seriam cercados e destruídos. Churchill foi à Itália e observou os primeiros dias da ofensiva; ele estava otimista e, em uma mensagem a Stalin de 19 de setembro de 1944, escreveu que as forças aliadas ou "aniquilariam" o exército alemão e avançariam em direção a Liubliana ou, em caso de retirada alemã, pelo menos "libertariam a planície lombarda"[164].

Entretanto, a Operação Olive, também conhecida como "batalha de Rimini" ou "ofensiva dos Apeninos", transformou-se em uma amarga batalha de atrito na qual os Aliados, embora ganhando terreno, não alcançaram nenhum sucesso decisivo e foram finalmente bloqueados após sofrer pesadas perdas. Em um primeiro momento, Kesselring foi surpreendido pelo ataque britânico no setor adriático iniciado em 25 de agosto, e Leese conseguiu cruzar o Metauro e chegar primeiro ao rio Foglia e depois ao rio Conca em 2 de setembro[165]. As reservas móveis alemãs de Kesselring estavam a caminho e conseguiram retardar o avanço britânico ao longo das sucessivas linhas de resistência da Linha Gótica; de 4 a 15 de setembro, durante os sangrentos combates de Coriano e Gemmano, as tropas alemãs do 10.º Exército do general von Vietinghoff conseguiram deter progressivamente as forças aliadas, que também foram atrapalhadas pelo terreno lamacento e instável devido às fortes chuvas[166].

Na verdade, o marechal de campo Kesselring estava em graves dificuldades, principalmente por causa dos sucessos do 5.º Exército de Clark, que, após libertar Lucca em 5 de setembro e Pistoia em 12 de setembro, atacou através do passo de Giogo em Scarperia, surpreendendo os alemães do fraco 14.º Exército do general Lemelsen, entrincheirados no passo de Futa; após duros confrontos, os americanos conquistaram o monte Altuzzo e pareciam avançar em direção a Ímola[167]. Enquanto isso, o 8.º Exército retomou a ofensiva no setor adriático: as tropas alemãs ainda ofereceram forte resistência na Linha Amarela em San Fortunato e Covignano, e os veículos blindados britânicos foram duramente repelidos em Montecieco em 20 de setembro; contudo, os Aliados continuaram a avançar lentamente e Rimini foi libertada por uma brigada grega em 21 de setembro de 1944[168]. O marechal de campo Kesselring solicitou duas vezes, em 23 e 27 de setembro, autorização ao quartel-general para uma retirada geral para trás dos Alpes, mas Hitler opôs-se firmemente e ordenou a resistência até ao fim[169].

Ficheiro:AutocolonnaAlleataRimini.jpg
Coluna motorizada britânica em movimento no setor de Rimini
As linhas defensivas alemãs na Itália centro-norte

Os exércitos alemães continuaram então a combater tenazmente nas últimas posições da Linha Gótica (linhas Adelheid e Brunhild); nos últimos dias de setembro, a ofensiva britânica no lado adriático, retardada pelas chuvas, esgotou-se após os cruéis combates de Savignano e Santarcangelo em frente ao rio Rubicão[170], e Kesselring pôde transferir parte de suas melhores unidades para a frente dos Apeninos, onde os estadunidenses eram fortemente apoiados pelos destacamentos partisans da brigada "Bianconcini", que participaram com bravura dos duros e incertos confrontos no monte Battaglia[171]. Clark, em vez de continuar em direção a Ímola, desviou suas tropas para o passo de Raticosa[172] e finalmente no final do mês de outubro, após outros violentos combates, a ofensiva americana também parou a cerca de trinta quilômetros ao sul de Bolonha[173]. Após estabilizar a situação, Kesselring decidiu então organizar um vasto programa de varredura em suas retaguardas para destruir as formações partisans; a chamada "semana contra os bandos" foi marcada por devastações e violências brutais contra a população civil[174].

Churchill ficou muito contrariado com o fracasso geral de seus ambiciosos projetos e admitiu em suas memórias que a grande batalha da Linha Gótica "falhou", que a Itália permaneceu ocupada por "mais oito meses" e que se tornou impossível "o impulso sobre Viena" e "influenciar a libertação do sudeste da Europa"[175]. O marechal de campo Kesselring elogiou em suas memórias "o comportamento admirável das tropas alemãs" que impediu o sucesso aliado[176].

Nos últimos meses de 1944, o 15.º Grupo de Exércitos aliado, que passou a ser liderado por Clark a partir de 25 de novembro (Alexander tendo sido promovido ao comando de todo o teatro do Mediterrâneo), conduziu operações limitadas para tentar ganhar mais terreno em direção ao Pó. No setor do 8.º Exército, liderado pelo general McCreery após a transferência de Leese para a França, foi travada a desgastante "batalha dos rios": as tropas canadenses e polonesas avançaram lentamente e conseguiram libertar Forlì, Faenza e Ravenna, que foi alcançada em 4 de dezembro[177], mas os exércitos alemães, agora comandados por von Vietinghoff após Kesselring se ferir num acidente de carro, recuaram ordenadamente e conseguiram detê-los, graças também ao terreno inundado pelas fortes chuvas[178]. No setor dos Apeninos, o 5.º Exército, que passou ao comando do general Truscott, não conseguiu avançar, dificultado sobretudo pelo clima invernal. Até 15 de dezembro, os Aliados suspenderam todas as operações à espera da retomada bélica na primavera[179].

A ofensiva de primavera

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O último inverno

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Em 29 de abril de 1945 o general Otto Fretter-Pico se rende ao major Franco Ferreira das tropas brasileiras.

O final de 1944 foi caracterizado na frente italiana por consideráveis dificuldades para o 15.º Grupo de Exércitos aliado do general Clark: devido à tenaz resistência alemã, à progressiva piora do clima e à falta de reposição e munição de artilharia, as tropas aliadas tiveram de interromper os ataques e procuraram descansar e reorganizar-se; cogitou-se também a possibilidade, para desbloquear a situação, de realizar um desembarque de tropas britânicas na costa adriática iugoslava. Durante esse período, também chegaram novas unidades: os americanos enviaram a excelente 10.ª Divisão de Montanha e a 92.ª Divisão de Infantaria (composta inteiramente por soldados afro-americanos), enquanto os destacamentos da Força Expedicionária Brasileira começaram a chegar ao teatro de guerra vindos do Brasil[180]. O Exército Cobeligerante Italiano começou a constituir cinco dos chamados "Grupos de Combate", cada um composto por 10 000 soldados, 116 peças de artilharia e 1 300 veículos, equipados principalmente com material britânico[181].

Tropas americanas da 10.ª Divisão de Montanha durante a ofensiva de primavera

Em 14 de novembro de 1944, Mussolini escreveu uma carta a Hitler na qual, após expressar sua "admiração" pelas "provas de inigualável valor oferecidas por suas forças armadas", propunha lançar uma contraofensiva exatamente na frente italiana; o Duce enfatizou ainda como era de "supremo interesse comum defender o vale do Pó"[182]. Em 16 de dezembro de 1944, Mussolini falou aos seus seguidores mais fanáticos no Teatro Lírico de Milão com tons dramáticos: acusou os "traidores", ilustrou os supostos progressos da República Social e de suas forças militares, demonstrou confiança nas "novas armas" da Alemanha e concluiu com palavras que pareciam expressar uma firme vontade de resistir: "queremos defender o vale do Pó com unhas e dentes..."[183]. Nesta fase, Hitler estava totalmente concentrado na ofensiva das Ardenas iniciada naquele mesmo 16 de dezembro, mas na frente italiana as forças do Eixo também lançaram um ataque inesperado, a Operação Wintergewitter: conduzida em 26 de dezembro por tropas alemãs com o apoio de contingentes italianos de duas das quatro divisões da RSI treinadas na Alemanha, que colocou em apuros as unidades americanas da 92.ª Divisão de Infantaria posicionadas no setor do vale do rio Serchio[184]. A breve ofensiva alcançou apenas sucessos locais e, em 30 de dezembro, foi interrompida, mas houve colapsos entre as tropas americanas e até os inexperientes soldados brasileiros enfrentaram dificuldades[185].

As tropas do 8.º Exército britânico atravessam o Pó perto de Ferrara em 28 de abril de 1945

Na realidade, apesar da breve recuperação no inverno e do sucesso das operações de varredura conduzidas pelos destacamentos militares nazifascistas contra as efêmeras repúblicas partigianas, a situação do ocupante alemão na Itália e do governo colaboracionista de Mussolini já parecia comprometida no início da primavera de 1945, em relação à evolução geral da guerra e à insuperável inferioridade numérica e material das forças ainda disponíveis[186]. A partir de 10 de março de 1945, as tropas da Wehrmacht na Itália foram comandadas pelo general Heinrich von Vietinghoff, uma vez que Kesselring, que havia retornado ao serviço em janeiro de 1945 após o acidente de carro, fora transferido às pressas por ordem de Hitler para a frente ocidental[187]. O Grupo de Exércitos C ainda contava com vinte divisões posicionadas ao longo da Linha Gótica[188], enquanto as quatro divisões da República Social, sob o comando nominal do marechal Rodolfo Graziani, eram consideradas não confiáveis e, portanto, relegadas a tarefas de segunda linha na Ligúria[189]. Os alemães sofriam com graves carências de materiais e equipamentos e uma mobilidade limitada, mas tinham tentado reforçar suas posições; von Vietinghoff havia preparado uma série de posições de recuo em direção aos Alpes para conduzir uma retirada tática, mas Hitler opunha-se a ceder terreno e ordenou de forma absoluta que se mantivessem as posições e defendessem a Planície Padana[190].

Uma coluna de tanques M4 Sherman do 20.º Regimento Blindado neozelandês em maio de 1945

Às vésperas da ofensiva final, o 15.º Grupo de Exércitos do general Clark dispunha de cerca de 600 000 soldados e havia melhorado substancialmente a sua eficiência, bem como a quantidade e a qualidade dos seus equipamentos[191]; as forças aliadas possuíam uma poderosa reserva mecanizada, constituída por mais de 3 000 tanques, e uma esmagadora superioridade aérea que lhes permitiu enfraquecer as defesas alemãs e prejudicar seriamente as comunicações e o suprimento dos exércitos do general von Vietinghoff[192]. Na frente dos Apeninos, indo até o sudeste de Bolonha, o 5.º Exército do general Truscott dispunha de dois corpos de exército com sete divisões americanas (incluindo a divisão de montanha), o corpo expedicionário brasileiro, dois grupos de combate italianos e uma divisão blindada sul-africana. O 8.º Exército, comandado pelo general McCreery, estendia suas linhas para leste até os Vales de Comacchio e era constituído por quatro corpos de exército: havia disponíveis, além de várias brigadas, quatro divisões britânicas, duas divisões indianas, duas divisões polonesas, uma divisão neozelandesa, três grupos de combate italianos e a Brigada Judaica[193].

A ofensiva final aliada, batizada de "Operação Grapeshot", começou no setor britânico do general McCreery em 9 de abril de 1945, com uma forte barragem de artilharia e o envolvimento em massa da aviação tática; as tropas alemãs do 10.º Exército do general Traugott Herr ofereceram forte resistência nos primeiros dias, mas tiveram de ceder terreno. Os britânicos avançaram em direção a Argenta, enquanto os poloneses e italianos atravessaram o rio Santerno em direção a Ímola[194]. Em 14 de abril, Clark também lançou o exército de Truscott, que obteve importantes sucessos no setor montanhoso, colocando o 14.º Exército do general Joachim Lemelsen em graves dificuldades. Em 20 de abril, o exército de libertação, composto por unidades italianas, e os poloneses alcançaram Bolonha, as forças blindadas britânicas superaram o estrangulamento de Argenta, e os americanos cortaram a Via Emilia; os alemães corriam o risco de ser cercados ao sul do rio Pó, de modo que von Vietinghoff ordenou a retirada geral sem esperar a autorização do alto comando[195].

O andamento da ofensiva final aliada na Itália, lançada no final de abril de 1945

Os Aliados efetuaram várias operações de infiltração com unidades especiais, em parte para acelerar o colapso do dispositivo defensivo de von Vietinghoff, mas também para preservar as cidades italianas das destruições alemãs: no primeiro caso enquadra-se a Operação Herring[196], último lançamento de unidades paraquedistas em combate no teatro europeu; no segundo, a ação dos esquadrões de Nadadores Paraquedistas (NP) do Regimento "San Marco" da marinha italiana que libertou Veneza[197].

A partir de 24 de abril, os Aliados, depois de cruzar o Pó sem dificuldades, puderam avançar na Planície Padana, enquanto os alemães tentavam recuar, sob a proteção das retaguardas, em direção aos passos alpinos. Apesar da resistência das unidades alemãs em retirada e das perdas sofridas, as colunas motorizadas aliadas chegaram rapidamente a todas as principais cidades[198]: a 10.ª Divisão de Montanha americana alcançou Verona em 26 de abril, forças blindadas dos EUA seguiram rumo a Milão em 29 de abril, enquanto os britânicos avançaram em direção ao Ádige. No setor de Truscott, La Spezia e Gênova foram alcançadas em 27 de abril e alguns contingentes alemães foram cercados na chamada "bolsa de Fornovo" pela força expedicionária brasileira[199]; este último confronto, a última batalha campal da guerra, concluiu-se com a rendição de cerca de 15 000 soldados alemães nas mãos das tropas aliadas[200][201]. Nos últimos dias da campanha, o 8.º Exército de McCreery libertou Veneza, Rovigo e Treviso, enquanto os contingentes neozelandeses foram enviados para Trieste e para a Veneza Júlia numa tentativa de antecipar a chegada dos destacamentos iugoslavos do IX Korpus na chamada "Corrida para Trieste". Em 1.º de maio de 1945, os neozelandeses entraros em Trieste e Monfalcone e estabeleceram contato com os iugoslavos; na fronteira dos Alpes Ocidentais, em 28 de abril, os americanos conectaram-se com as tropas francesas que haviam penetrado no Vale de Aosta[202].

O fim do fascismo e a rendição geral alemã

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A insurreição geral

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Partisans em Veneza nos dias da libertação

Simultaneamente ao último e decisivo avanço aliado, as forças da Resistência italiana do Comitê de Libertação Nacional da Alta Itália (CLNAI) iniciaram a insurreição geral nas grandes cidades e a descida das montanhas das formações de partisans, que permaneceram ativas após o difícil inverno; o objetivo das autoridades da Resistência, em particular dos membros comunistas e do Partido de Ação, era cooperar ativamente para a derrota final do nazifascismo, proteger infraestruturas e fábricas (impedindo sua destruição pelas tropas alemãs em retirada) e assumir o controle efetivo do território antes da chegada dos Aliados[203]. A partir de meados de abril, os grupos de partisans participaram com sucesso da libertação de Bolonha e da Emília; em 25 de abril de 1945, o comitê insurreicional do CLNAI deu a ordem formal de insurreição, e os partisans assumiram o controle de Gênova, Turim e Milão, mesmo antes das tropas anglo-americanas, além de bloquearem as estradas principais para impedir a fuga das autoridades nazifascistas[204].

Mussolini deixou Salò em 17 de abril e dirigiu-se com seus homens mais leais para Milão, onde a princípio pareceu aprovar a proposta de Alessandro Pavolini de reunir os combatentes fascistas restantes em um chamado "reduto em Valtellina" para lutar uma última batalha. Em 25 de abril de 1945, enquanto a insurreição geral começava, ele aceitou o convite do cardeal de Milão, Alfredo Ildefonso Schuster, que, desejoso de organizar uma transferência ordenada de poderes, havia proposto um encontro com os líderes da Resistência. Durante uma dramática conversa, os chefes do CLNAI exigiram a imediata rendição incondicional das forças da RSI dentro de duas horas. Ordens haviam sido dadas para uma insurreição geral dos partisans, mas se os fascistas concentrassem suas forças restantes no triângulo Milão-Como-Lecco, eles poderiam depor as armas formalmente. Mussolini pareceu prestes a aceitar esta proposta quando Graziani entrou no escritório, informando ter sabido da iminente rendição alemã na Itália[205]. O blefe de Wolff e Rahn havia sido descoberto e Mussolini, sentindo-se traído, interrompeu a discussão, comprometendo-se a dar uma resposta ao Comitê no prazo de duas horas. No entanto, Mussolini descumpriu a sua palavra e, com muita pressa, saiu do seu escritório na prefeitura de Milão para entrar em um dos carros que formavam uma coluna de dez veículos escoltados por alemães, acompanhado por Bombacci e Graziani. No momento da partida para Como, Mussolini dispensou todos os membros do partido e das forças armadas do seu juramento de fidelidade[206]. Os planos de Pavolini eram irreais e as forças fascistas restantes estavam agora em completa desintegração, enquanto as tropas alemãs só estavam interessadas em encontrar refúgio através dos Alpes. Mussolini foi capturado em 27 de abril e fuzilado no dia 28 em Giulino di Mezzegra por um grupo de partisans comunistas liderados por Walter Audisio e Aldo Lampredi, que assim puseram o ponto "final" a vinte anos de ditadura sanguinária. Nos dias seguintes, outros hierarcas e fascistas foram mortos ou capturados pelos partisans e pelos Aliados[207].

A rendição de Caserta

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O ato de rendição assinado pelo general von Vietinghoff em Caserta, em sua versão oficial em inglês

Desde o mês de dezembro de 1944, o general da SS e chefe supremo das forças policiais alemãs na Itália, Karl Wolff, havia iniciado conversações secretas com o representante americano do Office of Strategic Services na Suíça, Allen Welsh Dulles; tais encontros, aparentemente conhecidos e aprovados por Heinrich Himmler, faziam parte das desesperadas tentativas nazistas de provocar a desintegração da coalizão anglo-soviético-americana e favorecer a conclusão de uma paz em separado com as potências ocidentais para combater os soviéticos; também foi discutida a possibilidade de uma retirada acordada do exército alemão da Itália[208]. Os representantes aliados promoveram a chamada Operação Sunrise e, em março e abril de 1945, encontraram-se em segredo com o general Wolff; von Vietinghoff endossou essas tentativas de negociação. Esses contatos secretos também chegaram ao conhecimento dos soviéticos e provocaram uma dura reação de Stalin, que temia um acordo dos Aliados ocidentais com os alemães; disso resultou uma áspera troca de correspondência entre Roosevelt e o ditador soviético poucos dias antes da morte do presidente americano. Após esses fortes atritos, os representantes anglo-americanos receberam a ordem de suspender as conversações à espera do desenvolvimento da ofensiva de primavera aliada, enquanto Wolff, em 23 de abril de 1945, também recebeu de Himmler (que temia a reação de Hitler) a ordem de não iniciar "negociações de nenhum tipo"[209].

O curso desastroso das operações alemãs em todas as frentes, o isolamento de Hitler em Berlim e o avanço irrefreável dos Aliados na Planície Padana convenceram von Vietinghoff a agir de forma independente e enviar, em 28 de abril, os generais Wolff e von Senger ao quartel-general aliado de Caserta para retomar as negociações e encerrar as operações na Itália. Em 29 de abril de 1945, os generais alemães assinaram, na presença do general William Morgan, chefe de estado-maior de Alexander, a rendição de Caserta, que previa a rendição geral de todas as forças alemãs e fascistas ainda em combate no norte da Itália e nas províncias austríacas do Tirol, Caríntia, Vorarlberg e Estíria[202]. A princípio, Kesselring, informado desses fatos, se opôs e, na condição de responsável por todas as forças da Wehrmacht no teatro sul, destituiu von Vietinghoff; perante a realidade dos fatos e o desenrolar dos acontecimentos, o marechal de campo acabou mudando de ideia e deu o seu consentimento à rendição, que se tornou efetiva às 14:00 de 2 de maio de 1945[202].

Cerca de um milhão de soldados alemães em combate no norte da Itália e Áustria depuseram as armas após a conclusão da rendição em Caserta; já em 29 de abril de 1945, Churchill enviou as suas felicitações a Alexander, escrevendo enfaticamente que "a grande batalha final na Itália permanecerá por muito tempo na história como um dos episódios mais famosos da Segunda Guerra Mundial"[210].

O papel da resistência italiana

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O movimento partisan de Resistência contra o ocupante alemão e os fascistas da República Social desenvolveu-se, após um início difícil caracterizado por desorganização e erros táticos, no outono de 1943, principalmente nos vales montanhosos dos Apeninos e dos Alpes, por obra de oficiais subalternos, soldados dispersos e voluntários. Posteriormente, uma função organizacional fundamental foi desempenhada pelos partidos políticos antifascistas, organizados nos numerosos Comitês de Libertação Nacional (CLN) surgidos nas principais cidades da Itália ocupada. O movimento partisan nas montanhas cresceu de poucos milhares de combatentes no outono de 1943 para cerca de 50 000 em junho e julho de 1944, quando foi constituído um comando central do chamado Corpo de Voluntários da Liberdade e foram criadas "brigadas" e "divisões" partisans[211]. Excluindo as formações autônomas (compostas predominantemente por militares do dissolvido Exército Real, geralmente monárquicas ou apolíticas), a maior parte das unidades dependia diretamente dos partidos políticos antifascistas: quase metade dos combatentes estavam organizados nas Brigadas Garibaldi do Partido Comunista Italiano, enquanto 15 000 combatiam nas Brigadas Justiça e Liberdade do Partido de Ação. Simultaneamente, os comunistas constituíram nas grandes cidades ocupadas os Grupos de Ação Patriótica (GAP) que, com numerosos ataques terroristas aos quadros de comando e aos aparatos repressivos, minaram o moral dos nazifascistas[212].

A presença de italianos armados em ambos os lados do conflito, embora a maioria da população se mantivesse à margem, determinou o desenvolvimento de uma guerra civil. Os alemães, apoiados pelos fascistas da RSI, organizaram vastas operações de varredura que custaram graves perdas aos partisans e enfraqueceram as suas capacidades operativas sem, no entanto, alcançar resultados decisivos; a ação alemã e fascista foi também caracterizada por impiedosas operações de represália e de repressão contra civis e supostos adversários, como o massacre das Fossas Ardeatinas em Roma e o massacre de Marzabotto. Após os sucessos do verão de 1944, as derrotas do outono provocadas pelas operações nazifascistas de "guerra aos bandos" e a proclamação Alexander de 13 de novembro de 1944, que instava os partisans a suspender as ações e permanecer na defensiva durante o inverno, provocaram uma grave crise e um enfraquecimento numérico da Resistência[213]. Finalmente, na primavera de 1945, os cerca de 60 000 partisans ativos desceram das montanhas e, reforçados pelos novos combatentes que acorreram nas últimas semanas, desempenharam um papel de primeiro plano nos dias da libertação[214].

Balanço e consequências

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A campanha da Itália terminou após a morte de Hitler e alguns dias antes do fim geral da guerra na Europa, que foi sancionado pelas cerimônias de rendição de 7 de maio de 1945 em Reims e de 8 de maio de 1945 em Berlim. Nas semanas seguintes, no entanto, as forças aliadas entraram em conflito com os franceses na fronteira dos Alpes ocidentais e, sobretudo, com os iugoslavos de Tito em Trieste e na Áustria. Após alguns momentos de forte tensão e a afluência de reforços aliados, os iugoslavos concordaram em aplicar as disposições sobre as zonas de ocupação acordadas pelas três grandes potências na Conferência de Ialta[215].

Uma coluna britânica avança em direção à fronteira austríaca, durante os últimos dias da campanha da Itália

A longa e disputada campanha da Itália de 1943–1945 permanece uma das fases da guerra mundial mais controversas e ricas em episódios que provocaram polêmicas e recriminações dentro do campo anglo-saxão, como o desembarque em Salerno, a batalha do rio Rapido, o bombardeio da abadia de Monte Cassino e a libertação de Roma. Do ponto de vista geral, as decisões estratégicas e as táticas bélicas adotadas pelos Aliados foram duramente criticadas por alguns historiadores e especialistas militares, e a própria utilidade da campanha para os anglo-americanos foi posta em dúvida[216]. Os Aliados, e em particular os Estados Unidos, tinham objetivos limitados na Itália, que na prática consistiam em tentar manter ocupado o maior número possível de formações alemãs para aliviar a situação dos soviéticos na frente oriental e favorecer o sucesso, no momento oportuno, da abertura da segunda frente na Europa. Em suas memórias, Alexander e Churchill afirmaram que a tarefa foi "admiravelmente executada": muitas excelentes divisões móveis alemãs permaneceram bloqueadas na Itália[217].

O julgamento de muitos historiadores é menos positivo: afirmou-se que a campanha foi um "beco sem saída", que os Aliados nunca souberam realmente por que estavam combatendo na campanha, e que, na verdade, foram os alemães que, com o emprego de um número mínimo de divisões de primeira qualidade, retiveram em um setor secundário forças muito superiores numérica e materialmenteAtkinson, pp. 681-682.</ref>. O marechal de campo Kesselring, que em suas memórias descreve em termos altamente elogiosos a sua conduta e a das tropas alemãs, criticou a estratégia excessivamente metódica dos Aliados e o seu não aproveitamento de muitas oportunidades operacionais[218].

O general Harold Alexander em primeiro plano e, à sua direita, o general Oliver Leese

Do ponto de vista tático, muitos autores destacaram os numerosos erros dos comandantes aliados e a escassa flexibilidade dos seus métodos operacionais, enquanto, em geral, foram apreciadas as capacidades táticas e a tenacidade das tropas alemãs e a preparação dos generais, em particular de Kesselring, que souberam conduzir com habilidade a longa batalha defensiva explorando as vantagens do terreno e do clima[219]. O historiador estadunidense Rick Atkinson, em sua obra dedicada à campanha da Itália publicada em 2008, forneceu, por outro lado, uma avaliação menos crítica da conduta aliada na Itália: ele afirmou que, em última análise, os anglo-americanos conseguiram, embora lentamente e à custa de graves perdas, libertar a península, que foram alcançados importantes ganhos estratégicos no Mediterrâneo, e que os bombardeiros que partiam do sul da Itália puderam atingir alvos decisivos no sudeste da Europa. Atkinson, por fim, observa como, na falta de alternativas estratégicas e à espera do desembarque na França previsto para 1944, era inevitável para os anglo-americanos continuar a campanha da Itália, inclusive para evitar mais críticas duras por parte de Stalin, que há muitos meses acusava os seus aliados de inércia, passividade e de não terem cumprido as suas promessas de abrir o mais rapidamente possível a segunda frente[220].

A campanha da Itália custou duras perdas a ambas as partes: os Aliados tiveram cerca de 313 000 soldados mortos, feridos ou prisioneiros e perderam cerca de 8 000 aviões, enquanto os alemães sofreram cerca de 336 000 baixas até à fase final de abril de 1945; outras fontes relatam números mais elevados para os alemães[221]. A população italiana sofreu grandes danos durante a campanha e a península foi devastada pela passagem da frente e pelas incursões aéreas; cerca de 64 000 civis morreram devido aos bombardeios, cerca de 10 000 pessoas foram mortas pelos alemães e pelas tropas da RSI nas represálias e nas operações de repressão, enquanto os partisans tiveram 35 000 mortos.

Ver também

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  1. Americanos: 119 279 baixas; Brasileiros: 3 000 baixas;[4] Britânicos: 89 436 baixas; Tropas das Colônias Britânicas: 448 baixas; Canadenses: 25 889 baixas; Franceses: 27 625 baixas; Gregos: 452 baixas; Indianos: 19 373 baixas; Neozelandeses: 8 668 baixas; Poloneses: 11 217 baixas; Sul-Africanos: 4 168 baixas[5]
  2. Ellis dá as seguintes informações quanto às perdas Aliadas na campanha, porém, não fornece datas. Americanos: 29 560 mortos e desaparecidos, 82 180 feridos e 7 410 capturados; Britânicos: 89 440 mortos, feridos ou desaparecidos, não há informações quanto aos capturados; Indianos: 4 720 mortos ou desaparecidos, 17 310 feridos e 46 capturados; Canadenses: 5 400 mortos ou desaparecidos, 19 490 feridos e 1 000 capturados; Poloneses: 2 460 mortos ou desaparecidos, 8 460 feridos, não há informações quanto aos capturados; Sul-Africanos: 710 mortos ou desaparecidos, 2 670 feridos e 160 capturados; Franceses: 8 600 mortos ou desaparecidos, 23 510 feridos, não há informações quanto aos capturados; Brasileiros: 510 mortos ou desaparecidos, 1 900 feridos, não há informação quanto aos capturados; Neozelandeses: Não há informações quanto às baixas na campanha. [6]
  3. Estados Unidos: 114 000 baixas ;[7] Reino Unido: 198 000 baixas;[8] Total de baixas dos Aliados: 59 151 mortos, 30 849 desaparecidos e 230 000 feridos.
  4. Entre 1 de Setembro de 1943 e 10 de Maio de 1944: 87 579 baixas. Entre 11 de Maio de 1944 e 31 de Janeiro de 1945: 194 330 baixas. Entre Fevereiro e Março de 1945: 13 741 baixas. Britânicos estimam entre 1 e 22 de Abril de 1945: 41 000 baixas. Este total exclui as forças do Eixo que se renderam ao final da campanha.[11]
  5. Ellis informa que segundo diversas fontes, entre Setembro de 1939 e 31 de Dezembro de 1944, as forças armadas Alemãs (incluindo a Waffen SS e voluntários estrangeiros) tiveram a baixa de 59 940 mortos, 163 600 feridos e 357 090 capturados na Itália. Ele considera também, de outras fontes, que apenas o exército, perdeu entre Junho 1941 e 10 de Abril de 1945 um total de 46 800 mortos, 208 240 desaparecidos e 168 570 feridos.[12]

Referências

  1. Jackson, p. 230
  2. 1 2 Frieser, Karl-Heinz; Schmider, Klaus; Schönherr, Klaus; Schreiber, Gerhard; Ungváry, Kristián; Wegner, Bernd (2007). Die Ostfront 1943/44 – Der Krieg im Osten und an den Nebenfronten. Das Deutsche Reich und der Zweite Weltkrieg (em alemão). VIII. München: Deutsche Verlags-Anstalt. ISBN 978-3-421-06235-2
  3. Shaw, p. 120.
  4. Research Starters: Worldwide Deaths in World War II
  5. Jackson, p. 335
  6. Ellis, p. 255
  7. «European Theater». Worldwar2history.info
  8. «The Italian Campaign». Webcitation.org. Cópia arquivada em 8 de dezembro de 2024
  9. Jackson, p. 335
  10. Hosch 2009, p. 122
  11. Jackson, p. 400
  12. Ellis, p. 255
  13. Deakin, vol. I, pp. 78-88.
  14. Deakin, vol. I, pp. 99-112 e 143-166.
  15. Deakin, vol. I, pp. 377-382 e 450-452.
  16. Morris, pp. 20-21.
  17. Morris, pp. 21-22.
  18. Bauer, pp. 37-38.
  19. Morris, p. 31.
  20. Morris, pp. 19-22.
  21. Rocca, p. 21.
  22. Morris, pp. 30-33.
  23. Morris, pp. 34-39.
  24. Atkinson, pp. 17-29.
  25. Atkinson, pp. 19-22.
  26. Atkinson, pp. 28-31.
  27. Picone Chiodo, p. 261.
  28. Deakin, p. 309.
  29. Deakin, pp. 351-373.
  30. Picone Chiodo, p. 364.
  31. Picone Chiodo, p. 362.
  32. Picone Chiodo, pp. 364-365.
  33. Deakin, pp. 314-328, 391-426.
  34. Deakin, pp. 430-432 e 450-452.
  35. Bauer, vol. V, p. 198.
  36. Morris, pp. 20-22.
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  41. Salmaggi-Pallavisini, p. 380.
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  43. Bauer, vol. V, p. 199.
  44. Picone Chiodo, p. 270.
  45. Biagi, p. 1305.
  46. Bauer, p. 201.
  47. Hart, p. 610.
  48. Picone Chiodo, p. 279.
  49. 1 2 H&W, p. 54.
  50. Bauer, p. 203.
  51. Bauer, pp. 204-205.
  52. 1 2 Bauer, p. 205.
  53. Bauer, pp. 205-207.
  54. D'Este, p. 418.
  55. «Sono passati 70 anni dallo storico ultimo incontro tra Hitler e Mussolini». Il Gazzettino. 19 de julho de 2014
  56. Bauer, vol. V, pp. 208-210.
  57. Bauer, vol. V, pp. 210-211.
  58. Bauer, vol. V, pp. 211-212 e 215.
  59. Bauer, vol. V, pp. 213-214.
  60. Bauer, vol. V, p. 214.
  61. Morris, p. 120.
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  67. Atkinson, pp. 211-215.
  68. Atkinson, pp. 231-236-239-241.
  69. 1 2 3 Hart 2009, p. 655.
  70. Morris, pp. 169-184.
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