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Educação indígena

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A educação indígena refere-se aos processos próprios de transmissão de conhecimentos, valores, línguas, práticas culturais e formas de organização social desenvolvidos pelos povos indígenas em seus contextos comunitários. Esses processos não se restringem ao ambiente escolar, envolvendo famílias, lideranças e demais integrantes da comunidade na formação das novas gerações e na continuidade de seus conhecimentos, práticas culturais e modos de vida.[1]

A educação escolar indígena, por sua vez, corresponde à educação básica oferecida em instituições próprias, organizada de acordo com as características, as necessidades e os projetos de cada povo. No Brasil, suas diretrizes curriculares estabelecem que ela deve ser específica, diferenciada, intercultural, bilíngue ou multilíngue, comunitária e orientada pelo respeito às línguas, aos conhecimentos, às práticas culturais e às formas próprias de aprendizagem dos povos indígenas.[2]

No Brasil

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A Lei 11 645/2008 (altera a 9 394/1996 e modifica a Lei 10 639/2003) traz a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena’ para as escolas de ensino público e privado, desde o ensino fundamental ao ensino médio.[3]

Os avanços da educação escolar indígena no Brasil ocorreram tanto no plano jurídico quanto no administrativo, especialmente após a Constituição Federal de 1988 e a consolidação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena. Apesar desses avanços, persistem desafios relacionados à garantia de infraestrutura adequada, à formação de professores indígenas, à produção de materiais didáticos específicos e à implementação de políticas públicas que respeitem as línguas, os conhecimentos tradicionais, as formas próprias de organização social e os projetos educativos de cada povo indígena.[4]

Nas últimas décadas, a educação escolar indígena consolidou-se como uma política pública estratégica para a garantia dos direitos dos povos indígenas, articulando ações dos sistemas de ensino, das comunidades indígenas, das universidades e de diferentes órgãos públicos. Seu desenvolvimento acompanha o fortalecimento do movimento indígena e o reconhecimento da diversidade cultural e linguística como princípio da educação brasileira.[5]

A educação escolar indígena busca fortalecer a autonomia dos povos indígenas por meio de processos educativos que valorizem suas línguas, conhecimentos tradicionais, formas próprias de organização social e projetos de vida. Ao mesmo tempo, favorece o diálogo intercultural entre os povos indígenas e a sociedade envolvente, respeitando as identidades coletivas e os modos próprios de organização social de cada povo. [5]

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena reconhecem que os processos educativos devem ser construídos com participação das próprias comunidades, respeitando seus sistemas de conhecimento, suas formas de aprendizagem e seus projetos societários. Nesse contexto, a formação de professores indígenas constitui elemento estratégico para a consolidação de uma educação escolar específica, diferenciada, intercultural, bilíngue ou multilíngue.[4]

Formação de professores indígenas

A formação inicial e continuada de professores indígenas é regulamentada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas pela Resolução CNE/CP nº 1, de 7 de janeiro de 2015. A norma abrange cursos de nível médio e de educação superior e estabelece, entre seus princípios, o respeito à organização sociopolítica e territorial dos povos indígenas, a valorização das línguas indígenas, o reconhecimento de seus processos próprios de ensino e aprendizagem e a promoção do diálogo intercultural. A formação deve articular espaços como a comunidade, a família, o movimento indígena e a escola, além de preparar os docentes para atuar de acordo com as especificidades socioculturais e linguísticas de cada povo.[6]

No ensino superior, uma das principais políticas de formação é o Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind), que apoia cursos específicos destinados à habilitação de professores indígenas para a docência nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. As licenciaturas interculturais integram atividades de ensino, pesquisa e extensão e podem abordar, entre outros temas, línguas indígenas, conhecimentos comunitários, gestão territorial e sustentabilidade. A formação continuada também é desenvolvida por iniciativas como a Ação Saberes Indígenas na Escola, voltada ao trabalho bilíngue ou multilíngue e à valorização dos conhecimentos e das formas próprias de aprendizagem dos povos indígenas.[7][8]

Panorama estatístico da educação escolar indígena

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O Censo Escolar da Educação Básica, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), constitui a principal fonte oficial de informações sobre escolas, matrículas, turmas, docentes, gestores e demais profissionais da educação básica brasileira. Seus resultados são utilizados no planejamento, no acompanhamento e na avaliação das políticas educacionais.[9]

Em 2024, o monitoramento do Plano Plurianual federal registrou 289.477 estudantes matriculados em escolas indígenas no Brasil. O número representou resultado superior à meta estabelecida para aquele período e evidencia a ampliação do atendimento escolar, embora a oferta continue marcada por diferenças territoriais e por desafios relacionados à infraestrutura, à formação docente, à produção de materiais específicos e à garantia do ensino bilíngue ou multilíngue.[10]

Línguas indígenas, alfabetização e educação bilíngue ou multilíngue

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A Constituição brasileira de 1988 assegura às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e de seus processos próprios de aprendizagem no ensino fundamental. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina, por sua vez, a oferta de uma educação escolar bilíngue e intercultural, orientada para a recuperação das memórias históricas, a reafirmação das identidades étnicas e a valorização das línguas e dos conhecimentos indígenas. As Diretrizes Curriculares Nacionais também reconhecem a especificidade, o bilinguismo ou multilinguismo, a organização comunitária e a interculturalidade como fundamentos da educação escolar indígena.[11][12][13]

As situações sociolinguísticas variam entre os povos e as comunidades. Há escolas em que uma língua indígena ocupa posição central no ensino; outras trabalham com duas ou mais línguas indígenas, com o português ou com diferentes combinações entre elas. Por essa razão, a alfabetização não deve ser organizada segundo um modelo linguístico único. A escolha das línguas de ensino, das formas de alfabetização e da relação entre oralidade e escrita deve considerar a realidade sociolinguística, os conhecimentos comunitários e os projetos educacionais definidos por cada povo. O Decreto nº 6.861, de 2009, reconhece às escolas indígenas normas próprias e diretrizes curriculares específicas, voltadas ao ensino intercultural, bilíngue ou multilíngue.[14]

A presença do português na educação escolar indígena pode ampliar o acesso a informações, conhecimentos científicos, direitos e espaços de participação social, mas não deve implicar a substituição automática das línguas indígenas. A proposta intercultural procura estabelecer relações entre conhecimentos indígenas e não indígenas, preservando a autonomia das comunidades para definir as funções atribuídas a cada língua em seus processos educativos. A valorização linguística pode envolver o ensino, a pesquisa, o registro de narrativas, a elaboração de vocabulários e a criação de materiais destinados às diferentes etapas da educação básica.[15]

A produção de materiais didáticos específicos constitui parte importante dessa política. A legislação prevê a elaboração e a publicação sistemática de materiais diferenciados, enquanto programas educacionais apoiam a produção de livros, cartazes, registros audiovisuais e outros recursos em línguas indígenas, em formato bilíngue ou em português. A participação de professores, estudantes, pesquisadores e integrantes das comunidades permite que esses materiais incorporem narrativas, conhecimentos, formas de expressão e critérios linguísticos vinculados aos próprios povos.[16]

Marco jurídico

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A Constituição brasileira de 1988 estabelece as bases jurídicas da educação escolar indígena. O artigo 210, § 2º, assegura às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e de seus processos próprios de aprendizagem no ensino fundamental. O artigo 231 reconhece, por sua vez, a organização social, os costumes, as línguas, as crenças, as tradições e os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Esses dispositivos fundamentam o direito a uma educação que respeite as especificidades linguísticas, culturais, territoriais e pedagógicas de cada povo.[17]

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nos artigos 78 e 79, determina o desenvolvimento de programas de ensino e pesquisa destinados à oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos povos indígenas. Entre seus objetivos estão a recuperação das memórias históricas, a reafirmação das identidades étnicas, a valorização das línguas e dos conhecimentos indígenas e o acesso a informações científicas e técnicas de outras sociedades. A lei também prevê a participação das comunidades no planejamento dos programas, a formação de profissionais especializados, a elaboração de currículos específicos e a produção de materiais didáticos diferenciados. No ensino superior, estabelece a oferta de ensino, assistência estudantil, estímulo à pesquisa e programas especiais voltados aos povos indígenas.[18]

O Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009, determina que a educação escolar indígena seja organizada com a participação dos povos indígenas, observando sua territorialidade, suas necessidades e suas especificidades. O decreto reconhece às escolas indígenas normas próprias, diretrizes curriculares específicas e formas de ensino intercultural, bilíngue ou multilíngue, além de prever currículos, calendários e materiais adequados às atividades sociais, culturais, econômicas e religiosas das comunidades. A Resolução CNE/CEB nº 5, de 22 de junho de 2012, definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica.[19][20]

A Lei Complementar nº 220, de 31 de outubro de 2025, que instituiu o Sistema Nacional de Educação, reafirmou que a educação escolar indígena é responsabilidade compartilhada da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. A norma caracteriza essa modalidade como bilíngue ou multilíngue, específica, diferenciada e intercultural e determina que sua organização considere os territórios etnoeducacionais. Também prevê a participação dos povos indígenas nas instâncias de pactuação responsáveis pela organização da oferta educacional em seus territórios.[21]

Trajetória histórica da educação escolar indígena

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Escola indígena baníua no rio Içana, na Amazônia

A escolarização destinada aos povos indígenas no Brasil teve início durante o período colonial e esteve inicialmente associada à atuação de ordens religiosas, especialmente à Companhia de Jesus. As escolas e missões procuravam promover a catequização, modificar práticas culturais e incorporar as populações indígenas à ordem colonial. Esses processos não eliminaram, entretanto, as formas próprias de educação mantidas pelos diferentes povos, desenvolvidas nas relações familiares e comunitárias, no trabalho, nos rituais, na oralidade e na transmissão de conhecimentos entre gerações.[22]

Durante os séculos XIX e XX, diferentes iniciativas missionárias e políticas indigenistas oficiais mantiveram objetivos de integração e assimilação. A escolarização foi empregada, em diversas experiências, para difundir a língua portuguesa, padrões nacionais de comportamento e formas de trabalho consideradas adequadas pelo Estado e por instituições religiosas. A criação do Serviço de Proteção ao Índio em 1910 e da Fundação Nacional do Índio em 1967 modificou a estrutura administrativa da política indigenista, mas não rompeu imediatamente com o entendimento de que os povos indígenas deveriam ser progressivamente incorporados à sociedade nacional.[23]

A partir das últimas décadas do século XX, organizações e movimentos indígenas ampliaram sua participação na formulação das políticas educacionais e reivindicaram escolas vinculadas às línguas, aos territórios, às identidades e aos projetos comunitários de cada povo. A Constituição brasileira de 1988 representou uma mudança jurídica ao reconhecer a organização social, os costumes, as línguas, as crenças e as tradições indígenas e ao assegurar a utilização das línguas maternas e dos processos próprios de aprendizagem. Em 1991, o Decreto nº 26 atribuiu ao Ministério da Educação a coordenação das ações referentes à educação escolar indígena, posteriormente desenvolvidas por normas específicas, programas de formação docente e diretrizes curriculares nacionais.[24]

Nesse novo contexto, a escola passou a ser reivindicada e reelaborada por diferentes povos indígenas como espaço de formação, afirmação identitária, fortalecimento linguístico, produção de materiais, registro de memórias e defesa de direitos. Esse processo não ocorre de maneira uniforme e permanece sujeito a conflitos, limitações administrativas e desigualdades de infraestrutura. Ainda assim, a participação de professores, estudantes, lideranças e organizações indígenas modificou progressivamente a escola anteriormente organizada para os povos indígenas em uma instituição que pode ser construída pelos próprios povos e de acordo com seus projetos societários.[25][26]

Organização da política pública de educação escolar indígena

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A política brasileira de educação escolar indígena funciona em regime de colaboração entre os diferentes níveis de governo. O Ministério da Educação é responsável pela coordenação nacional e pela definição das diretrizes, enquanto os estados e municípios atuam na oferta e na execução das ações educacionais, de acordo com suas competências. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas acompanha e monitora a implementação dessas políticas, apoia a participação indígena nas instâncias de controle social e promove a articulação entre comunidades, sistemas de ensino e outros órgãos públicos.[27]

A participação das comunidades indígenas constitui elemento central na elaboração, na execução e na avaliação da política educacional. O projeto político-pedagógico de cada escola deve expressar a identidade, as línguas, os conhecimentos, as formas de organização e os projetos societários do povo atendido. O currículo não se limita à distribuição de disciplinas, podendo articular territorialidade, sustentabilidade, memória, patrimônio cultural, práticas comunitárias e conhecimentos indígenas e não indígenas, conforme as decisões e necessidades locais.[28]

O Decreto nº 6.861, de 2009, estabeleceu os territórios etnoeducacionais como referência para o planejamento da educação escolar indígena. Esses territórios podem reunir terras indígenas descontínuas e ultrapassar limites municipais ou estaduais, desde que os povos envolvidos compartilhem relações históricas, sociais, políticas, econômicas, linguísticas ou culturais. Cada território deve possuir plano de ação elaborado com participação de representantes indígenas, do Ministério da Educação, da Funai, das secretarias de educação e de outras instituições envolvidas, submetido à consulta das comunidades.[29]

Em outubro de 2025, o governo federal formalizou a pactuação dos 52 territórios etnoeducacionais existentes no país e estabeleceu diretrizes para a implementação da Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais. A política está organizada em eixos que incluem coordenação federativa, formação de professores indígenas, produção e distribuição de materiais didáticos e literários em línguas indígenas, melhoria da infraestrutura escolar, acesso e permanência no ensino superior, valorização dos conhecimentos tradicionais e monitoramento contínuo. A governança deve ocorrer por meio de comissões gestoras descentralizadas, constituídas com participação das comunidades indígenas.[30]

Desafios contemporâneos da educação escolar indígena

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Apesar dos avanços legais e institucionais, a educação escolar indígena ainda enfrenta desafios relacionados à garantia do direito à educação específica, diferenciada, intercultural, bilíngue ou multilíngue. Esses desafios variam entre os diferentes povos e regiões do país, envolvendo aspectos administrativos, financeiros, territoriais, pedagógicos e sociolinguísticos. Relatórios produzidos por órgãos públicos e organizações indígenas indicam que muitas escolas ainda enfrentam dificuldades para implementar plenamente as diretrizes previstas na legislação brasileira.[31]

Entre os desafios frequentemente apontados estão a necessidade de ampliação da infraestrutura escolar, a construção e manutenção de unidades em territórios indígenas, a oferta regular de transporte e alimentação escolar, a formação inicial e continuada de professores indígenas, a produção e distribuição de materiais didáticos específicos, o fortalecimento das escolas bilíngues e multilíngues e a garantia de financiamento adequado para os sistemas de ensino responsáveis pela oferta da educação escolar indígena.[32]

Outro desafio consiste em assegurar que a gestão das políticas educacionais seja realizada com participação efetiva das comunidades indígenas. A legislação brasileira prevê consultas, instâncias de participação e elaboração coletiva dos projetos político-pedagógicos, porém sua implementação depende da articulação entre União, estados, municípios, organizações indígenas e instituições de ensino. Também permanecem como temas recorrentes a valorização das línguas indígenas, a permanência de estudantes no ensino médio e superior, a formação de novos docentes indígenas e o fortalecimento dos territórios etnoeducacionais como unidades de planejamento da política pública.[33]

Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind)

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O Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind) foi instituído pelo Ministério da Educação com o objetivo de apoiar a criação e a consolidação de cursos de Licenciatura Intercultural destinados prioritariamente à formação de professores indígenas para atuação na educação básica. O programa busca ampliar o acesso de indígenas ao ensino superior e fortalecer cursos organizados em diálogo com as comunidades, respeitando suas línguas, conhecimentos, formas de organização social e projetos educativos próprios.[34]

As licenciaturas interculturais apoiadas pelo programa apresentam organização curricular diferenciada e costumam articular períodos de formação nas universidades com atividades desenvolvidas nos próprios territórios indígenas. Os cursos abrangem ensino, pesquisa e extensão e podem contemplar áreas como línguas indígenas, gestão territorial, história, memória, sustentabilidade, conhecimentos tradicionais, educação intercultural e formação pedagógica. A organização curricular procura compatibilizar as exigências da educação superior brasileira com os projetos políticos e pedagógicos elaborados pelos próprios povos indígenas.[35]

Desde sua criação, o Prolind contribuiu para a expansão das licenciaturas interculturais em universidades federais e estaduais de diferentes regiões do país, favorecendo a formação de milhares de professores indígenas e a consolidação de políticas voltadas à valorização das línguas indígenas, da interculturalidade e da autonomia pedagógica das escolas indígenas. O programa integra o conjunto de ações federais destinadas ao fortalecimento da educação escolar indígena e mantém articulação com os territórios etnoeducacionais, com as diretrizes curriculares nacionais e com as políticas de formação docente desenvolvidas pelo Ministério da Educação.[36]

Ensino superior indígena e projetos de universidades indígenas

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A ampliação do acesso dos povos indígenas ao ensino superior ocorreu de forma gradual a partir do final do século XX, inicialmente por meio da criação de licenciaturas interculturais destinadas à formação de professores indígenas e, posteriormente, pela implantação de cursos de graduação, programas de pós-graduação e unidades acadêmicas específicas em universidades públicas. Essas iniciativas passaram a articular formação docente, pesquisa, extensão e valorização dos conhecimentos indígenas em diálogo com os sistemas nacionais de educação superior.[37]

Entre as experiências pioneiras destacam-se a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), que iniciou em 2001 cursos específicos para formação de professores indígenas e posteriormente estruturou a Faculdade Indígena Intercultural (FAINDI), a Universidade Federal de Roraima (UFRR), que implantou a Licenciatura Intercultural e posteriormente o Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, e a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), que criou a Faculdade Intercultural Indígena (FAIND). Essas experiências contribuíram para consolidar modelos próprios de formação superior voltados às demandas de diferentes povos indígenas.[38]

Além da expansão das licenciaturas interculturais, organizações indígenas, pesquisadores, universidades e órgãos públicos passaram a discutir a criação de instituições de ensino superior concebidas especificamente para atender às necessidades dos povos indígenas. Em 2014, o Ministério da Educação instituiu um grupo de trabalho para estudar a viabilidade de uma universidade intercultural indígena. Posteriormente, o tema voltou a ganhar destaque em encontros nacionais do movimento indígena, como o Acampamento Terra Livre, e em debates promovidos por instituições públicas e parlamentares, ampliando a discussão sobre modelos de governança universitária, produção de conhecimento e autonomia acadêmica indígena.[39]

A criação de universidades indígenas permanece em debate no Brasil como parte das políticas de fortalecimento da educação escolar indígena e do ensino superior intercultural. As propostas discutidas buscam compatibilizar os padrões acadêmicos do sistema nacional de educação superior com formas próprias de produção e transmissão de conhecimentos, valorizando as línguas indígenas, os territórios, a interculturalidade e a participação das comunidades na definição dos projetos pedagógicos e da gestão institucional.[40]

Ver também

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Referências

  1. Melià, Bartomeu (1999). «Educação indígena na escola». Cadernos CEDES. 19: 11–17. ISSN 0101-3262. doi:10.1590/S0101-32621999000200002
  2. Brasil. «RESOLUÇÃO Nº 5, DE 22 DE JUNHO DE 2012 - Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica.» (PDF). www.gov.br. Consultado em 27 de julho de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 26 de julho de 2026
  3. «L11645». www.planalto.gov.br. Consultado em 10 de julho de 2021. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
  4. 1 2 BRASIL, Conselho Nacional de Educação (22 de junho de 2012). «Resolução CNE/CEB nº 5, de 22 de junho de 2012» (PDF). Consultado em 27 de julho de 2026
  5. 1 2 LUCIANO, Gersem José dos Santos (Baniwa) (2013). Educação para manejo do mundo: entre a escola ideal e a escola real. Rio de Janeiro: Contra Capa / LACED. ISBN 9788577401512
  6. «Resolução CNE/CP nº 1, de 7 de janeiro de 2015» (PDF). Ministério da Educação. 7 de janeiro de 2015. Consultado em 31 de julho de 2026
  7. «Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas — Prolind». Ministério da Educação. Consultado em 31 de julho de 2026
  8. «Conheça as ações do MEC para os profissionais da educação». Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 14 de maio de 2026
  9. «Censo Escolar». Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 27 de julho de 2026
  10. «Políticas para infância e adolescência superam metas no primeiro ano do PPA Participativo». Ministério do Planejamento e Orçamento. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 14 de março de 2026
  11. «Constituição da República Federativa do Brasil de 1988». Presidência da República. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
  12. «Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996». Presidência da República. Consultado em 31 de julho de 2026
  13. «Educação Indígena: normas classificadas por assunto». Ministério da Educação. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 20 de maio de 2026
  14. «Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009». Presidência da República. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 11 de maio de 2026
  15. «Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996». Presidência da República. Consultado em 31 de julho de 2026
  16. «Educação Indígena». Ministério da Educação. Consultado em 31 de julho de 2026. Cópia arquivada em 13 de novembro de 2018
  17. «Constituição da República Federativa do Brasil de 1988». Presidência da República. 5 de outubro de 1988. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
  18. «Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996». Presidência da República. 20 de dezembro de 1996. Consultado em 1 de agosto de 2026
  19. «Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009». Presidência da República. 27 de maio de 2009. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 11 de maio de 2026
  20. «Educação Indígena: normas classificadas por assunto». Ministério da Educação. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 20 de maio de 2026
  21. «Lei Complementar nº 220, de 31 de outubro de 2025». Presidência da República. 31 de outubro de 2025. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
  22. Bergamaschi, Maria Aparecida; Medeiros, Juliana Schneider (2010). «História, memória e tradição na educação escolar indígena: o caso de uma escola Kaingang». Revista Brasileira de História. 30 (60): 55–75. doi:10.1590/S0102-01882010000200004. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 21 de janeiro de 2022
  23. «Produções acadêmicas sobre a Educação Escolar Indígena: um tributo a Marilda Cavalcanti». DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 14 de abril de 2024
  24. «Educação: legislação». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
  25. Bergamaschi, Maria Aparecida; Medeiros, Juliana Schneider (2010). «História, memória e tradição na educação escolar indígena: o caso de uma escola Kaingang». Revista Brasileira de História. 30 (60): 55–75. doi:10.1590/S0102-01882010000200004. Consultado em 1 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 21 de janeiro de 2022
  26. «Educação Comunitária». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 1 de agosto de 2026
  27. «Educação Escolar Indígena». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 2 de agosto de 2026
  28. «Educação Escolar Indígena». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 2 de agosto de 2026
  29. «Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009». Presidência da República. 27 de maio de 2009. Consultado em 2 de agosto de 2026
  30. «MEC assina pactuação de territórios etnoeducacionais». Ministério dos Povos Indígenas. 8 de outubro de 2025. Consultado em 2 de agosto de 2026
  31. «Educação Escolar Indígena». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 2 de agosto de 2026
  32. «Pactuação dos Territórios Etnoeducacionais». Ministério da Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  33. «Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009». Presidência da República. Consultado em 2 de agosto de 2026
  34. «Educação Escolar Indígena». Ministério da Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  35. «Educação Indígena: normas classificadas por assunto». Conselho Nacional de Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  36. «Educação Escolar Indígena». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Consultado em 2 de agosto de 2026
  37. «Educação Escolar Indígena». Ministério da Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  38. «Educação Escolar Indígena». Ministério da Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  39. «Notícias — Ministério da Educação». Ministério da Educação. Consultado em 2 de agosto de 2026
  40. «Ministério dos Povos Indígenas». Ministério dos Povos Indígenas. Consultado em 2 de agosto de 2026

Bibliografia

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  • Angelis, Wilmar da Rocha d'; Veiga, Juracilda, eds. (1997). Leitura e escrita em escolas indígenas: Encontro de Educação Indígena no 10o COLE/1995. Col: Leituras no Brasil. Campinas, SP, Brasil: ALB : Mercado de Letras. ISBN 978-85-85725-27-3 

Teses acadêmicas

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  • Mônaco Viver Repartindo. Editora IECLB. Cartilha para a semana dos povos indígenas. 2002.
  • O Tempo passa o tempo volta. Editora IECLB. Cartilha para a semana dos povos indígenas. 2001.

Ligações externas

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