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O Banquete

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 Nota: Este artigo é sobre o texto de Platão. Para o filme de 2018, veja O Banquete (filme).
O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873), Alte Nationalgalerie, Berlim

O Banquete, também conhecido como Simpósio (em grego antigo: Συμπόσιον, transl. Sympósion), é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C. Constitui-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor (eros). O Banquete é, juntamente com o Fedro, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. A interpretação de Leo Strauss e de Stanley Rosen destaca o aspecto tragicômico deste diálogo, que é, na verdade, a resposta de Platão às acusações da Cidade contra a filosofia.

Temática

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Tò sumpósion, em grego, é em geral traduzido como O Banquete, mas, no sentido atual, equivaleria a uma festa mundana, em que quase sempre se bebe mais do que se come, a qual no mundo grego antigo era chamada de simpósio. Trata-se, pois, de um festim na casa de Agatão, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também ali estão Aristodemo de Cidateneu, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agatão; o médico Erixímaco; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates, e o político Alcibíades.

Questões relativas à obra

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Obra de Józef Simmler, datada de 1855, representando a sacerdotiza Diotima de Mantineia. Óleo sobre canvas, 210x141 cm.

O exagero cometido na festa do dia anterior, sobretudo o excesso de bebida, fatigara os convidados de Agatão. Pausânias propõe, então, que, em lugar de beber, ficassem ali a conversar, a discutir ou que cada um fizesse algo "diferente". A proposta de Pausânias é aceita por todos.

Nesse momento inicial, antes de começarem os discursos, Erixímaco propõe também que se dispense a flautista que acompanhava a festa, sugerindo que ela "toque para si mesma, ou, se preferir, lá dentro, para as mulheres" da casa, e que os presentes passem a se dedicar à conversa por meio do discurso.[1] A cena é breve no texto original, mas tem sido lida por comentadores como um gesto simbólico de exclusão do elemento considerado "irracional" para que restasse no ambiente apenas o debate racional e filosófico entre os homens presentes.[2]

Parte da historiografia recente sobre a Antiguidade tem revisitado esse episódio para questionar a suposta ausência absoluta das mulheres no universo do simpósio. Autoras como Marta Mega de Andrade argumentam que a separação estrita entre os espaços público (polis) e privado (oîkos) era, em boa medida, uma construção ideológica da elite ateniense, e que vestígios como a menção às mulheres "lá dentro" indicam que a vida doméstica permanecia entrelaçada à esfera cívica representada pelo simpósio.[3] Nessa leitura, a expulsão da flautista e a centralidade da fala de Diotima de Mantineia — evocada por Sócrates como sua mentora intelectual — são tomadas como indícios de que a racionalidade masculina do debate dependia, em alguma medida, do elemento feminino que procurava excluir.[4]

Erixímaco sugere ainda que fossem feitos elogios a Eros: os convidados deveriam fazer discursos para louvar o amor. Sócrates intervém, ponderando que, antes de falar sobre o bem que o amor causa e seus frutos, deveriam tratar de definir o que é o amor. Diz que, na sua juventude, fora iniciado na filosofia do amor por Diotima de Mantineia, que era uma sacerdotisa. Diotima lhe ensinou a origem e a natureza de Eros.

O primeiro a discursar foi Fedro, onde, do seu ponto de vista, Eros é o mais antigo dos deuses e inspira os homens a belos feitos e à virtude. Em seguida, Pausânias (amante do Agatão, dono da festa) que afirma que há mais de um Eros, dividido entre bem e mal, real e divino. Após, segue Erixímaco: segundo ele, o amor não exerce influência apenas nas almas, mas dá, ainda, harmonia ao corpo.

Aristófanes, comediógrafo, foi o próximo, e logo avisou que seu discurso seria diferente dos anteriores. Ele começou criticando a falta de reconhecimento dos homens diante do poder de Eros. Para explicar esse poder, contou um mito: no início, existiam três tipos de seres humanos, todos duplos de si mesmos (masculino-masculino, feminino-feminino e masculino-feminino, este último conhecido como andrógino) Os deuses, com medo do poder desses seres, os cortaram ao meio.

É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto uma téssera complementar de um homem, porque cortado com os linguados, de um só em dois; e procura cada um o seu próprio complemento.


Assim, aqueles que foram um corte do andrógino, sejam homens ou mulheres, procuram o seu contrário. Isto explica o amor heterossexual. E aquelas que foram o corte da mulher, o mesmo ocorrendo com aqueles que são o corte do masculino, procurarão se unir ao seu igual. Aqui Aristófanes apresenta uma explicação para o amor homossexual feminino e masculino. Quando estas metades se encontram, sentem as mais extraordinárias sensações, intimidade e amor, a ponto de não quererem mais se separar, e sentem-se a vontade de se "fundirem" novamente num só. Esse é o nosso desejo ao encontramos a nossa cara metade.

O amor para Aristófanes é, portanto, o desejo e a procura da metade perdida por causa da nossa injustiça contra os deuses. O último a elogiar o amor foi Agatão, o anfitrião do banquete. Ao contrário dos que o precederam, Agatão não se propõe enaltecer os benefícios que Eros faz ao homem, mas sim cantar o próprio deus e a sua essência, passando em seguida a descrever-lhe o dote.

Finalmente chega a hora de Sócrates discursar, e ele fala que, sendo o Amor, amor de algo, esse algo é por ele certamente desejado. Mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe ''falta'' e não quando o possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais.

O que deseja, deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente.


Aqui, na fala de Sócrates, Platão coloca seu apontamento crucial sobre o conceito de amor, de que o que se ama é somente aquilo que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O objeto do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está sempre mais além: sempre que pensamos tê-la atingido, ela se nos escapa entre os dedos. Essa inquietação na origem de uma procura, visando uma paixão ou um saber, faz do amor um filósofo. Sendo o Amor, amor daquilo que falta, forçosamente não é belo nem bom, visto que necessariamente o Amor é amor do belo e do bom. Não temos como desejar aquilo que temos. No mesmo diálogo, Platão ainda fala sobre a origem de Eros (através do mito narrado por Diotima de Mantineia a Sócrates). Eros teria a natureza da falta justamente por ser filho de Recurso e Pobreza.

No texto, Sócrates retira de Eros (Amor) a condição de deus, e transforma-o em um selo, um intermediário entre os deuses e os mortais (o amor como ligação), o que Sócrates chama de ''daimon''. Segundo relatos do texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem (junto com o inteligência e a sabedoria); não é nem bom nem mal em si mesmo, como prática. Platão relaciona o amor com a verdade, pois quando se ama trata-se da verdade.

Diotima de Mantineia

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Diotima é apresentada por Sócrates como uma sacerdotisa de Mantineia que teria ido a Atenas para aconselhar a cidade por ocasião de uma peste, ocasião em que Sócrates teria sido por ela instruído sobre a natureza do amor.[5] É a única voz feminina de destaque no diálogo, e sua presença — mesmo indireta, mediada pela fala de Sócrates — tem sido discutida por pesquisadores como um dos poucos indícios de participação intelectual feminina na tradição filosófica registrada por Platão, ainda que sua historicidade seja debatida.[6]

Platão deixa entrever em O Banquete, que Eros deve ser pensado em termos relacionais: ele é amor de alguma coisa e estabelece relação entre quem ama e aquele que é amado, assim como a opinião certa medeia a sabedoria e ignorância. Mas em sua forma absoluta e maior, Platão propõe na scala amoris da alegoria de Diotima que o Amor verdadeiramente visa sempre ao Bem e ao Belo em si, e todas as suas manifestações particulares conforme a Teoria das Ideias, e que os amantes sempre ascendem de grau em grau a essa contemplação do amor divino.[7][8][9]

No texto, Platão retira de Eros (Amor) a condição de deus, e transforma-o em um selo, um intermediário entre os deuses e os mortais (o amor como ligação). Segundo relatos do texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem (junto com o inteligência e a sabedoria); não é nem bom nem mal em si mesmo, como prática. No diálogo, existe também uma explicação e a naturalização do amor bissexual e do amor homossexual. Platão relaciona o amor com a verdade, pois quando se ama não é somente exercer o poder sobre alguém ou demonstrar força, mas trata-se de saber ser correspondido, ou seja, trata-se da verdade.

Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.[carece de fontes]?

Ver também

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Referências

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  1. NUNES, Carlos Alberto. O Banquete. [Tradução]. Belém: EDUFPA, 2011, p. 87.
  2. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. 1. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 40-41.
  3. ANDRADE, Marta De. A vida comum: cotidiano e cidade na Atenas Clássica. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002, p. 98-103.
  4. DOS SANTOS, Y. G.; MATIAS LIMA, W. O discurso sobre o amor no banquete, de Platão, e a presença de Diotima de Mantineia: mulher/sacerdotisa/hetaira. Psicanálise & Barroco em Revista, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 106–125, 2019.
  5. DOS SANTOS, Y. G.; MATIAS LIMA, W. Op. cit., p. 109.
  6. PACHECO, Julaina (org). Filósofas: a presença das mulheres na filosofia. Porto Alegre: Editora Fi, 2016, p. 51.
  7. Platão. O Banquete, 211c-d
  8. de Almeida, Yuri Galvão Oberlaender. (2018). Scala Amoris: Síntese da Educação Filosófica no Banquete de Platão. Dissertação de mestrado em Filosofia ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina.
  9. Platão. O Banquete, 206a

Bibliografia

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  • Press, Gerald A. (2012). The Continuum Companion to Plato (em inglês). [S.l.]: A&C Black. ISBN 0826435351 

Ligações externas

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