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Revolução Americana

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Este artigo é sobre aspectos políticos e sociais. Para aspectos militares, veja Guerra de Independência dos Estados Unidos.
Revolução Americana
Parte das revoluções atlânticas
O Comitê dos Cinco apresentando o rascunho da Declaração de Independência ao Segundo Congresso Continental na Filadélfia, em 28 de junho de 1776, retratado na obra de 1818 de John Trumbull, Declaração de Independência.
Data1765–1783
LocalizaçãoTreze Colônias
(1765–1775)
Colônias Unidas
(1775–1776)
Estados Unidos
(1776–c.1800)
Resultado

A Revolução Americana[a] (1765–1789) foi um movimento político nas Treze Colônias do Reino da Grã-Bretanha. Começou como uma rebelião e transformou-se em uma revolução, criando por fim os soberanos Estados Unidos, resultado da Guerra de Independência dos Estados Unidos (1775–1783) a ela associada. O Segundo Congresso Continental, atuando como governo provisório, criou o Exército Continental e nomeou George Washington seu comandante-em-chefe em 1775. No ano seguinte, o Congresso aprovou a Resolução Lee em 2 de julho e adotou por unanimidade a Declaração de Independência em 4 de julho. Durante a maior parte da guerra, o resultado pareceu incerto, mas uma vitória de Washington e do Exército Continental no Cerco de Yorktown, em 1781, levou o rei Jorge III e a coalizão Fox–North, então no governo, a negociar o fim do domínio colonial e o reconhecimento da soberania americana, formalizados no Tratado de Paris, assinado em 3 de setembro de 1783. A Constituição entrou em vigor em 1789, e a Declaração de Direitos foi ratificada em 1791.

O descontentamento com o domínio colonial começou pouco depois da Guerra Franco-Indígena, encerrada em 1763. Embora as colônias tivessem combatido e apoiado diretamente a guerra, o Parlamento britânico impôs novos impostos para compensar os custos do conflito e transferiu o controle das terras ocidentais das colônias para autoridades britânicas em Montreal. Representantes de várias colônias reuniram-se em Nova Iorque no Congresso da Lei do Selo, em 1765. Sua declaração sustentava que a tributação sem representação e outras políticas violavam seus direitos como ingleses. Em 1767, embora a Lei do Selo tivesse sido revogada, as tensões voltaram a aumentar após a aprovação dos Atos de Townshend pelo Parlamento. Em uma tentativa de conter a rebelião crescente, o rei Jorge III enviou tropas britânicas à colônia de Massachusetts, onde ocorreu o Massacre de Boston, em 1770. Em dezembro de 1773, a facção local dos Filhos da Liberdade organizou a Festa do Chá de Boston, durante a qual lançou no Porto de Boston caixas de chá tributado pertencentes à Companhia Britânica das Índias Orientais. O Parlamento respondeu promulgando uma série de leis punitivas, denominadas Leis Intoleráveis. Elas pretendiam pôr fim ao autogoverno em Massachusetts, mas, em vez disso, ampliaram o apoio americano à revolução.

Em 1774, doze das Treze Colônias enviaram delegados ao Primeiro Congresso Continental — a Província da Geórgia aderiu em 1775. O Primeiro Congresso Continental começou a coordenar a resistência dos patriotas por meio de redes clandestinas de comitês de correspondência, construídas em grande parte sobre as bases da rede dos Filhos da Liberdade. Em agosto de 1775, o rei Jorge III proclamou que Massachusetts se encontrava em rebelião. Os britânicos tentaram desarmar os colonos, o que resultou nas Batalhas de Lexington e Concord e deu início à guerra revolucionária. O Segundo Congresso Continental reuniu-se em maio de 1775 e criou o Exército Continental, que então cercou Boston, obrigando os britânicos a retirarem-se por mar em março de 1776 e deixando os patriotas no controle de todas as colônias. Em maio de 1776, o Congresso votou pela supressão de todas as formas de autoridade da Coroa, que seriam substituídas por autoridades criadas localmente, e cada colônia elaborou uma constituição estadual. Em 2 de julho, o Congresso aprovou a Resolução Lee, afirmando seu apoio à independência conjunta. Em 4 de julho de 1776, adotou por unanimidade a Declaração de Independência, proclamando que "todos os homens são criados iguais". Depois disso, o Congresso começou a redigir os Artigos da Confederação, uma tentativa de criar um organismo coordenador autônomo formado por vários estados, capaz de negociar tratados internacionais e conduzir a guerra.

A guerra revolucionária prosseguiu por mais cinco anos, período durante o qual a França acabou entrando no conflito. Em 28 de setembro de 1781, Washington comandou a captura, pelo Exército Continental, de um exército britânico sob o comando do general Cornwallis no Cerco de Yorktown, levando ao colapso do controle do rei Jorge sobre o Parlamento. O consenso parlamentar logo passou a favorecer o encerramento da guerra nos termos americanos. Em 3 de setembro de 1783, os britânicos assinaram o Tratado de Paris, reconhecendo a independência soberana dos Estados Unidos e cedendo à nova nação quase todo o território a leste do Rio Mississippi e ao sul dos Grandes Lagos. Os Estados Unidos tornaram-se a primeira nação a estabelecer uma república federal dotada de uma constituição escrita baseada nos princípios dos direitos naturais universais, do consentimento dos governados e da igualdade perante a lei, embora com limitações democráticas significativas em comparação com a evolução posterior do conceito.

Após a Revolução Gloriosa na Grã-Bretanha, os britânicos adotaram uma política de "negligência salutar", pela qual as Treze Colônias foram, em grande medida, deixadas à própria administração.[1] Como resultado dessa nova política e dos ideais de liberdade surgidos da Revolução Gloriosa, apareceram novos sistemas de governo — exemplificados pela Estrutura de Governo da Pensilvânia de William Penn e pela Carta de Massachusetts de 1691 —; instituições religiosas — exemplificadas pela natureza democrática do protestantismo congregacional na Nova Inglaterra e pelo Primeiro Grande Despertamento em todas as colônias —; e, ocasionalmente, atitudes contrárias à escravidão — exemplificadas pela proibição da prática em Massachusetts e, pelo menos inicialmente, na Geórgia —, embora estas últimas fossem menos comuns. Essa política britânica foi significativamente revertida depois da Guerra Franco-Indígena. O establishment político britânico, especialmente após conquistar extensas faixas de terra dos antigos territórios da Nova França, passou a exercer maior controle sobre os assuntos coloniais, levando as Treze Colônias a buscar a restauração de uma autonomia mais ampla perante a Grã-Bretanha.[2] Após a Revolução Americana, um patriota, o capitão Levi Preston, de Danvers, Massachusetts, ao ser questionado sobre por que os americanos se haviam rebelado contra a Inglaterra, respondeu: "...sempre nos governamos e sempre pretendemos fazê-lo. Eles não queriam que o fizéssemos."[3]

1651–1763: evolução da política colonial

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Desenvolvimento do autogoverno colonial

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Mapa de 1775 do leste da América do Norte, incluindo a Província de Quebec (1763–1791), as Treze Colônias na costa do Atlântico e a Reserva Indígena definida pela Proclamação Real de 1763. A fronteira entre as áreas vermelha e rosa representa a linha da Proclamação de 1763, e a área laranja representa as reivindicações coloniais espanholas.

As Treze Colônias foram estabelecidas no século XVII como parte do Império Inglês e passaram a integrar o Império Britânico depois dos atos de união da Inglaterra e da Escócia, em 1707.[4]

O desenvolvimento de uma identidade americana própria remonta à Guerra Civil Inglesa (1642–1651) e às suas consequências. Nesse período, as colônias puritanas da Nova Inglaterra apoiaram o governo da Comunidade da Inglaterra, responsável pela execução do rei Carlos I. Depois da Restauração inglesa de 1660, a Baía de Massachusetts não reconheceu Carlos II como rei legítimo durante mais de um ano após sua coroação.[5] Na Guerra do Rei Filipe (1675–1678), as colônias da Nova Inglaterra enfrentaram uma coalizão de algumas tribos de povos indígenas sem assistência militar da Inglaterra, contribuindo assim para o desenvolvimento de uma identidade especificamente americana, distinta daquela dos britânicos.[6]

Na década de 1680, Carlos e seu irmão, Jaime II, tentaram submeter a Nova Inglaterra ao controle direto da Inglaterra.[7] Os colonos opuseram-se energicamente, e a Coroa anulou suas cartas coloniais em resposta.[8] Em 1686, Jaime concluiu esses esforços ao reunir as diferentes colônias da Nova Inglaterra, juntamente com a Nova Iorque e a Nova Jérsia, no Domínio da Nova Inglaterra. Edmund Andros foi nomeado governador real e incumbido de governar o novo domínio diretamente. As assembleias coloniais e as reuniões municipais foram restringidas, novos impostos locais foram cobrados e direitos foram limitados. O governo do Domínio provocou forte ressentimento em toda a Nova Inglaterra.[9] Quando Jaime tentou governar sem o Parlamento da Inglaterra, a aristocracia inglesa o depôs na Revolução Gloriosa de 1688.[10] Seguiu-se a Revolta de Boston de 1689, que derrubou o governo do Domínio.[11][12] Os governos coloniais reafirmaram seu controle depois da revolta. Os novos monarcas, Guilherme e Maria, concederam novas cartas às colônias individuais da Nova Inglaterra.[13][14]

Depois da Revolução Gloriosa, o Império Britânico tornou-se uma monarquia constitucional, com a soberania exercida pelo rei no Parlamento. Os aristocratas herdavam assentos na Câmara dos Lordes, enquanto a pequena nobreza rural e os comerciantes controlavam a eleita Câmara dos Comuns. O rei governava por intermédio dos ministros do gabinete, que dependiam do apoio da maioria dos Comuns para governar com eficácia. Súditos britânicos dos dois lados do Atlântico afirmavam com orgulho que a constituição britânica não escrita, com suas garantias dos direitos dos ingleses, protegia a liberdade pessoal melhor do que qualquer outro governo.[15]

A constituição britânica serviu de modelo para os governos coloniais. A Coroa nomeava um governador real em cada colônia para exercer o poder executivo e, em geral, também designava um conselho do governador, que atuava em grande medida como câmara alta não eleita da legislatura.[16] Proprietários de terras elegiam entre si uma assembleia colonial com poderes para legislar e cobrar impostos, mas o governo britânico reservava-se o direito de vetar a legislação colonial.[17]

O governo britânico não dispunha dos recursos e das informações necessários para supervisionar de perto as colônias. Em vez disso, as autoridades britânicas negociavam e faziam concessões aos líderes coloniais para obter o cumprimento das políticas imperiais. As colônias defendiam-se com tropas provinciais e milícias coloniais formadas por habitantes locais, e o governo britânico raramente enviava forças militares à América antes de 1755.[18] Segundo o historiador Robert Middlekauff, "os americanos haviam se tornado quase completamente autogovernados" antes da Revolução Americana, prática compatível com a negligência salutar da monarquia britânica.[1]

Mercantilismo

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Com pouca indústria além da construção naval, as colônias exportavam produtos agrícolas em troca de bens manufaturados. Também importavam melaço, rum e açúcar das Índias Ocidentais Britânicas. Em 1651, o Parlamento aprovou a primeira de uma série de Atos de Navegação, que restringiam o comércio colonial com países estrangeiros.[19] O governo britânico adotou essa política de mercantilismo para ampliar seu poder econômico e político. Segundo o mercantilismo, as colônias existiam em benefício econômico da metrópole, e as necessidades econômicas dos colonos eram, em grande parte, irrelevantes.[20] As Treze Colônias podiam comerciar com o restante do império, mas somente enviar determinadas mercadorias, como o tabaco, para a Grã-Bretanha. Qualquer importação europeia destinada à América Britânica precisava primeiro passar por um porto inglês e pagar direitos alfandegários.[21] Outras leis regulamentaram as indústrias coloniais em desenvolvimento para impedir a concorrência com as indústrias britânicas, como a Lei da Lã de 1698, a Lei dos Chapéus de 1731 e a Lei do Ferro de 1750.[22][23]

As reações coloniais a essas políticas foram variadas. A Lei do Melaço de 1733, por exemplo, impôs um tributo de seis pence por galão sobre o melaço estrangeiro importado pelas colônias. A medida foi particularmente ofensiva aos colonos da Nova Inglaterra, que protestaram contra ela por considerá-la uma tributação inconstitucional sem representação no Parlamento britânico. A lei aumentou o contrabando de melaço estrangeiro, e o governo britânico deixou de tentar aplicá-la depois da década de 1740.[24]

Por outro lado, determinados comerciantes e setores locais beneficiaram-se das restrições à concorrência estrangeira. As limitações impostas aos navios construídos no exterior favoreceram muito a indústria naval colonial, sobretudo na Nova Inglaterra.[25] Alguns sustentam que o impacto econômico sobre os colonos foi reduzido,[26][27] mas o atrito político provocado pelas leis foi mais grave, pois os comerciantes diretamente afetados também eram os mais ativos politicamente.[28]

Presença militar britânica após 1754

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Durante a Guerra Franco-Indígena (1754–1763), o governo britânico mobilizou 45 mil soldados, metade regulares britânicos e metade voluntários coloniais. As colônias também contribuíram com recursos e materiais para o esforço de guerra, embora dois quintos dessas despesas tenham sido reembolsados pelo governo britânico. A Grã-Bretanha derrotou a França e adquiriu o território da Nova França situado a leste do Rio Mississippi.[29]

Para permitir que aproximadamente 1.500 oficiais politicamente bem relacionados do Exército Britânico permanecessem em serviço ativo na América, com remuneração integral, depois da guerra, o ministério Bute decidiu, no início de 1763, manter permanentemente uma guarnição de 10 mil soldados na América do Norte.[30][31] Devido à antiga resistência inglesa à existência de um exército permanente, manter esses oficiais na Grã-Bretanha em tempos de paz era uma alternativa politicamente inaceitável.[32] A justificativa apresentada para a manutenção de um exército permanente na América era a defesa contra as tropas francesas estacionadas nas Índias Ocidentais[33] e contra as populações estrangeiras dos territórios recém-adquiridos — os franceses no Canadá e os espanhóis na Flórida. Além disso, os soldados britânicos deveriam auxiliar na cobrança de direitos alfandegários e impedir que os colonos provocassem conflitos com os povos indígenas.[34]

Em vez disso, o aumento da migração britânica para além dos Montes Apalaches e a indignação indígena com as políticas do general Jeffery Amherst provocaram a Guerra de Pontiac (1763–1766).[35] Em resposta, o ministério Grenville emitiu a Proclamação Real de 1763, designando o território entre os Montes Apalaches e o Rio Mississippi como uma reserva indígena fechada à colonização. A proclamação irritou colonos, comerciantes de peles e especuladores fundiários, mas não conseguiu impedir a migração para o oeste.[36]

1764–1766: as leis do Açúcar e do Selo conduzem à resistência organizada

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Aviso sobre a Lei do Selo de 1765 em um jornal colonial.

Segundo o historiador Middlekauff, "a necessidade de dinheiro desempenhou um papel em todas as decisões importantes tomadas pelo primeiro-ministro George Grenville a respeito das colônias — e, nesse sentido, também pelos ministérios que se sucederam até 1776".[37] A dívida nacional havia crescido para 133 milhões de libras, com pagamentos anuais de 5 milhões — em um orçamento anual de 8 milhões. A manutenção permanente de tropas na América do Norte custaria outras 360 mil libras por ano. Em termos per capita, Grenville afirmou que os americanos pagavam diretamente ao império um xelim em impostos — sem contar os tributos locais —, em comparação com os 26 xelins pagos pelos ingleses.[31] As pessoas escravizadas, que constituíam quase a maioria da população em algumas colônias, não pagavam impostos e, portanto, distorciam essa comparação.

Em 9 de março de 1764, Grenville propôs a Lei do Açúcar, promulgada pelo Parlamento em abril. Ela reduziu o tributo sobre o melaço estrangeiro de seis para três pence por galão. O Tesouro acreditava que a lei arrecadaria 78 mil libras. Para assegurar a cobrança, a medida intensificou o combate ao contrabando. Os funcionários aduaneiros podiam decidir se processariam os infratores nos tribunais coloniais ou nos tribunais do vice-almirantado. Ao contrário dos tribunais coloniais, nos quais vigorava a presunção de inocência e os casos eram julgados por júris locais que frequentemente absolviam os acusados de contrabando, os tribunais do vice-almirantado operavam com uma presunção de culpa, e os casos eram decididos por juízes nomeados pela Coroa. No mesmo dia em que apresentou a Lei do Açúcar ao Parlamento, Grenville declarou que talvez fosse necessário impor direitos de selo às colônias para obter receita adicional, mas adiou a medida a fim de lhes dar tempo para propor outra forma de arrecadação.[38]

O Parlamento aprovou a Lei do Selo em março de 1765, impondo pela primeira vez impostos diretos às colônias. Todos os documentos oficiais, jornais, almanaques e panfletos deveriam portar os selos — até mesmo os baralhos. Os colonos não alegavam que os impostos fossem altos; na verdade, eram baixos.[b][39] Eles se opunham à falta de representação no Parlamento, que os impedia de participar das decisões sobre leis que os afetavam, como a tributação, violando assim a constituição inglesa não escrita. A queixa foi condensada no lema "Nenhuma tributação sem representação". Pouco depois da adoção da Lei do Selo, facções dos Filhos da Liberdade formaram-se em todas as colônias e começaram a recorrer a manifestações públicas, boicotes e ameaças de violência para tornar inaplicáveis as políticas britânicas contestadas. Em Boston, os Filhos da Liberdade queimaram os registros do tribunal do vice-almirantado e saquearam a residência do presidente do tribunal, Thomas Hutchinson. Diversas legislaturas pediram uma ação conjunta, e nove colônias enviaram delegados ao Congresso da Lei do Selo, realizado em Nova Iorque em outubro. Moderados liderados por John Dickinson redigiram uma Declaração de Direitos e Queixas, segundo a qual os colonos eram iguais a todos os demais súditos britânicos e, entre outros abusos, os impostos aprovados sem representação no Parlamento violavam seus direitos como ingleses.

O Parlamento em Westminster considerava-se a autoridade legislativa suprema de todo o império e, portanto, autorizado a promulgar qualquer legislação, inclusive cobrar qualquer imposto, sem aprovação ou sequer consulta colonial.[40] Seus integrantes sustentavam que as colônias eram juridicamente corporações britânicas subordinadas ao Parlamento.[41] O Parlamento insistia que os colonos gozavam efetivamente de uma "representação virtual", assim como a maioria dos britânicos, pois apenas uma pequena parcela da população britânica podia eleger representantes parlamentares.[42] Contudo, americanos como James Otis afirmavam que ninguém no Parlamento respondia especificamente a qualquer circunscrição colonial e que, portanto, eles não eram "virtualmente representados" por nenhum parlamentar.[43]

O governo Rockingham chegou ao poder em julho de 1765, e o Parlamento debateu se deveria revogar o imposto do selo ou enviar um exército para aplicá-lo. Benjamin Franklin compareceu perante os parlamentares para defender a revogação, explicando que as colônias haviam despendido muitos homens, dinheiro e sangue na defesa do império, e que novos impostos para custear aquelas guerras eram injustos e poderiam provocar uma rebelião. O Parlamento concordou e revogou o tributo em 21 de fevereiro de 1766, mas insistiu, por meio da Lei Declaratória de março de 1766, que conservava plenos poderes para legislar sobre as colônias "em todos os casos, quaisquer que fossem".[44][45] Ainda assim, a revogação provocou comemorações generalizadas nas colônias.

1767–1773: Atos de Townshend, Lei do Chá e escalada da violência

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Carta III de John Dickinson, da obra Letters from a Farmer in Pennsylvania, publicada no Pennsylvania Chronicle, em dezembro de 1767.

Em 1767, o Parlamento britânico aprovou os Atos de Townshend, que impuseram tributos a diversos produtos de primeira necessidade, incluindo papel, vidro e chá, e criaram um Conselho Aduaneiro em Boston para aplicar com maior rigor as normas comerciais. Os novos impostos foram promulgados com base na crença de que os americanos se opunham somente aos tributos internos, e não aos externos, como os direitos aduaneiros. John Dickinson, contudo, argumentou em seu panfleto amplamente lido Letters from a Farmer in Pennsylvania contra a constitucionalidade das leis, pois seu objetivo era obter receita, e não regulamentar o comércio.[46] Os colonos responderam aos impostos organizando novos boicotes aos produtos britânicos. Esses boicotes, porém, foram menos eficazes, pois os bens tributados pelos Atos de Townshend eram amplamente utilizados.

Em fevereiro de 1768, a assembleia da Colônia da Baía de Massachusetts enviou uma carta circular às demais colônias, instando-as a coordenar a resistência. O governador dissolveu a assembleia quando ela se recusou a retirar a carta. Em junho de 1768, eclodiu um motim em Boston após a apreensão do saveiro Liberty, pertencente a John Hancock, por suposto contrabando. Os funcionários aduaneiros foram obrigados a fugir, levando os britânicos a enviar tropas a Boston. Uma reunião municipal declarou que não se devia obediência às leis parlamentares e pediu a convocação de uma convenção. A convenção reuniu-se, mas emitiu apenas um protesto moderado antes de se dissolver. Em janeiro de 1769, o Parlamento respondeu à agitação reativando a Lei da Traição de 1543, que determinava que súditos situados fora do reino fossem julgados por traição na Inglaterra. O governador de Massachusetts recebeu instruções para reunir provas dessa traição, e a ameaça provocou indignação generalizada, embora nunca tenha sido executada.

Em 5 de março de 1770, uma grande multidão reuniu-se ao redor de um grupo de soldados britânicos em uma rua de Boston. A multidão tornou-se ameaçadora, lançando bolas de neve, pedras e detritos contra os militares. Um soldado foi golpeado e caiu.[47] Não houve ordem para atirar, mas os soldados entraram em pânico e dispararam contra a multidão. Onze pessoas foram atingidas; três civis morreram no local em decorrência dos ferimentos, e outros dois faleceram pouco depois. O episódio rapidamente ficou conhecido como Massacre de Boston. Os soldados foram julgados e absolvidos — defendidos pelo patriota americano John Adams —, mas os relatos amplamente divulgados começaram a voltar a opinião colonial contra os britânicos. Isso acelerou a deterioração da relação entre a Grã-Bretanha e a província de Massachusetts, enquanto as outras colônias demonstravam solidariedade crescente.[47]

Um novo ministério, chefiado por Lord North, chegou ao poder em 1770,[48] e o Parlamento revogou a maior parte dos tributos de Townshend, com exceção do imposto sobre o chá.[49] Isso resolveu temporariamente a crise, e o boicote aos produtos britânicos praticamente cessou; apenas os patriotas mais radicais, como Samuel Adams, continuaram a agitação.[50][51]

Em 9 de junho de 1772, os Filhos da Liberdade incendiaram o HMS Gaspee, uma escuna aduaneira britânica, na Baía de Narragansett.

Em junho de 1772, patriotas americanos, entre eles John Brown, incendiaram um navio de guerra britânico que aplicava energicamente normas comerciais impopulares, no episódio que ficou conhecido como caso Gaspee. O caso foi investigado por possível traição, mas nenhuma medida foi tomada.

Em 1773, foram publicadas cartas privadas nas quais o governador de Massachusetts, Thomas Hutchinson, afirmava que os colonos não poderiam desfrutar de todas as liberdades inglesas, e nas quais o vice-governador Andrew Oliver defendia o pagamento direto das autoridades coloniais, que até então eram remuneradas pelas autoridades locais. A medida teria reduzido a influência dos representantes coloniais sobre o governo. O conteúdo das cartas foi usado como prova de uma conspiração sistemática contra os direitos americanos e desacreditou Hutchinson perante a população; a assembleia colonial pediu sua destituição. Benjamin Franklin, diretor-geral dos correios das colônias, admitiu ter divulgado as cartas, o que levou à sua remoção do cargo.

A partir de Boston, Samuel Adams passou a criar novos Comitês de correspondência, construídos em grande parte sobre a rede clandestina dos Filhos da Liberdade, ligando patriotas em todas as treze colônias e, por fim, fornecendo a estrutura de um governo provisório. A Virgínia, a maior colônia, criou seu Comitê de Correspondência no início de 1773, do qual participaram Patrick Henry e Thomas Jefferson.[52] Cerca de sete mil a oito mil patriotas integraram esses comitês; os lealistas foram excluídos. Os comitês tornaram-se os dirigentes da resistência americana às ações britânicas e, mais tarde, determinaram em grande medida o esforço de guerra nos níveis estadual e local. Quando o Primeiro Congresso Continental decidiu boicotar os produtos britânicos, os comitês coloniais e locais assumiram a execução da medida, examinando os registros dos comerciantes e publicando os nomes daqueles que tentavam desafiar o boicote mediante a importação de mercadorias britânicas.[53]

A Festa do Chá de Boston, em 16 de dezembro de 1773, liderada por Samuel Adams e pelos Filhos da Liberdade, tornou-se um elemento central da tradição patriótica americana.

Enquanto isso, o Parlamento aprovou a Lei do Chá, reduzindo o preço do chá tributado exportado para as colônias, a fim de ajudar a Companhia Britânica das Índias Orientais a vender por menos que o chá holandês contrabandeado e não tributado. Consignatários especiais foram nomeados para comercializar o chá, contornando os comerciantes coloniais. A lei foi combatida tanto por aqueles que resistiam aos impostos quanto pelos contrabandistas que perderiam negócios.[54][55] Em todas as colônias, manifestantes advertiram os comerciantes a não trazer chá sujeito ao odiado novo tributo. Na maioria dos casos, os americanos obrigaram os consignatários a renunciar e o chá foi devolvido, mas o governador Hutchinson recusou-se a permitir que os comerciantes de Boston cedessem à pressão.

Uma reunião municipal em Boston decidiu que o chá não seria desembarcado e ignorou a ordem do governador para dispersar. Em 16 de dezembro de 1773, um grupo de homens liderado por Samuel Adams e vestido para evocar a aparência de indígenas embarcou nos navios da Companhia das Índias Orientais e lançou ao Porto de Boston chá no valor de 10 mil libras — aproximadamente 636 mil libras em valores de 2008. Décadas depois, o episódio passou a ser chamado de Festa do Chá de Boston e continua sendo uma parte importante da tradição patriótica americana.[56]

1774–1775: Leis Intoleráveis e a união no Primeiro Congresso Continental

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Ilustração de 1774 da revista The London Magazine que retrata o primeiro-ministro Lord North, autor da Lei do Porto de Boston, derramando chá de um bule rotulado "Leis Intoleráveis" pela garganta da personificação da América. Seus braços são imobilizados pelo presidente do tribunal Lord Mansfield, junto a uma rasgada "Petição de Boston" pisoteada no chão. Lord Sandwich segura seus pés e olha sob suas vestes; atrás deles, a Britânia desvia o rosto e chora, enquanto personificações da França e da Espanha observam com expressões presunçosas.

O governo britânico respondeu aprovando quatro leis que passaram a ser conhecidas como Leis Intoleráveis, agravando ainda mais a opinião colonial sobre a Inglaterra.[57] A primeira foi a Lei do Governo de Massachusetts, que alterou a carta de Massachusetts e restringiu as reuniões municipais. A segunda foi a Lei da Administração da Justiça, que determinou que os soldados britânicos processados fossem julgados na Grã-Bretanha, e não nas colônias. A terceira foi a Lei do Porto de Boston, que fechou o porto até que os britânicos fossem indenizados pelo chá perdido na Festa do Chá de Boston. A quarta foi a Lei de Aquartelamento de 1774, que permitiu aos governadores reais alojar tropas britânicas nas residências dos cidadãos sem a autorização dos proprietários.[58]

Em resposta, "a partir de agosto de 1774, sempre que um tribunal estava programado para reunir-se em alguma cidade de Massachusetts, grande número de cidadãos indignados garantia que isso não ocorresse".[59] No mês seguinte, os patriotas aprovaram as Resoluções de Suffolk e formaram um governo alternativo, conhecido como Congresso Provincial de Massachusetts, que começou a treinar milícias fora da Boston ocupada pelos britânicos.[60] Em setembro de 1774, o Primeiro Congresso Continental reuniu-se na Pensilvânia, composto por representantes de cada colônia, para servir de instrumento de deliberação e ação coletiva. Durante debates secretos, o conservador Joseph Galloway propôs a criação de um Parlamento colonial que pudesse aprovar ou rejeitar atos do Parlamento britânico, mas sua proposta foi adiada por seis votos a cinco e posteriormente retirada dos registros. O Congresso convocou um boicote a todos os produtos britânicos a partir de 1.º de dezembro de 1774; a medida foi aplicada por novos comitês locais autorizados pelo Congresso, em grande parte formados com base nos anteriores Comitês de Correspondência.[61] O Congresso também passou a coordenar a resistência patriota por meio das milícias de cada colônia, incluindo muitos veteranos que haviam adquirido experiência militar na Guerra Franco-Indígena. Pela primeira vez, os patriotas estavam armados e unidos contra o Parlamento.

Início das hostilidades militares

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O rei Jorge III declarou Massachusetts em estado de rebelião em fevereiro de 1775,[62] e a guarnição britânica recebeu ordens para apreender as armas dos rebeldes e prender seus líderes, o que resultou nas Batalhas de Lexington e Concord, em 19 de abril de 1775. Os patriotas reuniram uma milícia de 15 mil homens e cercaram Boston, ocupada por 6.500 soldados britânicos. O Segundo Congresso Continental reuniu-se na Filadélfia em 14 de junho de 1775. O Congresso estava dividido quanto ao melhor curso de ação. Autorizou a formação do Exército Continental, nomeando George Washington seu comandante-em-chefe, e elaborou a Petição do Ramo de Oliveira, com a qual tentou chegar a um acordo com o rei Jorge. O rei, contudo, emitiu em agosto uma proclamação que declarou todos os estados "em rebelião" e os membros do Congresso traidores. Enquanto isso, a Batalha de Bunker Hill, em 17 de junho de 1775, foi uma vitória britânica, mas obtida a um custo elevado: cerca de mil baixas entre uma guarnição de aproximadamente seis mil homens, em comparação com quinhentas baixas americanas em uma força muito maior.[63][64]

Como Benjamin Franklin escreveu a Joseph Priestley em outubro de 1775:

A Grã-Bretanha, ao custo de três milhões, matou 150 ianques nesta campanha, o equivalente a 20 mil libras por cabeça ... Durante o mesmo período, nasceram 60 mil crianças na América. Com esses dados, sua mente matemática calculará facilmente o tempo e a despesa necessários para matar todos nós.[65]

No inverno de 1775, os americanos invadiram o nordeste de Quebec sob o comando dos generais Benedict Arnold e Richard Montgomery.[66] O ataque fracassou; muitos americanos foram mortos, capturados ou morreram de varíola.[67]

Da rebelião à revolução

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Depois da Batalha de Bunker Hill, em junho de 1775, os patriotas controlavam Massachusetts fora dos limites urbanos de Boston, e os lealistas encontraram-se subitamente na defensiva, sem a proteção do Exército Britânico. Em cada uma das Treze Colônias, os patriotas americanos derrubaram os governos existentes, fecharam tribunais e expulsaram as autoridades coloniais britânicas. Realizaram convenções eleitas e criaram legislaturas próprias, fora de qualquer parâmetro jurídico estabelecido pelos britânicos. Novas constituições foram elaboradas em cada estado para substituir as cartas reais. Proclamaram que agora eram estados, e não mais colônias.[68]

Criação de novas constituições estaduais

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Samuel Adams aponta para a Carta de Massachusetts, que considerava uma constituição protetora dos direitos do povo, neste retrato de aproximadamente 1772, de John Singleton Copley.[69]

Em 5 de janeiro de 1776, a Nova Hampshire ratificou a primeira constituição estadual. Em maio de 1776, o Congresso votou pela supressão de todas as formas de autoridade da Coroa, que seriam substituídas por autoridades criadas localmente. Nova Jérsia, Carolina do Sul e Virgínia elaboraram suas constituições antes de 4 de julho. A Rhode Island e a Connecticut simplesmente aproveitaram suas cartas reais existentes e eliminaram todas as referências à Coroa.[70] Todos os novos estados adotaram o republicanismo, sem cargos hereditários. Em 26 de maio de 1776, John Adams escreveu da Filadélfia a James Sullivan, advertindo contra uma ampliação excessiva do direito de voto:

Tenha por certo, senhor, que é perigoso abrir uma fonte tão fecunda de controvérsia e altercação como a que se abriria ao tentar mudar as qualificações dos eleitores. Não haverá fim. Surgirão novas reivindicações. As mulheres exigirão o voto. Rapazes de doze a vinte e um anos considerarão que seus direitos não recebem atenção suficiente, e todo homem que não possua um centavo exigirá voz igual à de qualquer outro em todos os atos do Estado. Isso tende a confundir e destruir todas as distinções e a reduzir todas as classes a um único nível comum[.][71][72]

As constituições resultantes em estados como Delaware, Maryland, Massachusetts, Nova Iorque e Virgínia[c] apresentavam:

  • requisitos de propriedade para votar e exigências ainda maiores para ocupar cargos eletivos — embora Nova Iorque e Maryland tenham reduzido esses requisitos;[68]
  • legislaturas bicamerais, com a câmara alta servindo de contrapeso à câmara baixa;
  • governadores fortes, dotados de poder de veto sobre a legislatura e de ampla autoridade para nomeações;
  • poucas ou nenhuma restrição a indivíduos que acumulassem vários cargos públicos;
  • manutenção de uma religião estabelecida pelo estado.

Na Pensilvânia, em Nova Jérsia e na Nova Hampshire, as constituições resultantes continham:

  • sufrágio masculino universal, ou requisitos mínimos de propriedade para votar ou ocupar cargos — Nova Jérsia concedeu o voto a algumas viúvas proprietárias, medida revogada 25 anos depois;
  • legislaturas fortes e unicamerais;
  • governadores relativamente fracos, sem poder de veto e com pouca autoridade para nomeações;
  • proibição de que uma mesma pessoa ocupasse vários cargos públicos.

As disposições radicais da constituição da Pensilvânia duraram catorze anos. Em 1790, os conservadores assumiram o poder na legislatura estadual, convocaram uma nova convenção constitucional e reescreveram a constituição. A nova carta reduziu substancialmente o sufrágio masculino universal, concedeu ao governador poder de veto e autoridade para nomeações de patronagem e acrescentou à legislatura unicameral uma câmara alta sujeita a elevados requisitos de riqueza. Thomas Paine chamou-a de uma constituição indigna da América.[73]

Declaração de Independência

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Em março de 1776, auxiliado pela fortificação de Dorchester Heights com canhões recentemente capturados no Forte Ticonderoga, o Exército Continental, liderado por George Washington, obrigou os britânicos a evacuar Boston. Os revolucionários passaram então a controlar completamente os treze estados e estavam prontos para declarar a independência conjunta. Ainda havia muitos lealistas, mas em julho de 1776 eles já não controlavam parte alguma, e todas as autoridades reais haviam fugido.[74]

Em abril de 1776, o Congresso Provincial da Carolina do Norte aprovou as Resoluções de Halifax, autorizando expressamente seus delegados a votar pela independência.[75] Em junho, nove legislaturas estaduais apoiavam a independência da Grã-Bretanha, sendo depois seguidas por Pensilvânia, Delaware, Maryland e Nova Iorque. A legislatura da Virgínia encarregou Richard Henry Lee de propor a independência, o que ele fez em 7 de junho de 1776.

Derrubando a estátua do rei Jorge III em Nova Iorque, representação de patriotas americanos derrubando uma estátua do rei Jorge III na cidade de Nova Iorque, em 9 de julho de 1776, logo depois de o comandante-em-chefe George Washington mandar que a Declaração de Independência fosse lida em voz alta ao Exército Continental e ao público no espaço verde comum da cidade, cinco dias após sua emissão na Filadélfia.

Reunidos na Casa do Estado da Pensilvânia, na Filadélfia, mais tarde denominada Independence Hall, 56 Pais Fundadores representantes das Colônias Unidas adotaram e enviaram ao rei Jorge III a Declaração de Independência. O documento havia sido redigido em grande parte por Thomas Jefferson e foi revisto e apresentado pelo Comitê dos Cinco, encarregado de elaborá-lo. O Congresso suprimiu várias disposições do projeto do comitê e então o adotou por unanimidade em 4 de julho.[76] A Declaração incorporou direitos universais expressos pelas filosofias políticas do liberalismo e do republicanismo, rejeitou a monarquia e a aristocracia e proclamou, de modo célebre, que "todos os homens são criados iguais". O que começara como uma rebelião para exigir os direitos dos ingleses havia se transformado em uma revolução destinada a derrubar e substituir a ordem política e social da América por outra baseada em direitos universais.

"União perpétua"

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Com as novas constituições estaduais e a emissão da Declaração de Independência, cada antiga colônia passou a funcionar como um estado independente e soberano. O passo seguinte foi formar uma união para facilitar as relações internacionais e as alianças.[77][78]

Em 5 de novembro de 1777, o Congresso aprovou os Artigos da Confederação e da União Perpétua e os enviou a cada estado para ratificação. O Congresso começou imediatamente a funcionar segundo seus termos, criando uma estrutura de soberania compartilhada durante a condução da guerra revolucionária. Os Artigos foram plenamente ratificados em 1.º de março de 1781. Nesse momento, o Congresso Continental foi dissolvido, e no dia seguinte um novo governo, o Congresso dos Estados Unidos Reunidos, tomou seu lugar, presidido por Samuel Huntington.[79][80] O órgão permaneceu unicameral, e cada estado conservou um voto.

Defesa da revolução

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Retorno britânico: 1776–1777

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A frota britânica concentrada diante de Staten Island, no Porto de Nova Iorque, no verão de 1776, conforme representação publicada na Harper's Magazine em 1876.

Segundo o historiador britânico Jeremy Black, os britânicos possuíam vantagens consideráveis, entre elas um exército altamente treinado, a maior marinha do mundo e um sistema eficiente de finanças públicas capaz de custear facilmente a guerra. Contudo, compreenderam profundamente mal a extensão do apoio à posição dos patriotas americanos, interpretando a situação como um mero motim de grandes proporções. O governo britânico acreditava que poderia intimidar os americanos com o envio de uma grande força terrestre e naval:

"Convencidos de que a Revolução era obra de uns poucos malfeitores que haviam reunido uma turba armada em torno de sua causa, esperavam que os revolucionários fossem intimidados ... Então a vasta maioria dos americanos, leais, mas acuados pelas táticas terroristas ..., se levantaria, expulsaria os rebeldes e restauraria um governo leal em cada colônia."[81]

No Cerco de Boston, Washington expulsou os britânicos da cidade na primavera de 1776, e nem eles nem os lealistas controlavam áreas importantes. Os britânicos, porém, reuniam forças em sua base naval em Halifax, Nova Escócia. Retornaram em grande número em julho de 1776, desembarcaram em Nova Iorque e derrotaram frontalmente o Exército Continental de Washington em agosto, na Batalha do Brooklyn, o maior combate da guerra. Após a vitória, prestes a tomar a cidade de Nova Iorque, pediram uma reunião com representantes do Congresso para negociar o fim das hostilidades.[82][83]

Tropas hessianas cedidas aos britânicos por seus soberanos alemães.

Uma delegação formada por John Adams e Benjamin Franklin encontrou-se com o almirante britânico Richard Howe em Staten Island, no Porto de Nova Iorque, em 11 de setembro, no episódio conhecido como Conferência de Paz de Staten Island. Howe exigiu que os americanos retirassem a Declaração de Independência, ao que se recusaram, e as negociações terminaram. Em seguida, os britânicos tomaram a cidade de Nova Iorque e quase capturaram o exército de Washington. Transformaram a cidade em sua principal base política e militar de operações e conservaram o porto estratégico até novembro de 1783. Ela tornou-se destino de refugiados lealistas e um centro da rede de inteligência de Washington.[82][83]

Washington atravessando o Delaware em 25–26 de dezembro de 1776, retratado na pintura de 1851 de Emanuel Leutze.

Os britânicos também ocuparam Nova Jérsia, empurrando o Exército Continental para a Pensilvânia. Washington atravessou o rio Delaware de volta a Nova Jérsia em um ataque surpresa no fim de dezembro de 1776 e derrotou as guarnições hessianas e britânicas em Trenton e Princeton, recuperando assim o controle da maior parte de Nova Jérsia. As vitórias deram um importante estímulo aos patriotas em um momento de queda do moral e término dos períodos de alistamento, e tornaram-se episódios icônicos da guerra.

Em 1777, os britânicos enviaram do Canadá para o sul, através de Nova Iorque, a força invasora de Burgoyne, com o objetivo de isolar a Nova Inglaterra a leste, considerada a principal fonte de agitação. Diante da expectativa de um ataque britânico coordenado à capital revolucionária de facto, Filadélfia, o Congresso Continental foi obrigado a deixar temporariamente a cidade em setembro e transferir-se para Baltimore, onde continuou suas deliberações. Em vez de avançar para o norte e apoiar Burgoyne, o exército britânico em Nova Iorque dirigiu-se à Filadélfia, em um grande caso de falta de coordenação, e tomou a cidade de Washington. O exército invasor vindo do Canadá avançou lentamente demais e ficou cercado no norte do estado de Nova Iorque. Rendeu-se aos americanos depois das Batalhas de Saratoga, em outubro de 1777. Do início de outubro a 15 de novembro, um cerco manteve tropas britânicas ocupadas no Forte Mifflin, na Pensilvânia, e deu a Washington tempo para preservar o Exército Continental, conduzindo com segurança seus homens aos rigorosos acampamentos de inverno em Vale Forge, cerca de 56 quilômetros da Filadélfia.

Prisioneiros

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Em 23 de agosto de 1775, Jorge III declarou traidores da Coroa os americanos que pegassem em armas contra a autoridade real. Milhares de soldados britânicos e hessianos ficaram sob custódia americana após a rendição nas Batalhas de Saratoga. Lord Germain adotou uma posição rigorosa, mas os generais britânicos em território americano nunca realizaram julgamentos por traição e trataram os soldados americanos capturados como prisioneiros de guerra.[84] O dilema era que dezenas de milhares de lealistas se encontravam sob controle americano, e uma retaliação teria sido fácil. A estratégia britânica dependia em grande parte do emprego desses lealistas.[85] Os britânicos maltrataram os prisioneiros sob sua custódia, causando mais mortes americanas nas prisões do que todas as baixas americanas nos campos de batalha somadas.[85] Ao fim da guerra, ambos os lados libertaram os prisioneiros sobreviventes.[86]

Alianças americanas após 1778

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Conrad Alexandre Gérard de Rayneval, primeiro representante francês nos Estados Unidos e signatário dos tratados de aliança

A captura de um exército britânico em Saratoga incentivou os franceses a entrar formalmente na guerra em apoio ao Congresso, e Benjamin Franklin negociou uma aliança militar permanente no início de 1778; a França tornou-se, assim, a primeira nação estrangeira a reconhecer oficialmente a Declaração de Independência. Em 6 de fevereiro de 1778, Estados Unidos e França assinaram o Tratado de Amizade e Comércio e o Tratado de Aliança.[87] William Pitt discursou no Parlamento, instando a Grã-Bretanha a fazer a paz com os americanos e unir-se contra a França, enquanto os políticos britânicos que haviam demonstrado simpatia pelas queixas coloniais voltaram-se contra os americanos por sua aliança com a rival e inimiga da Grã-Bretanha.[88]

Espanhóis e neerlandeses tornaram-se aliados dos franceses em 1779 e 1780, respectivamente, obrigando os britânicos a travar uma guerra global sem grandes aliados e a atravessar um bloqueio combinado do Atlântico. A República Holandesa, também em guerra com a Grã-Bretanha, foi o país seguinte à França a assinar um tratado com os Estados Unidos, em 8 de outubro de 1782.[87] Em 3 de abril de 1783, o embaixador extraordinário Gustaf Philip Creutz, representante do rei Gustavo III da Suécia, e Benjamin Franklin assinaram um Tratado de Amizade e Comércio com os Estados Unidos.[87]

1778–1783: avanço britânico para o sul

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A Grã-Bretanha começou a considerar a Guerra de Independência dos Estados Unidos apenas uma frente de um conflito mais amplo[89] e decidiu retirar tropas da América para reforçar as colônias britânicas no Caribe, ameaçadas por invasões espanholas ou francesas. O comandante britânico sir Henry Clinton evacuou a Filadélfia e retornou à cidade de Nova Iorque. Washington o interceptou na Batalha de Monmouth, a última grande batalha travada no norte. Depois de um confronto inconclusivo, os britânicos retiraram-se para Nova Iorque. A guerra no norte tornou-se então um impasse, e o centro das atenções deslocou-se para o menor teatro de operações do sul.[90]

A Marinha Real Britânica bloqueou portos e manteve a cidade de Nova Iorque durante toda a guerra, além de outras cidades por períodos breves, mas não conseguiu destruir as forças de Washington. A estratégia britânica passou a concentrar-se em uma campanha nos estados do sul. Devido à falta de tropas regulares disponíveis em comparação com os americanos, os comandantes britânicos consideraram a "estratégia do sul" um plano mais viável. Acreditavam que as colônias meridionais eram fortemente lealistas, possuíam uma grande população de imigrantes britânicos recentes e concentravam muitos escravizados que poderiam fugir de seus senhores patriotas, juntar-se aos britânicos e obter a liberdade.[91]

A Batalha de Cowpens, representação do confronto de 1781 na Carolina do Sul, pintada por William Ranney em 1845

A partir do fim de dezembro de 1778, os britânicos capturaram Savannah e controlaram o litoral da Geórgia. Em 1780, lançaram uma nova invasão e tomaram Charleston. Uma vitória importante na Batalha de Camden permitiu que as forças reais controlassem pouco depois a maior parte da Geórgia e da Carolina do Sul. Os britânicos estabeleceram uma rede de fortes no interior, esperando que os lealistas se reunissem em torno da bandeira real.[92] Contudo, não apareceram lealistas em quantidade suficiente, e os britânicos tiveram de avançar para o norte, através da Carolina do Norte e da Virgínia, com um exército gravemente enfraquecido. Atrás deles, grande parte do território já conquistado mergulhou em uma caótica guerra de guerrilha, travada principalmente entre bandos lealistas e milícias americanas, anulando muitos dos ganhos anteriores.[92]

Rendição em Yorktown (1781)

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O Cerco de Yorktown de 1781 terminou com a rendição de um segundo exército britânico, assinalando a derrota efetiva da Grã-Bretanha.

O exército britânico sob Cornwallis marchou até Yorktown, Virgínia, onde esperava ser resgatado por uma frota britânica.[93] A frota chegou, mas também chegou uma frota francesa maior. Os franceses venceram a Batalha de Chesapeake, e a frota britânica retornou a Nova Iorque em busca de reforços, deixando Cornwallis encurralado. Em outubro de 1781, os britânicos entregaram o segundo exército invasor da guerra, cercado por forças francesas e continentais combinadas sob o comando de Washington.[94]

Fim da guerra

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Washington não sabia se, ou quando, os britânicos retomariam as hostilidades depois de Yorktown. Eles ainda mantinham 26 mil soldados ocupando Nova Iorque, Charleston e Savannah, acompanhados por uma poderosa frota. O exército e a marinha franceses partiram, e os americanos ficaram por conta própria em 1782–1783.[95] O tesouro americano estava vazio, e os soldados não remunerados tornavam-se cada vez mais inquietos, aproximando-se de um motim ou possível golpe de Estado. Washington dissipou a agitação entre os oficiais da Conspiração de Newburgh em 1783, e o Congresso prometeu posteriormente um bônus equivalente a cinco anos de pagamento a todos os oficiais.[96]

Os historiadores continuam debatendo se as probabilidades de vitória americana eram grandes ou pequenas. John Ferling afirma que eram tão reduzidas que a vitória foi "quase um milagre".[97] Joseph J. Ellis, por outro lado, sustenta que as probabilidades favoreciam os americanos e pergunta se houve alguma possibilidade realista de vitória britânica. Segundo ele, essa oportunidade apareceu uma única vez, no verão de 1776, quando o almirante Howe e seu irmão, o general Howe, "perderam várias oportunidades de destruir o Exército Continental ... O acaso, a sorte e até mesmo as variações do clima desempenharam papéis cruciais". Ellis considera que as decisões estratégicas e táticas dos irmãos Howe foram fatalmente falhas porque eles subestimaram os desafios representados pelos patriotas. Conclui que, depois do fracasso dos Howe, a oportunidade de uma vitória britânica "jamais voltaria".[98]

O apoio público ao conflito nunca fora forte na Grã-Bretanha, onde muitos simpatizavam com os americanos, mas então atingiu um novo mínimo.[99] O rei Jorge desejava continuar a guerra, porém seus apoiadores perderam o controle do Parlamento, e os britânicos não lançaram novas ofensivas na costa oriental da América.[90][d]

Tratado de paz de Paris

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Tratado de Paris, de Benjamin West, retrata a delegação americana prestes a assinar o Tratado de Paris de 1783: John Jay, John Adams, Benjamin Franklin, Henry Laurens e W. T. Franklin. A delegação britânica recusou-se a posar, e a pintura nunca foi concluída.

Durante as negociações em Paris, a delegação americana descobriu que a França apoiava a independência dos Estados Unidos, mas não seus ganhos territoriais, pois esperava confinar a nova nação à região a leste dos Montes Apalaches. Os americanos iniciaram negociações secretas diretamente com Londres, excluindo os franceses. O primeiro-ministro britânico, Lord Shelburne, dirigiu as negociações britânicas e viu uma oportunidade de transformar os Estados Unidos em um parceiro econômico valioso, facilitando o comércio e os investimentos.[101] Os Estados Unidos obtiveram todas as terras a leste do Rio Mississippi, incluindo o sul do Canadá abaixo dos Grandes Lagos, mas a Espanha tomou dos britânicos o controle da Flórida. A nova nação recebeu direitos de pesca diante do litoral canadense e concordou em permitir que comerciantes britânicos e lealistas recuperassem suas propriedades. Shelburne previu um comércio bilateral altamente lucrativo entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos em rápido crescimento, o que de fato ocorreu. O bloqueio foi suspenso, e os comerciantes americanos passaram a poder negociar com qualquer nação do mundo.[102]

Os britânicos abandonaram em grande parte seus aliados indígenas, que não eram parte do tratado e não o reconheceram até serem militarmente derrotados pelos Estados Unidos. Ainda assim, continuaram vendendo-lhes munições e mantiveram fortes em território americano até o Tratado de Jay, de 1795.[103]

Finanças

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Estátua de Robert Morris, em homenagem ao Pai Fundador e financista, no Parque Histórico Nacional da Independência, na Filadélfia.
Uma cédula de cinco dólares emitida pelo Segundo Congresso Continental em 1775.
Cédula de cinco dólares emitida pelo Segundo Congresso Continental em 1775.

A guerra da Grã-Bretanha contra americanos, franceses e espanhóis custou aproximadamente 100 milhões de libras. O Tesouro tomou emprestados 40% dos recursos de que necessitava.[104] A Grã-Bretanha possuía um sistema financeiro sofisticado, baseado na riqueza de milhares de proprietários de terras que apoiavam o governo, além de bancos e financistas em Londres. Os britânicos tiveram relativamente pouca dificuldade para financiar a guerra, manter fornecedores e soldados remunerados e contratar dezenas de milhares de militares alemães.[105]

Em acentuado contraste, o Congresso e os estados americanos enfrentaram dificuldades contínuas para financiar a guerra.[106] Em 1775, havia no máximo doze milhões de dólares em ouro nas colônias, quantia muito inferior à necessária até mesmo para cobrir as transações correntes, quanto mais para financiar uma grande guerra. Os britânicos agravaram muito a situação impondo um bloqueio rigoroso a todos os portos americanos, que interrompeu quase todo o comércio. Uma solução parcial foi depender do apoio voluntário dos milicianos e das doações de cidadãos patriotas.[107][108] Outra foi adiar os pagamentos efetivos, remunerar soldados e fornecedores com moeda depreciada e prometer que ela seria compensada depois da guerra. De fato, em 1783 soldados e oficiais receberam concessões de terras para cobrir os salários que haviam conquistado, mas não recebido durante o conflito.

A partir de 1776, o Congresso tentou arrecadar dinheiro mediante empréstimos de pessoas ricas, prometendo resgatar os títulos após a guerra. Eles foram resgatados em 1791 pelo valor nominal, mas o sistema arrecadou pouco, pois os americanos dispunham de pouca moeda metálica e muitos dos comerciantes mais ricos apoiavam a Coroa. Desde 1777, o Congresso solicitou repetidamente dinheiro aos estados, porém não possuía um sistema tributário que permitisse exigir os recursos, e os estados prestaram pouca ajuda. Em 1780, o Congresso requisitava quantidades específicas de milho, carne bovina, carne suína e outros produtos essenciais, em um sistema ineficiente que mal mantinha o exército vivo.[109][110]

O Congresso recorreu a quatro métodos principais para cobrir o custo da guerra, calculado em cerca de 66 milhões de dólares em espécie — ouro e prata.[111] A França forneceu secretamente aos americanos dinheiro, pólvora e munições para enfraquecer a Grã-Bretanha; os subsídios continuaram depois de sua entrada na guerra, em 1778, e o governo francês e banqueiros parisienses emprestaram grandes somas ao esforço de guerra americano. O Congresso também emitiu papel-moeda, conhecido coloquialmente como "dólares continentais", em 1775–1780 e 1780–1781. A primeira emissão alcançou 242 milhões de dólares. Esse papel-moeda deveria ser resgatado por meio dos impostos estaduais, mas seus detentores acabaram recebendo, em 1791, um centavo por dólar. Em 1780, a moeda havia se desvalorizado tanto que a expressão "não vale um continental" tornou-se sinônimo de algo sem valor.[112] A inflação acelerada prejudicou as poucas pessoas de renda fixa, mas 90% da população era formada por agricultores e não foi diretamente afetada. Os devedores beneficiaram-se ao quitar suas dívidas com papel depreciado. O maior fardo recaiu sobre os soldados do Exército Continental, cujos salários, normalmente pagos com atraso, perdiam valor a cada mês, enfraquecendo o moral e aumentando as dificuldades de suas famílias.[113]

O governo nacional não teve uma liderança forte na área financeira até 1781, quando Robert Morris foi nomeado superintendente das Finanças dos Estados Unidos.[107] Em 1782, Morris utilizou um empréstimo francês para criar o Banco da América do Norte, uma instituição privada destinada a financiar a guerra. Reduziu a lista civil, economizou recorrendo à concorrência na contratação de fornecedores, tornou mais rigorosos os procedimentos contábeis e exigiu dos estados sua parcela integral de dinheiro e suprimentos para o governo nacional.[107]

"Uma união mais perfeita"

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A assinatura da Constituição dos Estados Unidos, em 17 de setembro de 1787, no Independence Hall, na Filadélfia, retratada na pintura de 1940 de Howard Chandler Christy, Scene at the Signing of the Constitution of the United States.

A guerra terminou em 1783 e foi seguida por um período de recuperação econômica lenta, acompanhado pelo fim do mercantilismo e pela retomada e expansão do comércio mundial.[114] O governo nacional ainda funcionava sob os Artigos da Confederação e, por meio da Ordenança do Noroeste, resolveu a questão dos territórios ocidentais cedidos pelos estados ao Congresso. Colonos americanos avançaram rapidamente para essas regiões, e Vermont, Kentucky e Tennessee tornaram-se estados na década de 1790.[115]

O governo nacional, contudo, não tinha autoridade para cobrar impostos nem dinheiro para pagar as dívidas de guerra contraídas com nações europeias e bancos privados ou para remunerar os americanos que haviam recebido milhões de dólares em notas promissórias por suprimentos fornecidos durante a guerra. Nacionalistas liderados por Washington, Alexander Hamilton e outros veteranos temiam que a nova nação fosse frágil demais para resistir a uma guerra internacional ou até mesmo à repetição de revoltas internas, como a Rebelião de Shays, ocorrida em Massachusetts em 1786. Eles convenceram o Congresso da Confederação a convocar a Convenção da Filadélfia, em 1787.[116] A convenção aprovou uma nova Constituição, que criou uma república com autoridade tributária e um governo nacional muito mais forte em uma estrutura federal, incluindo um Poder Executivo efetivo em um sistema de freios e contrapesos com os poderes Judiciário e Legislativo.[117] A Constituição foi ratificada em 1788, depois de um intenso debate nos estados sobre o novo governo proposto. A nova administração do presidente George Washington tomou posse em Nova Iorque em março de 1789, e o novo Congresso bicameral reuniu-se.[118] James Madison liderou no Congresso a proposta de emendas constitucionais como garantia aos que temiam o poder federal, assegurando muitos dos direitos inalienáveis que haviam constituído uma base da revolução. Rhode Island foi o último estado a ratificar a Constituição, em 1790; as dez primeiras emendas foram ratificadas em 1791 e ficaram conhecidas como Declaração dos Direitos dos Estados Unidos.

Dívida nacional

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Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro durante a Presidência de George Washington.

Depois da guerra revolucionária, a dívida nacional dividia-se em três categorias. A primeira correspondia aos doze milhões de dólares devidos a estrangeiros, sobretudo dinheiro tomado emprestado da França. Havia consenso de que as dívidas externas deveriam ser pagas integralmente. O governo nacional devia quarenta milhões de dólares, e os governos estaduais, 25 milhões, a americanos que haviam vendido alimentos, cavalos e suprimentos às forças patriotas. Havia ainda outras obrigações, constituídas por notas promissórias emitidas durante a guerra a soldados, comerciantes e agricultores que aceitaram os pagamentos sob a premissa de que a nova nação criaria um governo capaz de quitar essas dívidas.

Os americanos tiveram dificuldades para pagar os empréstimos franceses; deixaram de pagar juros à França em 1785 e não cumpriram as prestações vencidas em 1787. Em 1790, contudo, retomaram os pagamentos regulares de suas dívidas com os franceses.[119] As despesas de guerra dos estados somaram 114 milhões de dólares, em comparação com 37 milhões gastos pelo governo central.[120] Em 1790, por recomendação do primeiro secretário do Tesouro, Alexander Hamilton, o Congresso reuniu as dívidas estaduais restantes às dívidas externa e interna em uma única dívida nacional de oitenta milhões de dólares. Todos receberam o valor nominal dos certificados de guerra, para preservar a honra nacional e estabelecer o crédito do país.[121]

As contas com o governo francês foram encerradas em 1795, quando James Swan, banqueiro americano que atuava como agente da França, ajudou a refinanciar o restante da dívida dos Estados Unidos com o país. O governo americano emitiu títulos no valor da obrigação restante e vendeu-os ao público, encaminhando a receita à França por intermédio de Swan.[122] Os Estados Unidos deixaram de dever dinheiro a governos estrangeiros, embora continuassem devendo a investidores privados no país e na Europa.[123] Isso permitiu que os jovens Estados Unidos estabelecessem bases financeiras sólidas.

Ideologia e facções

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A população dos treze estados não era homogênea em suas opiniões e atitudes políticas. Lealdades e fidelidades variavam amplamente entre regiões e comunidades, e até mesmo dentro das famílias, e às vezes mudavam durante a Revolução.

Ideologia subjacente à revolução

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O Iluminismo americano foi um precursor fundamental da Revolução Americana. Entre suas ideias centrais estavam os conceitos de direito natural, direitos naturais, consentimento dos governados, autodeterminação, igualdade perante a lei, liberalismo, republicanismo e intolerância à corrupção política. Um número crescente de colonos americanos adotou essas ideias e promoveu um ambiente intelectual que levou a uma nova percepção da identidade política e social.[124]

Liberalismo

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Única edição dos Tratados de Locke publicada na América colonial durante o século XVIII, em 1773

John Locke é frequentemente chamado de "filósofo da Revolução Americana" devido a seu trabalho sobre o contrato social e as teorias dos direitos naturais que fundamentaram a ideologia política da Revolução.[125] A obra Dois Tratados sobre o Governo, publicada por Locke em 1689, foi especialmente influente. Ele sustentava que todos os seres humanos haviam sido criados igualmente livres e que, portanto, os governos necessitavam do "consentimento dos governados". Isso contrastava e entrava em profundo conflito com o sistema britânico de poder político e hierarquia hereditários.[126] No fim do século XVIII, ainda era generalizada na América a crença em uma "igualdade pela criação" e em "direitos pela criação".[127] As ideias de Locke sobre a liberdade influenciaram o pensamento político de escritores ingleses como John Trenchard, Thomas Gordon e Benjamin Hoadly, cujas ideias políticas também exerceram forte influência sobre os patriotas americanos.[128] Sua obra inspirou ainda símbolos empregados na Revolução Americana, como a expressão "Apelo ao Céu" inscrita na Bandeira do Pinheiro, que alude ao conceito lockeano do direito de revolução.[129]

A teoria do contrato social influenciou a crença de muitos dos fundadores de que o direito do povo de derrubar seus governantes, caso estes traíssem os direitos históricos dos ingleses, constituía um dos "direitos naturais" do homem.[130][131] Ao redigir as constituições estaduais e nacional, os americanos recorreram intensamente à análise de Montesquieu sobre a sabedoria da constituição britânica "equilibrada", ou governo misto.

Republicanismo

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A interpretação americana do republicanismo foi inspirada pelo partido whig da Grã-Bretanha, que criticava abertamente a corrupção do governo britânico.[132] Os americanos adotavam cada vez mais os valores republicanos e viam a Grã-Bretanha como corrupta e hostil aos interesses americanos.[133] A ideologia dos whigs radicais, com sua defesa da liberdade e oposição ao governo tirânico, influenciou profundamente a filosofia política colonial americana.[134] Os revolucionários americanos associavam a corrupção política ao luxo ostensivo e à aristocracia hereditária.[135]

Os Pais Fundadores foram defensores convictos dos valores republicanos, especialmente Samuel Adams, Patrick Henry, John Adams, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Thomas Paine, George Washington, James Madison e Alexander Hamilton.[136] Esses valores exigiam que os homens colocassem o dever cívico acima dos desejos pessoais. A obrigação cívica e a honra determinavam que estivessem preparados e dispostos a lutar pelos direitos e pelas liberdades de seus compatriotas. Em 1776, John Adams escreveu a Mercy Otis Warren, concordando com alguns pensadores clássicos gregos e romanos: "A virtude pública não pode existir sem a privada, e a virtude pública é o único fundamento das repúblicas". Prosseguiu:

É necessário que uma paixão positiva pelo bem público, pelo interesse público, pela honra, pelo poder e pela glória esteja estabelecida na mente do povo; caso contrário, não pode haver governo republicano nem verdadeira liberdade. E essa paixão pública deve ser superior a todas as paixões privadas. Os homens devem estar preparados, orgulhar-se e sentir-se felizes em sacrificar seus prazeres, paixões e interesses particulares, e até mesmo suas amizades privadas e relações mais queridas, quando estas entrarem em conflito com os direitos da sociedade.[137]

Dissidentes protestantes e o Grande Despertamento

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As igrejas protestantes que haviam se separado da Igreja Anglicana, chamadas de "dissidentes", constituíam, nas palavras da historiadora Patricia Bonomi, a "escola da democracia".[138] Antes da Revolução, as colônias do sul e três colônias da Nova Inglaterra possuíam igrejas oficialmente estabelecidas: a congregacional na Baía de Massachusetts, em Connecticut e na Nova Hampshire, e a Igreja Anglicana em Maryland, na Virgínia, na Carolina do Norte, na Carolina do Sul e na Geórgia. As colônias de Nova Iorque, Nova Jérsia, Pensilvânia, Delaware e Rhode Island não tinham igrejas oficialmente estabelecidas.[139] As estatísticas de filiação religiosa do período são escassas e pouco confiáveis,[140] mas os poucos dados disponíveis indicam que a Igreja Anglicana não era majoritária nem mesmo nas colônias em que constituía a igreja oficial e que provavelmente não reunia sequer 30% da população na maioria das localidades — com a possível exceção da Virgínia.[139]

John Witherspoon, considerado um presbiteriano da "Nova Luz", escreveu sermões de ampla circulação que relacionavam a Revolução Americana aos ensinamentos da Bíblia. Em todas as colônias, ministros protestantes dissidentes das igrejas congregacional, batista e presbiteriana pregaram temas revolucionários, enquanto a maioria dos clérigos da Igreja Anglicana defendia a lealdade ao rei, chefe titular da igreja estatal inglesa.[141] A motivação religiosa para combater a tirania ultrapassava as divisões socioeconômicas.[138] A Declaração de Independência também se referia às "Leis da Natureza e do Deus da Natureza" como justificativa para a Revolução: seus signatários professavam sua "firme confiança na proteção da Providência divina" e apelavam "ao Juiz Supremo pela retidão de nossas intenções".[142]

O historiador Bernard Bailyn sustenta que o evangelicalismo do período desafiou as noções tradicionais de hierarquia natural ao pregar que a Bíblia ensina que todos os homens são iguais e que, portanto, o verdadeiro valor de uma pessoa reside em sua conduta moral, e não em sua classe.[143] Kidd argumenta que o desestabelecimento religioso, a crença em Deus como fonte dos direitos humanos e as convicções comuns sobre pecado, virtude e providência divina contribuíram conjuntamente para unir racionalistas e evangélicos e, assim, incentivaram grande parte dos americanos a lutar por uma soberania fora do império. Bailyn, por outro lado, nega que a religião tenha exercido papel tão decisivo.[144] Alan Heimert afirma que o antiautoritarismo da Nova Luz foi essencial para o avanço da democracia na sociedade colonial americana e preparou o terreno para o confronto com o domínio monárquico e aristocrático britânico.[145]

Classe e psicologia das facções

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Historiadores do início do século XX, como J. Franklin Jameson, examinaram a composição de classe da causa patriota em busca de provas de uma luta de classes no interior da Revolução.[146] Historiadores mais recentes abandonaram em grande parte essa interpretação e passaram a enfatizar o elevado grau de unidade ideológica.[147] Tanto os lealistas quanto os patriotas formavam um "grupo diversificado",[148][149] mas as exigências ideológicas sempre prevaleciam.

Rei Jorge III

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O rei Jorge III em um retrato de 1781.

A revolução tornou-se uma questão pessoal para o rei, alimentada por sua crescente convicção de que os americanos interpretariam a tolerância britânica como fraqueza. Ele também acreditava sinceramente que defendia a constituição britânica contra usurpadores, e não que se opunha a patriotas que lutavam por seus direitos naturais.[150] Jorge III é frequentemente acusado de tentar obstinadamente manter a Grã-Bretanha em guerra contra os revolucionários na América, apesar das opiniões de seus próprios ministros.[151] Nas palavras do historiador britânico George Otto Trevelyan, o rei estava decidido a "jamais reconhecer a independência dos americanos e a punir sua contumácia mediante o prolongamento indefinido de uma guerra que prometia ser eterna".[152] Ele desejava "manter os rebeldes atormentados, ansiosos e pobres até o dia em que, por um processo natural e inevitável, o descontentamento e a decepção se transformassem em penitência e remorso".[153] Historiadores posteriores defenderam Jorge, argumentando que, no contexto da época, nenhum rei entregaria voluntariamente um território tão vasto[154][155] e que sua conduta foi muito menos cruel que a dos monarcas europeus contemporâneos.[156] Depois da rendição de um exército britânico em Saratoga, tanto o Parlamento quanto a população britânica apoiavam em grande parte a guerra; o recrutamento permanecia elevado e, embora os adversários políticos se manifestassem, continuavam sendo uma pequena minoria.[154][157]

Diante dos primeiros reveses na América, Lord North pediu que o poder fosse transferido a Lord Chatham, que considerava mais capaz, mas Jorge recusou. Em vez disso, sugeriu que Chatham atuasse como ministro subordinado na administração de North; Chatham não aceitou e morreu ainda naquele ano.[158] Lord North era aliado da facção parlamentar dos "Amigos do Rei" e acreditava que Jorge III tinha o direito de exercer amplos poderes.[159] No início de 1778, a França, principal rival da Grã-Bretanha, assinou um tratado de aliança com os Estados Unidos, e o confronto rapidamente passou de uma "rebelião" para algo caracterizado como uma "guerra mundial".[160] A frota francesa conseguiu superar o bloqueio naval britânico no Mediterrâneo e navegou até a América do Norte.[160] O conflito passou a atingir América do Norte, Europa e Índia.[160] Estados Unidos e França foram acompanhados pela Espanha em 1779 e pela República Holandesa, enquanto a Grã-Bretanha não possuía grandes aliados, à exceção da minoria lealista na América e dos auxiliares alemães, isto é, os hessianos. Lord Gower e Lord Weymouth renunciaram ao governo. Lord North voltou a pedir autorização para renunciar, mas permaneceu no cargo por insistência de Jorge III.[161] A oposição à dispendiosa guerra crescia e, em junho de 1780, contribuiu para os distúrbios ocorridos em Londres conhecidos como Motins de Gordon.[161]

Ainda durante o Cerco de Charleston, em 1780, os lealistas podiam acreditar em sua vitória final, pois as tropas britânicas haviam derrotado as forças continentais na Batalha de Camden e na Batalha de Guilford Court House.[162] No fim de 1781, a notícia da rendição de Cornwallis no Cerco de Yorktown chegou a Londres; o apoio parlamentar a Lord North desapareceu, e ele renunciou no ano seguinte. O rei redigiu um aviso de abdicação, que nunca foi entregue,[155][163] finalmente aceitou a derrota na América do Norte e autorizou negociações de paz. Os tratados da Paz de Paris, pelos quais a Grã-Bretanha reconheceu a soberania dos Estados Unidos e devolveu a Flórida à Espanha, foram assinados em 1782 e 1783, respectivamente.[164] No início de 1783, Jorge III admitiu em particular: "A América está perdida!" Refletiu que as antigas colônias haviam se transformado, como Estados Unidos, em "rivais bem-sucedidas" da Grã-Bretanha no comércio e na pesca.[165]

Quando John Adams foi nomeado ministro americano em Londres, em 1785, Jorge já se havia resignado à nova relação entre seu país e as antigas colônias. Disse a Adams: "Fui o último a consentir com a separação; mas, tendo a separação ocorrido e se tornado inevitável, sempre disse, como digo agora, que seria o primeiro a acolher a amizade dos Estados Unidos como potência independente."[166]

Patriotas

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O lema dos Estados Unidos Novus ordo seclorum, que significa "Agora começa uma nova era", parafraseia Senso Comum, de Thomas Paine, publicado em 10 de janeiro de 1776. "Temos o poder de começar o mundo novamente", escreveu Paine.

Os que lutaram pela independência foram chamados, durante e depois da guerra, de "revolucionários", "continentais", "rebeldes", "patriotas", "whigs", "homens do Congresso" ou "americanos". Incluíam todas as classes sociais e econômicas, mas eram unânimes quanto à necessidade de defender os direitos naturais dos americanos e sustentar os princípios do republicanismo mediante a rejeição da monarquia e da aristocracia, ao mesmo tempo que enfatizavam a virtude cívica dos cidadãos. Com exceções claras, os signatários da Declaração de Independência eram predominantemente instruídos, de origem britânica e protestantes.[167][168] Os jornais eram redutos do patriotismo — embora houvesse alguns periódicos lealistas — e publicavam numerosos panfletos, anúncios, cartas patrióticas e proclamações.[169]

Segundo o historiador Robert Calhoon, entre 40% e 45% da população branca das Treze Colônias apoiava a causa patriota, entre 15% e 20% apoiava os lealistas, e o restante era neutro ou mantinha-se discreto.[170] Mark Lender conclui que pessoas comuns tornaram-se insurgentes contra os britânicos porque possuíam uma concepção de direitos que consideravam violada por eles, direitos que enfatizavam a autonomia local, o tratamento justo e o governo por consentimento. Eram extremamente sensíveis à tirania, que viam manifestada na resposta britânica à Festa do Chá de Boston. A chegada do Exército Britânico a Boston intensificou a percepção de que seus direitos haviam sido violados, provocando indignação e exigências de vingança. Acreditavam que Deus estava ao seu lado.[171]

Os patriotas consideravam a independência um meio de libertar-se da opressão britânica e, inicialmente, de reafirmar direitos iguais aos dos súditos na Grã-Bretanha. A maioria dos pequenos agricultores, artesãos e comerciantes aderiu à causa patriota para exigir maior igualdade política. Obtiveram especial sucesso na Pensilvânia, mas menos na Nova Inglaterra, onde John Adams atacou Senso Comum, de Thomas Paine, pelas "absurdas noções democráticas" que propunha.[148][149]

Thomas Paine publicou seu panfleto Senso Comum em janeiro de 1776, depois do início da Revolução. A obra foi amplamente distribuída e muitas vezes lida em voz alta nas tavernas, contribuindo significativamente para difundir simultaneamente as ideias de republicanismo e liberalismo, fortalecer o entusiasmo pela separação da Grã-Bretanha e incentivar o recrutamento para o Exército Continental.[172] Paine apresentou a Revolução como a solução para os americanos alarmados com a ameaça da tirania.[172]

Lealistas

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Patriotas aplicando piche e penas ao lealista John Malcolm, em pintura de 1774.

O consenso entre os estudiosos é que aproximadamente 15% a 20% da população branca permaneceu leal à Coroa britânica.[173] Os que apoiavam ativamente o rei eram conhecidos na época como "lealistas", "tories" ou "homens do rei". Os lealistas nunca controlaram um território sem a presença do Exército Britânico. Em geral, eram mais velhos, menos dispostos a romper antigas fidelidades e frequentemente ligados à Igreja Anglicana; entre eles havia muitos comerciantes estabelecidos com fortes relações comerciais em todo o império, além de autoridades reais como Thomas Hutchinson, de Boston.[174]

Em meados do século XX, o historiador Leonard Woods Labaree identificou oito características dos lealistas que os tornavam essencialmente conservadores e opostos aos patriotas.[175] Os lealistas tendiam a considerar moralmente errada a resistência à Coroa, ao passo que os patriotas acreditavam que a moralidade estava ao seu lado.[176][177] Eles se afastaram ainda mais quando os patriotas recorreram à violência, como o incêndio de casas e a aplicação de piche e penas. Muitos lealistas desejavam adotar uma posição centrista e resistiram à exigência patriota de declarar oposição à Coroa. Numerosos lealistas haviam mantido relações fortes e duradouras com a Grã-Bretanha, especialmente os comerciantes de cidades portuárias como Nova Iorque e Boston.[176][177] Muitos consideravam que a independência acabaria ocorrendo, mas temiam que a revolução conduzisse à anarquia, à tirania ou ao governo da multidão. Em contraste, a atitude predominante entre os patriotas era a vontade de tomar a iniciativa.[176][177] Labaree também sustentou que os lealistas eram pessimistas e não possuíam a confiança no futuro demonstrada pelos patriotas.[175]

Havia "dezenas de milhares" de lealistas negros, afro-americanos escravizados que fugiram para as linhas britânicas e apoiaram a causa da Grã-Bretanha de várias formas. Muitos morreram de doenças, mas os sobreviventes foram evacuados pelos britânicos para suas colônias remanescentes na América do Norte.[178]

A Revolução podia dividir famílias, como ocorreu com William Franklin, filho de Benjamin Franklin e governador real da Província de Nova Jérsia, que permaneceu leal à Coroa durante toda a guerra. Pai e filho nunca mais se falaram.[179] Imigrantes recentes que ainda não haviam sido plenamente americanizados também se inclinavam a apoiar o rei.[180]

Depois da guerra, a grande maioria do meio milhão de lealistas permaneceu na América e retomou a vida normal. Alguns se tornaram importantes líderes americanos, como Samuel Seabury. Aproximadamente 46 mil lealistas mudaram-se para o Canadá; outros foram para a Grã-Bretanha — sete mil —, a Flórida ou as Índias Ocidentais — nove mil. Os exilados representavam cerca de 2% da população total das colônias.[181] Quase todos os lealistas negros partiram para a Nova Escócia, a Flórida ou a Inglaterra, onde poderiam continuar livres.[182] Os lealistas que deixaram o sul em 1783 levaram consigo milhares de pessoas escravizadas durante a fuga para as Índias Ocidentais Britânicas.[181]

Uma minoria de tamanho incerto tentou permanecer neutra durante a guerra. A maioria manteve-se discreta, mas os quakers foram o grupo mais importante a defender publicamente a neutralidade, sobretudo na Pensilvânia. Eles continuaram negociando com os britânicos mesmo depois do início da guerra e foram acusados de apoiar o domínio britânico e de ser "idealizadores e autores de publicações sediciosas" críticas à causa revolucionária.[183][ref. deficiente] A maioria dos quakers permaneceu neutra, embora um número considerável tenha participado do conflito em algum grau.

Papel das mulheres

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Mercy Otis Warren publicou poemas e peças teatrais que atacavam a autoridade real e incentivavam os colonos a resistir ao domínio britânico

As mulheres contribuíram para a Revolução Americana de muitas formas e participaram dos dois lados. A política formal não as incluía, mas comportamentos domésticos comuns adquiriram significado político enquanto as mulheres patriotas enfrentavam uma guerra que permeava todos os aspectos da vida política, civil e doméstica. Participaram boicotando produtos britânicos, espionando os britânicos, acompanhando exércitos em marcha, lavando, cozinhando e costurando para os soldados, entregando mensagens secretas e, em alguns casos, até combatendo disfarçadas de homens, como Deborah Sampson. Mercy Otis Warren promovia reuniões em sua casa e atacava habilmente os lealistas em peças e obras históricas criativas.[184] Muitas mulheres também atuaram como enfermeiras e auxiliares, cuidando dos ferimentos dos soldados e comprando e vendendo produtos para eles. Algumas dessas acompanhantes de acampamento chegaram a participar de combates, como Madam John Turchin, que conduziu o regimento do marido à batalha.[185] Acima de tudo, as mulheres continuaram o trabalho agrícola em casa para alimentar suas famílias e os exércitos. Mantiveram as famílias durante a ausência dos maridos e, às vezes, depois da morte deles.[186]

As mulheres americanas foram essenciais para o sucesso do boicote aos produtos britânicos,[187] pois os artigos boicotados eram sobretudo bens domésticos, como chá e tecido. Elas precisaram voltar a tricotar e a fiar e tecer o próprio pano, habilidades que haviam caído em desuso. Em 1769, as mulheres de Boston produziram quarenta mil meadas de fio, e 180 mulheres de Middletown, Massachusetts, teceram 20 522 jardas (18 765 m) de tecido.[186] Durante a guerra, muitas reuniram alimentos, dinheiro, roupas e outros suprimentos para ajudar os soldados.[188] A lealdade de uma mulher ao marido podia transformar-se em um ato político aberto, especialmente no caso de mulheres americanas casadas com homens que permaneceram fiéis ao rei. Divórcios legais, normalmente raros, foram concedidos a mulheres patriotas cujos maridos apoiavam a Coroa.[189][190]

Outros participantes

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França e Espanha

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Luís XVI, rei da França e de Navarra.

No início de 1776, a França criou um amplo programa de auxílio aos americanos, ao qual os espanhóis acrescentaram recursos secretamente. Cada país gastou um milhão de libras tornesas na compra de munições. Uma empresa de fachada administrada por Pierre Beaumarchais ocultou suas atividades. Os patriotas americanos também obtiveram algumas munições da República Holandesa por intermédio dos portos franceses e espanhóis nas Índias Ocidentais.[191] Os gastos elevados e um sistema tributário fraco empurraram a França para a falência.[192]

Em 1777, Charles François Adrien le Paulmier, cavaleiro d'Annemours, atuando como agente secreto da França, garantiu que o general George Washington conhecesse sua missão. Acompanhou o Congresso durante os dois anos seguintes e relatou à França o que observava.[193] Em 1778, seguiu-se o Tratado de Aliança entre franceses e americanos, que resultou no envio de mais dinheiro, material e tropas francesas aos Estados Unidos.

A Espanha não reconheceu oficialmente os Estados Unidos, mas era aliada da França e declarou guerra separadamente à Grã-Bretanha em 21 de junho de 1779. Bernardo de Gálvez, general das forças espanholas na Nova Espanha fronteiriça aos americanos e governador da Luisiana, liderou uma expedição de tropas coloniais que tomou a Flórida dos britânicos e manteve aberto um corredor vital de suprimentos para os americanos.[194]

Friedrich Wilhelm von Steuben, antigo oficial do Exército Prussiano, serviu como inspetor-geral do Exército Continental durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos. A ele se atribui o ensino dos fundamentos da instrução e da disciplina militares ao Exército Continental, iniciado em Vale Forge em 1778 e considerado um ponto de virada para os americanos.

Alemães étnicos serviram nos dois lados da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Como Jorge III também era eleitor do Hanôver, muitos apoiaram a causa lealista e serviram como aliados do Reino da Grã-Bretanha, sobretudo como tropas auxiliares cedidas por estados alemães, como o Hesse-Cassel.[195]

A propaganda dos patriotas americanos tendia a retratar essas tropas como mercenárias. Até historiadores americanos repetiram essa caracterização, apesar de juristas do período colonial distinguirem auxiliares de mercenários: os auxiliares serviam a seu príncipe quando enviados para ajudar outro príncipe, enquanto os mercenários serviam individualmente a um soberano estrangeiro.[195] Segundo essa distinção, as tropas que serviram na Revolução Americana eram auxiliares.

Outros alemães vieram ajudar os revolucionários americanos, em especial Friedrich Wilhelm von Steuben, que serviu como general do Exército Continental e recebeu o crédito pela profissionalização da força, embora a maioria dos alemães em serviço já fosse formada por colonos. A Prússia natal de von Steuben aderiu à Primeira Liga da Neutralidade Armada,[196] e o rei Frederico II da Prússia foi muito estimado nos Estados Unidos por seu apoio no início da guerra. Demonstrou interesse em abrir relações comerciais com os Estados Unidos, evitando os portos ingleses, e permitiu que um agente americano comprasse armas na Prússia.[197] Frederico previu o êxito americano[198] e prometeu reconhecer os Estados Unidos e seus diplomatas assim que a França fizesse o mesmo.[199] A Prússia também interferiu nas tentativas de recrutamento da Rússia e dos estados alemães vizinhos quando estes reuniram exércitos para enviá-los às Américas, e Frederico II proibiu o alistamento para a guerra americana em território prussiano.[200] Todas as estradas prussianas foram fechadas às tropas de Anhalt-Zerbst,[201] atrasando os reforços que Howe esperava receber no inverno de 1777–1778.[202]

Contudo, quando eclodiu a Guerra da Sucessão Bávara (1778–1779), Frederico II tornou-se muito mais cauteloso em suas relações com a Grã-Bretanha. Navios dos Estados Unidos foram impedidos de entrar em portos prussianos, e Frederico recusou-se a reconhecer oficialmente o país até a assinatura do Tratado de Paris. Mesmo depois da guerra, previu que os Estados Unidos eram grandes demais para funcionar como uma república e que logo voltariam a integrar o Império Britânico com representantes no Parlamento.[203]

Povos indígenas

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Thayendanegea, líder militar e político mohawk, foi o mais proeminente dirigente indígena contrário às forças patriotas.[204]

A maioria dos povos indígenas rejeitou os apelos para permanecer neutra e apoiou a Coroa britânica. A grande maioria dos aproximadamente duzentos mil indígenas a leste do Mississippi desconfiava dos americanos e apoiava a causa britânica, na esperança de impedir a expansão contínua dos assentamentos em seus territórios.[205][206] As tribos estreitamente envolvidas no comércio tendiam a apoiar os patriotas, embora fatores políticos também fossem importantes. Algumas tentaram manter-se neutras, por não verem vantagem em participar do que consideravam uma "guerra dos homens brancos" e por temerem represálias do lado ao qual se opusessem.

A grande maioria dos indígenas não participou diretamente da guerra. As principais exceções foram guerreiros e bandos associados a quatro das tribos da Confederação Haudenosaunee, também chamada iroquesa, em Nova Iorque e na Pensilvânia, que se aliaram aos britânicos,[206] e as tribos Oneida e Tuscarora, entre os iroqueses do centro e do oeste de Nova Iorque, que apoiaram a causa americana.[207] Os britânicos possuíam outros aliados indígenas, especialmente nas regiões do sudoeste de Quebec situadas na fronteira patriota. Forneciam armas aos indígenas, que eram conduzidos por lealistas em grupos de guerra para atacar assentamentos fronteiriços das Carolinas a Nova Iorque. Esses grupos mataram muitos colonos na fronteira, sobretudo no oeste da Pensilvânia e no vale do Mohawk, em Nova Iorque.[208]

Em 1776, grupos de guerra cherokees atacaram colonos americanos ao longo de toda a fronteira meridional de Quebec, nas terras altas, através do Distrito de Washington, na Carolina do Norte — atual Tennessee —, e na região selvagem do Kentucky.[209] Os cherokees de Chickamauga, liderados por Tsiyu Gansini, também conhecido como Dragging Canoe, aliaram-se estreitamente aos britânicos e continuaram lutando por mais uma década depois da assinatura do Tratado de Paris. Realizaram ataques com cerca de duzentos guerreiros, no contexto das guerras cherokee-americanas; não conseguiam mobilizar forças suficientes para invadir as áreas dos colonos sem a ajuda de aliados, geralmente os creeks.

Joseph Brant, ou Thayendanegea, da poderosa tribo mohawk da Confederação Haudenosaunee, foi o líder indígena mais destacado contra as forças patriotas.[204] Em 1778 e 1780, conduziu trezentos guerreiros iroqueses e cem lealistas brancos em vários ataques a pequenos assentamentos fronteiriços em Nova Iorque e na Pensilvânia, matando muitos colonos e destruindo aldeias, plantações e reservas de alimentos.[210]

Em 1779, na Expedição Sullivan, o Exército Continental expulsou os indígenas hostis da região setentrional do estado de Nova Iorque, quando Washington enviou um exército sob o comando de John Sullivan, que destruiu quarenta aldeias iroquesas evacuadas no centro e no oeste do estado. A Batalha de Newtown foi decisiva, pois os patriotas possuíam uma vantagem de três para um, e pôs fim à resistência relevante; fora isso, houve poucos combates. Diante da fome e sem abrigo para o inverno, os iroqueses aliados aos britânicos fugiram para o Canadá.[211]

Na conferência de paz realizada após a guerra, os britânicos cederam terras indígenas sem consultar seus aliados que as habitavam. Transferiram aos Estados Unidos o controle de todas as terras ao sul dos Grandes Lagos, a leste do Mississippi e ao norte da Flórida. Calloway conclui:

Aldeias e plantações incendiadas, chefes assassinados, conselhos divididos e guerras civis, migrações, cidades e fortes congestionados por refugiados, perturbação econômica, ruptura de tradições antigas, perdas em batalha e por doenças e fome, traição aos inimigos — tudo isso fez da Revolução Americana um dos períodos mais sombrios da história dos indígenas americanos.[212]

Americanos negros

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Crispus Attucks, retrato de aproximadamente 1943, de Herschel Levit, representa Crispus Attucks, considerado o primeiro americano a morrer pela causa da independência durante a Revolução.

A existência da escravidão nas colônias americanas atraiu críticas dos dois lados do Atlântico, pois muitos não conseguiam conciliar a instituição com os ideais igualitários defendidos pelos líderes da Revolução. O escritor inglês Samuel Johnson perguntou "como é que ouvimos os gritos mais altos por liberdade entre os condutores dos negros?" em um texto contrário às queixas dos colonos.[213] Referindo-se a essa contradição, o escritor e abolicionista inglês Thomas Day escreveu em uma carta de 1776:

Se existe na natureza um objeto verdadeiramente ridículo, é o patriota americano que, com uma das mãos, assina resoluções de independência e, com a outra, brande um chicote sobre seus escravizados aterrorizados.[214]

Crispus Attucks, de ascendência racial mista, foi uma das cinco pessoas mortas no Massacre de Boston de 1770 e é considerado a primeira vítima americana da causa da independência. Negros livres nas colônias da Nova Inglaterra, nas colônias centrais do norte e nas colônias do sul combateram nos dois lados da guerra, mas a maioria lutou pelos patriotas. Gary Nash calcula que houve cerca de nove mil veteranos patriotas negros, incluindo integrantes do Exército e da Marinha continentais, milícias estaduais, corsários, carroceiros do exército, criados de oficiais e espiões.[215] Ray Raphael observa que milhares aderiram à causa lealista, mas "um número muito maior, tanto de livres quanto de escravizados, tentou promover seus interesses apoiando os patriotas".[216]

Soldado negro do 1.º Regimento de Rhode Island, amplamente considerado o primeiro batalhão negro da história das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Os efeitos da guerra foram mais profundos no sul. Dezenas de milhares de pessoas escravizadas fugiram para as linhas britânicas em toda a região, causando grandes perdas aos proprietários e interrompendo o cultivo e a colheita. Estima-se, por exemplo, que a Carolina do Sul tenha perdido cerca de 25 mil escravizados por fuga, migração ou morte, o equivalente a um terço de sua população escravizada.[217] Como observou a historiadora Karen Cook Bell, durante a guerra revolucionária aproximadamente um terço de todos os escravizados fugitivos eram mulheres, embora antes de 1775 quase 87% fossem homens.[218]

Durante a guerra, os comandantes britânicos tentaram enfraquecer os patriotas emitindo proclamações de liberdade para seus escravizados.[219] No documento de novembro de 1775 conhecido como Proclamação de Dunmore, o governador real da Virgínia, Lord Dunmore, recrutou homens negros para o serviço militar britânico, prometendo-lhes liberdade, proteção para suas famílias e concessões de terras. Centenas responderam e formaram o Regimento Etíope Real. Contudo, como observou o historiador James Corbett David, muitos negros se consideravam incapazes ou não estavam dispostos a responder às ofertas de liberdade:

Sob... circunstâncias desanimadoras, a vasta maioria dos escravizados foi incapaz ou não esteve disposta a arriscar-se com os britânicos. Os que decidiram não fugir — muitos nunca tiveram verdadeira escolha — talvez tenham acompanhado os acontecimentos com uma sensação crescente de confirmação, pois aqueles que partiram em busca da liberdade, embora demonstrassem coragem e engenhosidade extraordinárias, enfrentaram um caminho excepcionalmente difícil.[220]

Os colonos, principalmente os patriotas do sul, indignaram-se profundamente com a proclamação de Dunmore, que circulou por todas as Treze Colônias e ameaçava subverter a hierarquia racial americana existente; ela também exerceu papel importante no apoio meridional à independência.[221] As acusações de que os britânicos incentivavam revoltas de escravizados foram elementos destacados da propaganda patriota; Jefferson chegou a acusar Jorge III, nas 27 queixas coloniais, de ter "incitado insurreições domésticas entre nós". O historiador Simon Schama argumentou que, para os patriotas do sul, "a revolução deles foi, antes de tudo, mobilizada para proteger a escravidão".[222]

A Proclamação de Philipsburg, de 1779, ampliou a promessa de liberdade aos homens negros que se alistassem nas forças britânicas para todas as colônias em rebelião. Ao fim da guerra, as forças britânicas transportaram dez mil antigos escravizados quando evacuaram Savannah e Charles Town, cumprindo a promessa.[223] Evacuaram e reassentaram mais de três mil lealistas negros de Nova Iorque na Nova Escócia, no Alto Canadá e no Baixo Canadá. Outros viajaram com os britânicos para a Inglaterra ou foram reassentados como libertos nas Índias Ocidentais do Caribe. Os escravizados levados ao Caribe sob o controle de senhores lealistas, porém, geralmente permaneceram em cativeiro até a abolição britânica da escravidão nas colônias, entre 1833 e 1838.

Mais de 1.200 lealistas negros da Nova Escócia posteriormente se transferiram para a colônia britânica de Serra Leoa, na África, onde se tornaram dirigentes do grupo étnico krio de Freetown e do posterior governo nacional. Muitos de seus descendentes ainda vivem em Serra Leoa e em outros países africanos.[224][ref. deficiente] Apesar da turbulência do período, os afro-americanos contribuíram para a formação de uma identidade nacional americana durante a Revolução. Phillis Wheatley, poetisa afro-americana, popularizou a imagem de Colúmbia como representação da América.[225]

Efeitos da revolução

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Após a Revolução, uma política genuinamente democrática tornou-se possível nas antigas colônias americanas.[226] Os direitos do povo foram incorporados às constituições estaduais. Conceitos como liberdade, consentimento dos governados, direitos individuais, igualdade e devido processo legal, bem como a intolerância à corrupção, foram incorporados como valores centrais do republicanismo liberal. O novo governo dos Estados Unidos recebeu poderes para empreender seu próprio projeto de expansão territorial e colonialismo de povoamento. O maior desafio imposto à velha ordem europeia foi a contestação do poder político hereditário e a ideia democrática de que o governo repousa no consentimento dos governados. O exemplo da primeira revolução bem-sucedida contra um império europeu e da primeira implantação bem-sucedida de uma forma republicana de governo democraticamente eleito, sem monarquia nem autoridade política hereditária, serviu de modelo para muitos outros povos colonizados, que perceberam que também poderiam separar-se e tornar-se nações autogovernadas, com governos representativos diretamente eleitos.[227][falta página]

A derrota na guerra e a perda das Treze Colônias foram um choque para a Grã-Bretanha. A guerra revelou as limitações do Estado fiscal-militar britânico, quando o país descobriu que subitamente enfrentava inimigos poderosos sem aliados e dependia de linhas de comunicação transatlânticas longas e vulneráveis. A derrota intensificou as dissensões e agravou o antagonismo político contra os ministros do rei. O monarca chegou a redigir cartas de abdicação, embora nunca as tenha entregue.[228] No Parlamento, a principal preocupação deixou de ser o temor de um monarca excessivamente poderoso e passou a se concentrar nas questões da representação, da reforma parlamentar e da redução dos gastos governamentais. Incapazes de admitir que a derrota na guerra e a perda das colônias pudessem decorrer de outra causa que não uma ampla corrupção institucional, os reformadores procuraram erradicá-la, resultando em uma crise entre 1776 e 1783. A crise terminou depois de 1784, quando a confiança na constituição britânica foi restaurada durante o governo do primeiro-ministro William Pitt.[229][230][e]

Interpretações

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John Adams concluiu, em 1818:

A Revolução foi realizada antes que a guerra começasse. A Revolução estava nas mentes e nos corações do povo .... Essa mudança radical nos princípios, nas opiniões, nos sentimentos e nas afeições do povo foi a verdadeira Revolução Americana.[232]

A Revolução Americana encerrou uma era de monarquia e inaugurou uma nova era de liberdade. Como resultado da crescente onda iniciada pela Revolução, atualmente há mais pessoas vivendo em liberdade no mundo do que em qualquer outro momento, tanto em números absolutos quanto como proporção da população mundial.[233][234][235][236] As interpretações variam quanto aos efeitos da Revolução. Historiadores como Bernard Bailyn, Gordon Wood e Edmund Morgan consideram-na um acontecimento singular e radical, que produziu mudanças profundas e exerceu grande influência nos assuntos mundiais, como a crescente adesão aos princípios do Iluminismo. Esses princípios foram demonstrados por uma liderança e um governo que defendiam a proteção dos direitos naturais e um sistema de leis escolhido pelo povo.[237] John Murrin, por outro lado, sustenta que a definição de "o povo" naquela época se restringia principalmente aos homens livres que preenchiam requisitos de propriedade.[238][239]

Gordon Wood afirma:

A Revolução Americana foi parte integrante das mudanças que ocorreram na sociedade, na política e na cultura americanas .... Essas mudanças foram radicais e extensas .... A Revolução não apenas transformou radicalmente as relações pessoais e sociais das pessoas, incluindo a posição das mulheres, como também destruiu a aristocracia tal como ela havia sido compreendida no mundo ocidental por pelo menos dois milênios.[240]

Edmund Morgan argumentou que, em termos dos efeitos de longo prazo sobre a sociedade e os valores americanos:

A Revolução de fato revolucionou as relações sociais. Ela realmente eliminou a deferência, o patronato e as divisões sociais que durante séculos haviam determinado a maneira como as pessoas se viam umas às outras e que ainda determinam essa percepção em grande parte do mundo. Ela realmente concedeu às pessoas comuns um orgulho e um poder — para não dizer uma arrogância — que continuaram a chocar visitantes de terras menos favorecidas. Pode ter deixado de pé uma série de desigualdades que nos afligem desde então. Mas gerou a visão igualitária da sociedade humana que torna essas desigualdades perturbadoras e faz com que nosso mundo seja tão diferente daquele no qual os revolucionários haviam crescido.[241]

Leopold von Ranke, destacado historiador alemão, afirmou em 1848 que o republicanismo revolucionário americano desempenhou um papel crucial no desenvolvimento do liberalismo europeu:

Ao abandonarem o constitucionalismo inglês e criarem uma nova república baseada nos direitos do indivíduo, os norte-americanos introduziram uma nova força no mundo. As ideias se difundem mais rapidamente quando encontram expressão concreta adequada. Assim, o republicanismo entrou em nosso mundo romano-germânico... Até então, prevalecera na Europa a convicção de que a monarquia servia melhor aos interesses da nação. Agora se difundia a ideia de que a nação deveria governar a si mesma. Mas somente depois que um Estado foi efetivamente formado com base na teoria da representação tornou-se claro todo o significado dessa ideia. Todos os movimentos revolucionários posteriores têm esse mesmo objetivo... Isso representou a inversão completa de um princípio. Até então, um rei que governava pela graça de Deus era o centro em torno do qual tudo girava. Agora surgia a ideia de que o poder deveria vir de baixo... Esses dois princípios são como dois polos opostos, e é o conflito entre eles que determina o curso do mundo moderno. Na Europa, esse conflito ainda não havia assumido forma concreta; com a Revolução Francesa, assumiu.[242]

Inspiração para outros movimentos de independência e revoluções

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A Revolução Americana foi a primeira da onda original das Revoluções Atlânticas, uma onda revolucionária dos séculos XVIII e XIX no Mundo atlântico.

O primeiro disparo da Revolução Americana, nas batalhas de Lexington e Concord, é conhecido como o "tiro ouvido ao redor do mundo". A vitória na Guerra de Independência não apenas estabeleceu os Estados Unidos como a primeira nação fundada no consentimento dos governados, na igualdade perante a lei e em uma república constitucional moderna, como também marcou a transição de uma era de monarquia para uma nova era de liberdade ao inspirar movimentos semelhantes em todo o mundo.[243] A Revolução Americana foi a primeira das Revoluções Atlânticas, seguida, sobretudo, pela Revolução Francesa, pela Revolução Haitiana e pelas guerras de independência da América Latina. Seus efeitos contribuíram para a rebelião na Irlanda, para movimentos na República das Duas Nações e nos Países Baixos.[244][245][243]

A Constituição dos Estados Unidos, redigida pouco depois da independência, continua sendo a constituição escrita mais antiga do mundo e foi imitada por outros países, em alguns casos literalmente.[246] Alguns historiadores e estudiosos argumentam que a onda subsequente de movimentos de independência e revolucionários contribuiu para a expansão contínua do governo democrático; 144 países, que representam dois terços da população mundial, são democracias plenas ou parciais de alguma forma.[247][235][248][249][236][233]

A Revolução exerceu forte influência imediata na Grã-Bretanha, na Irlanda, nos Países Baixos e na França. Muitos whigs britânicos e irlandeses no Parlamento manifestaram apoio entusiástico à causa americana. Na Irlanda, a minoria protestante que controlava o país exigiu autogoverno. Sob a liderança de Henry Grattan, o Partido Patriota Irlandês obrigou o governo a revogar as proibições mercantilistas ao comércio com outras colônias britânicas. O rei e seu gabinete em Londres não podiam correr o risco de outra rebelião e, por isso, fizeram uma série de concessões à facção patriota em Dublin. Unidades de voluntários armados da Ascendência Protestante foram formadas, ostensivamente para proteger o país de uma invasão francesa. Assim como havia ocorrido na América colonial, também na Irlanda o rei já não detinha o monopólio da força letal. Em 1798, os irlandeses estavam prontos para uma insurreição republicana.[250][243][251]

Para muitos europeus, como o marquês de La Fayette, que posteriormente atuaram durante a era da Revolução Francesa, o exemplo americano, juntamente com a Revolta Neerlandesa, no fim do século XVI, e a Guerra Civil Inglesa, no século XVII, figurava entre os exemplos de derrubada de um antigo regime. A Declaração da Independência dos Estados Unidos influenciou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão francesa de 1789.[252][253] O espírito da Declaração da Independência levou à adoção de leis que aboliram a escravidão em todos os estados do Norte e no Território do Noroeste, sendo Nova Jérsia o último, em 1804. Estados como Nova Jérsia e Nova Iorque adotaram a emancipação gradual, que manteve algumas pessoas escravizadas por mais de duas décadas.[254][243][255]

Situação dos afro-americanos

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Memorial em Lexington, Massachusetts, dedicado a Prince Estabrook, que foi ferido nas Batalhas de Lexington e Concord e se tornou a primeira vítima militar negra da Guerra de Independência dos Estados Unidos.
Selo postal criado na época do bicentenário em homenagem a Salem Poor, um afro-americano escravizado que comprou sua liberdade, tornou-se soldado e ganhou fama como herói de guerra na Batalha de Bunker Hill.[256]

Durante a Revolução, a contradição entre os ideais de liberdade professados pelos patriotas e a instituição da escravidão fez com que esta última fosse submetida a um escrutínio crescente.[257]:235[258]:105–106[259]:186 Já em 1764, o líder patriota de Boston James Otis Jr. declarou que todos os homens, "brancos ou negros", nasciam livres "pela lei da natureza".[257]:237 Os apelos contra a escravidão tornaram-se mais frequentes no início da década de 1770. Em 1773, Benjamin Rush, futuro signatário da Declaração da Independência, exortou os "defensores da liberdade americana" a se oporem à escravidão.[257]:239 A escravidão tornou-se uma questão que precisava ser enfrentada. Como afirmou o historiador Christopher L. Brown, ela "nunca estivera seriamente na agenda antes", mas a Revolução "obrigou-a a tornar-se, dali em diante, uma questão pública".[260][261]

No fim da década de 1760 e no início da década de 1770, várias colônias, entre elas Massachusetts e Virgínia, tentaram restringir o tráfico de escravizados, mas foram impedidas de fazê-lo por governadores nomeados pela Coroa.[257]:245 Em 1774, como parte de um movimento mais amplo de não importação dirigido contra a Grã-Bretanha, o Congresso Continental pediu a todas as colônias que proibissem a importação de pessoas escravizadas, e elas aprovaram leis nesse sentido.[257]:245

Nas duas primeiras décadas após a Revolução Americana, legislaturas estaduais e indivíduos tomaram medidas para libertar pessoas escravizadas, em parte com base nos ideais revolucionários. Os estados do Norte aprovaram novas constituições que continham disposições sobre direitos iguais ou aboliam expressamente a escravidão; alguns estados, como Nova Iorque e Nova Jérsia, onde a escravidão era mais difundida, aprovaram leis até o fim do século XVIII para aboli-la de maneira gradual. Em 1804, todos os estados do Norte haviam aprovado leis que proibiam a escravidão, imediatamente ou ao longo do tempo.[262]

Nenhum estado do Sul aboliu a escravidão. Contudo, os escravizadores podiam conceder liberdade às pessoas que mantinham escravizadas. Muitos proprietários que libertaram seus escravizados citaram os ideais revolucionários em seus documentos; outros os libertaram como recompensa por serviços prestados. Os registros também sugerem que alguns escravizadores libertaram seus próprios filhos mestiços, nascidos de mães escravizadas. Como resultado dessas ações, a proporção de negros livres na população negra do Alto Sul aumentou de menos de 1% para quase 10% entre 1790 e 1810.[f] Ainda assim, a escravidão continuou no Sul, onde foi protegida como uma "instituição peculiar", preparando o terreno para o futuro conflito entre o Norte e o Sul em torno da questão.[259]:186–187

Milhares de negros livres dos estados do Norte combateram nas milícias estaduais e no Exército Continental. No Sul, ambos os lados ofereceram liberdade aos escravizados que prestassem serviço militar. Aproximadamente vinte mil pessoas escravizadas combateram na Revolução Americana.[273]

Situação das mulheres americanas

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Embora as mulheres estivessem entrando em um período no qual passavam a adquirir maior identidade dentro da sociedade, ainda eram amplamente consideradas subordinadas aos homens, pois seu papel continuava sendo o de boa esposa e mãe. Uma mulher que se vestisse de modo adequado à função de boa esposa e mãe e que se enquadrasse no papel social esperado simbolizava não apenas posição social, mas também uma família dedicada à república. À medida que continuavam a cultivar parcerias sociais e políticas, o papel das mulheres na viabilização do sucesso da Revolução ressaltou a transformação de sua posição na sociedade, levando à reconstrução pós-revolucionária da ideologia de gênero.

Além disso, os ideais democráticos da Revolução inspiraram mudanças nos papéis das mulheres.[274] Mulheres patriotas casadas com lealistas que deixaram o estado podiam obter o divórcio e assumir o controle dos bens do ex-marido.[275] Abigail Adams expressou ao marido, o presidente, o desejo das mulheres de ocupar um lugar na nova república:

Desejo que se lembre das senhoras e seja mais generoso e favorável a elas do que seus antepassados. Não coloque nas mãos dos maridos um poder tão ilimitado.[276]

À medida que cresceram os debates sobre os direitos do homem depois da Guerra de Independência, as mulheres também começaram a defender seus próprios direitos. Mary Wollstonecraft foi uma pioneira na discussão dos direitos das mulheres e estimulou pessoas como Abigail Adams a manifestarem o desejo de ocupar um espaço maior na sociedade. Escritora, filósofa e defensora inglesa dos direitos das mulheres, Wollstonecraft publicou Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792), obra que contestava a ideia de que os direitos deveriam ser concedidos apenas aos homens. Foi uma das primeiras grandes defensoras e figuras fundamentais dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero em uma época na qual elas eram consideradas inferiores aos homens. Wollstonecraft concentrou-se na igualdade educacional e nas oportunidades sociais para as mulheres, acreditando que, se recebessem a mesma educação que os homens, adquiririam autonomia sobre a própria vida e poderiam contribuir melhor para a sociedade. Suas ideias ampliaram o debate ao apresentar as mulheres como titulares de direitos ao lado dos homens. Inspiradas pelo feminismo radical de sua obra, mulheres da jovem república modificariam suas concepções sobre casamento, educação, participação na vida pública e autonomia. Isso lançou as bases para o posterior movimento pelo sufrágio feminino, para a ampliação das oportunidades educacionais, para os direitos de propriedade e para outras conquistas.

Contudo, uma hierarquia de gênero continuou a restringir os direitos das mulheres depois da Revolução. Na jovem república, elas não podiam votar, ocupar cargos políticos nem receber salários justos. Também tinham poucas oportunidades de acesso ao ensino superior e a determinadas profissões, bem como não possuíam o direito de deter bens independentemente dos maridos. Além disso, dispunham de poucos poderes jurídicos em questões como divórcio, direitos de propriedade e guarda dos filhos. Um conceito jurídico central que reforçava essas restrições era a coverture, doutrina que limitava a vida das mulheres em todos os aspectos ao incorporar a identidade jurídica da esposa à do marido. O início do período nacional dos Estados Unidos continuaria a enfrentar as contradições em torno dos direitos e da igualdade.

Emigração dos lealistas

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Recepção dos lealistas americanos pela Grã-Bretanha no ano de 1783, pintura do artista americano Benjamin West.

Dezenas de milhares de lealistas deixaram os Estados Unidos após a guerra; Philip Ranlet estima vinte mil, enquanto Maya Jasanoff calcula que o número possa ter chegado a setenta mil.[277] Alguns emigraram para a Grã-Bretanha, mas a grande maioria recebeu terras e subsídios para se reassentar nas colônias britânicas da América do Norte, especialmente na Província de Quebec — concentrando-se nos Cantões do Leste —, na Ilha do Príncipe Eduardo e na Nova Escócia.[278] A Grã-Bretanha criou as colônias do Alto Canadá, atual Ontário, e de Nova Brunswick expressamente em benefício deles, e a Coroa concedeu terras aos lealistas como compensação pelas perdas sofridas nos Estados Unidos. Ainda assim, aproximadamente 85% dos lealistas permaneceram no país como cidadãos americanos, e alguns dos exilados posteriormente retornaram.[279] Patrick Henry comentou a possibilidade de permitir o retorno dos lealistas: "Devemos nós, que colocamos o orgulhoso leão britânico a nossos pés, temer seus filhotes?" Sua atuação ajudou a assegurar o retorno dos lealistas ao território americano.[280]

Comemorações

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A Revolução Americana ocupa um lugar central na memória dos Estados Unidos[281] como a narrativa da fundação da nação. É ensinada nas escolas, celebrada por dois feriados nacionais — o aniversário de Washington, em fevereiro, e o Dia da Independência, em julho — e lembrada em inúmeros monumentos. A propriedade de George Washington em Mount Vernon foi um dos primeiros destinos nacionais de peregrinação turística e, na década de 1850, recebia dez mil visitantes por ano.[282]

A Revolução tornou-se objeto de disputa na década de 1850, nos debates que antecederam a Guerra Civil Americana (1861–1865), quando representantes tanto do Norte dos Estados Unidos quanto do Sul dos Estados Unidos afirmaram que sua região era a verdadeira guardiã do legado de 1776.[283] O Bicentenário dos Estados Unidos, em 1976, ocorreu um ano após a retirada americana da Guerra do Vietnã, e os oradores ressaltaram os temas da renovação e do renascimento com base na restauração dos valores tradicionais.[284]

Atualmente, mais de cem campos de batalha e locais históricos da Revolução Americana são protegidos e mantidos pelo governo. Somente o Serviço Nacional de Parques administra e conserva mais de cinquenta parques de campos de batalha e muitos outros locais relacionados à Revolução, como o Independence Hall.[285] A organização privada American Battlefield Trust utiliza subsídios governamentais e outros recursos para preservar quase setecentos acres de campos de batalha em seis estados; e o ambicioso projeto privado de recriação, restauração, preservação e interpretação de mais de trezentos acres da Williamsburg colonial anterior a 1790 foi criado na primeira metade do século XX para visitação pública.[286]

Notas e referências

Notas

  1. em inglês: American Revolution
  2. Lord North afirmou que os ingleses pagavam em média 25 xelins por ano em impostos, ao passo que os americanos pagavam apenas seis pence.[39]
  3. A Constituição de Massachusetts continua em vigor no século XXI, ininterruptamente desde sua ratificação em 15 de junho de 1780.
  4. Uma última batalha naval foi travada em 10 de março de 1783 pelo capitão John Barry e pela tripulação do USS Alliance, que derrotaram três navios de guerra britânicos liderados pelo HMS Sybille.[100]
  5. Alguns historiadores sugerem que a perda das colônias americanas permitiu à Grã-Bretanha enfrentar a Revolução Francesa com maior unidade e melhor organização do que teria sido possível de outra forma.[229] A Grã-Bretanha voltou-se para a Ásia, o Pacífico e, mais tarde, a África, e as explorações subsequentes conduziram à ascensão do Segundo Império Britânico.[231]
  6. Atribuído a diversas fontes:[263][264][265][266][267][268][269][270][271][272]

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