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Sarah Kubitschek

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Sarah Kubitschek
Sarah Kubitschek em retrato preservado pelo Arquivo Nacional.
22.ª Primeira-dama do Brasil
Período31 de janeiro de 1956
a 31 de janeiro de 1961
PresidenteJuscelino Kubitschek
Antecessor(a)Beatriz Ramos
Sucessor(a)Eloá Quadros
Primeira-dama de Minas Gerais
Período31 de janeiro de 1951
a 31 de março de 1955
GovernadorJuscelino Kubitschek
Antecessor(a)Déa Campos
Sucessor(a)Lia Salgado
Primeira-dama de Belo Horizonte
Período23 de outubro de 1940
a 30 de outubro de 1945
PrefeitoJuscelino Kubitschek
Antecessor(a)Clélia de Araújo
Sucessor(a)Maria José Tavares
Dados pessoais
Nome completoSarah Luiza Lemos Kubitschek de Oliveira
Nascimento5 de outubro de 1908
Belo Horizonte, Minas Gerais
Morte4 de fevereiro de 1996 (87 anos)
Brasília, Distrito Federal
Nacionalidadebrasileira
ProgenitoresMãe: Maria Luiza Negrão
Pai: Jaime Gomes de Sousa Lemos
CônjugeJuscelino Kubitschek (c. 1931; v. 1976)
Filhos(as)Maria Estela (n. 1942; adotada)
Márcia (n. 1943)

Sarah Luiza Lemos Kubitschek de Oliveira (Belo Horizonte, 5 de outubro de 1908Brasília, 4 de fevereiro de 1996) foi uma organizadora de assistência social e filantropa brasileira. Como esposa de Juscelino Kubitschek, o 21.º presidente do Brasil, exerceu o papel de primeira-dama do país entre 1956 e 1961.[1] Atuou na condição de primeira-dama de Belo Horizonte, entre 1940 e 1945, e de Minas Gerais, entre 1951 e 1955.

Sua principal esfera de atuação pública foi a assistência social. Durante o governo de Juscelino em Minas Gerais, organizou um grupo de voluntárias que se reunia inicialmente na garagem do Palácio da Liberdade. A experiência deu origem às Pioneiras Sociais, entidade dedicada à assistência materno-infantil, à educação, à saúde preventiva e à reabilitação física.[2][3]

Em 1956, já como primeira-dama do país, Sarah formalizou a sociedade civil Pioneiras Sociais, declarada de utilidade pública pelo governo federal. Em 1960, a organização foi juridicamente transformada em fundação. Entre suas iniciativas estiveram hospitais volantes, campanhas de vacinação e exames, escolas, lactários, o Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos, especializado na prevenção do câncer feminino, e o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek, origem histórica da atual Rede Sarah.[4][5]

A historiografia recente tem interpretado sua trajetória para além da função protocolar de esposa do presidente. Embora sua atuação permanecesse vinculada a valores tradicionalmente atribuídos às mulheres — como maternidade, cuidado e caridade —, Sarah utilizou esses espaços para construir projeção própria, mobilizar recursos, dirigir instituições e participar da vida política sem ocupar cargo eletivo. Após a morte de Juscelino, em 1976, também assumiu papel central na preservação de sua memória, dirigindo a campanha que resultou na construção do Memorial JK.[6]

Primeiros anos e família

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Sarah nasceu em Belo Horizonte, então uma cidade ainda relativamente nova e em processo de consolidação como capital mineira. Era filha de Jaime Gomes de Sousa Lemos e de Luiza Gomes de Lemos, nascida Negrão. Seu pai exerceu mandatos como deputado federal e integrava uma família com ampla presença na política de Minas Gerais. Pelo lado materno, Sarah era neta do comendador José Duarte da Costa Negrão, proprietário rural e integrante da elite econômica do estado.[7]

A família Gomes de Lemos mantinha vínculos com lideranças políticas, proprietários rurais e integrantes da administração pública mineira. Essa origem colocou Sarah em contato, desde jovem, com redes de sociabilidade que posteriormente seriam importantes tanto para a carreira de Juscelino quanto para a mobilização de mulheres e doadores em favor das obras assistenciais que ela dirigiria.[7]

A infância, a escolarização e a juventude de Sarah são pouco documentadas pela historiografia. Grande parte das narrativas biográficas tradicionais concentra-se no início de seu relacionamento com Juscelino e em sua posterior participação na vida pública, havendo poucas fontes independentes a respeito de sua formação anterior ao casamento.[8]

Casamento e vida familiar

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Sarah casou-se com Juscelino Kubitschek no Rio de Janeiro em 30 de dezembro de 1931. Naquele período, Juscelino havia concluído sua formação médica, realizado estudos de especialização na Europa e ingressado no corpo médico da Força Pública de Minas Gerais. O casamento também o aproximou de uma tradicional rede política e social mineira.[9][8]

O casal teve uma filha biológica, Márcia Kubitschek, nascida em 22 de outubro de 1943. Em 1947, Sarah e Juscelino adotaram Maria Estela Kubitschek, que passou a ser criada como integrante da família.[8] As duas filhas acompanhariam diferentes momentos da carreira política do pai. Márcia tornou-se posteriormente deputada federal e vice-governadora do Distrito Federal, enquanto Maria Estela se dedicou à preservação da memória familiar e do legado de Juscelino.[10]

A ascensão política de Juscelino fez com que Sarah passasse progressivamente da vida privada para funções públicas não oficiais. Quando ele foi nomeado prefeito de Belo Horizonte, em 1940, Sarah tornou-se primeira-dama municipal. Embora as fontes disponíveis registrem predominantemente atividades protocolares nessa fase, o período inseriu-a nas redes políticas, empresariais e culturais que gravitavam em torno da prefeitura e das obras de modernização da capital mineira.[9]

Juscelino deixou a prefeitura após a deposição de Getúlio Vargas, em outubro de 1945. Nos anos seguintes, foi deputado federal e, em 1950, elegeu-se governador de Minas Gerais. Sua posse ocorreu em 31 de janeiro de 1951, inaugurando o período em que a atuação assistencial de Sarah adquiriu maior organização e projeção pública.[9]

Atuação pública em Minas Gerais

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Como primeira-dama de Minas Gerais, Sarah assumiu a presidência da seção estadual da Legião Brasileira de Assistência e reuniu mulheres da elite mineira para desenvolver atividades voluntárias. O grupo, inicialmente chamado de Voluntárias Sociais, reunia-se na garagem do Palácio da Liberdade e arrecadava roupas, alimentos, medicamentos, material escolar, cadeiras de rodas e outros equipamentos.[2][11]

A atuação concentrava-se sobretudo em crianças, gestantes e mães pobres. As voluntárias preparavam merenda escolar, distribuíam enxovais e roupas, apoiavam creches e escolas e atendiam pessoas com deficiência. Núcleos semelhantes foram formados em outras cidades de Minas Gerais, ampliando a experiência originalmente organizada em Belo Horizonte.[3]

Esse modelo combinava recursos públicos, doações privadas e trabalho voluntário feminino. A participação de mulheres das camadas mais abastadas em obras de caridade era uma prática já consolidada no Brasil, mas Sarah imprimiu à iniciativa uma organização permanente e associou-a ao discurso de modernização administrativa do governo estadual.[12]

Durante a campanha presidencial de 1955, Sarah participou da mobilização de comitês femininos favoráveis à chapa formada por Juscelino Kubitschek e João Goulart, conhecida como campanha “Pró-J-J”. Sua participação não se restringiu às aparições ao lado do marido: ela promoveu reuniões, aproximou grupos femininos da candidatura e utilizou as redes construídas durante o governo de Minas Gerais.[2]

A presença de Sarah na campanha evidencia uma dimensão política de sua atuação assistencial. As obras sociais contribuíam para a formação de uma imagem de cuidado e proximidade com a população, mas também criavam relações entre a primeira-dama, lideranças locais, voluntárias, doadores e beneficiários. Essas redes se transformaram em capital social e político para a família Kubitschek.[2]

Primeira-dama do Brasil

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Sarah tornou-se primeira-dama do Brasil com a posse de Juscelino Kubitschek em 31 de janeiro de 1956. O mandato presidencial foi marcado pelo Plano de Metas, pela industrialização acelerada e pela construção de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960.[9]

Ao contrário de primeiras-damas anteriores que haviam presidido nacionalmente a Legião Brasileira de Assistência, Sarah preferiu concentrar sua atuação numa organização própria, baseada na experiência desenvolvida em Minas Gerais. Essa decisão lhe permitiu estabelecer objetivos, escolher colaboradores e construir uma identidade institucional vinculada diretamente ao nome das Pioneiras Sociais.[2]

Pioneiras Sociais

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Em março de 1956, o movimento foi formalizado como entidade assistencial. Em 29 de agosto daquele ano, o Decreto n.º 39.865 declarou de utilidade pública a sociedade civil Pioneiras Sociais, então sediada no Distrito Federal, que correspondia à cidade do Rio de Janeiro.[4]

A organização tinha como finalidade prestar assistência médica, educacional e social à população de baixa renda. Suas atividades incluíam hospitais volantes, ambulatórios, escolas, creches, lactários, distribuição de alimentos e roupas, cursos de formação doméstica, recreação infantil, assistência a pessoas com deficiência e campanhas de saúde preventiva.[11][3]

A entidade funcionava mediante uma combinação de doações privadas, festas beneficentes, contribuições empresariais e recursos públicos. Sarah ocupava a presidência e utilizava sua posição social para atrair médicos, empresários, artistas, integrantes do funcionalismo e mulheres voluntárias. A presença da primeira-dama facilitava o acesso da instituição a autoridades e financiadores, ao mesmo tempo que conferia grande visibilidade às campanhas.[12]

Em 22 de março de 1960, a Lei n.º 3.736 instituiu a Fundação das Pioneiras Sociais, transformando a experiência assistencial numa fundação mantida com receitas próprias, contribuições e dotações públicas. A lei estabeleceu como objetivos a assistência médico-social, a educação sanitária, a formação de pessoal e a realização de pesquisas relacionadas à saúde e à reabilitação.[5]

Os estatutos da Fundação foram aprovados pelo Decreto n.º 48.543, de 19 de julho de 1960. A transformação jurídica criou uma estrutura mais permanente, destinada a sobreviver ao término do governo Kubitschek e a incorporar unidades médicas e educacionais criadas durante o período presidencial.[13]

Hospitais volantes e interiorização da assistência

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Uma das iniciativas mais divulgadas das Pioneiras Sociais foram os chamados hospitais volantes. O primeiro deles foi inaugurado em outubro de 1956. As unidades eram instaladas em ônibus adaptados e transportavam profissionais, medicamentos e equipamentos para a realização de consultas e exames em localidades com acesso limitado aos serviços de saúde.[2]

As equipes incluíam médicos, enfermeiras e auxiliares. Além do atendimento clínico, eram oferecidas orientações sobre higiene, alimentação, vacinação e prevenção de doenças. Quando necessário, os pacientes eram encaminhados a instituições hospitalares ou recebiam medicamentos distribuídos pelas Pioneiras.[11]

Em 1958, a instituição promoveu a campanha Saúde sobre Rodas, ampliando o emprego das unidades móveis. O projeto procurava alcançar bairros periféricos, cidades do interior e regiões afetadas por pobreza, secas ou deficiência de infraestrutura médica. Segundo a documentação histórica da Fundação Oswaldo Cruz e do Instituto Nacional de Câncer, as Pioneiras chegaram a desenvolver ações em dez estados.[3][11]

Os hospitais volantes também funcionavam como instrumento de divulgação. As unidades levavam o nome das Pioneiras Sociais e eram frequentemente apresentadas em cerimônias públicas, reportagens e viagens presidenciais. Para a historiografia, essa visibilidade aproximava as políticas assistenciais do projeto desenvolvimentista do governo, que associava mobilidade, técnica e expansão territorial à ideia de modernização nacional.[2]

Saúde da mulher

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A prevenção do câncer feminino tornou-se uma das principais áreas de atuação da organização. A mãe de Sarah, Luiza Gomes de Lemos, havia morrido em consequência de um câncer ginecológico. Quando a família cogitou construir um hospital em sua homenagem, o médico Arthur Campos da Paz recomendou a criação de um centro voltado à pesquisa, à prevenção e ao diagnóstico precoce.[3]

O Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos foi inaugurado no Rio de Janeiro em 21 de dezembro de 1957. A instituição oferecia atendimento ambulatorial para prevenção e detecção precoce dos cânceres ginecológicos e de mama. A prefeitura do então Distrito Federal colaborou com a cessão de terreno e apoio financeiro.[12]

Além de receber pacientes, o centro realizava “busca ativa”, procurando alcançar mulheres de baixa renda que jamais haviam feito exames preventivos. Consultórios, laboratórios de citologia e histopatologia e unidades móveis eram utilizados para a coleta e análise de material.[11]

O exame de Papanicolau tornou-se um dos instrumentos centrais do programa. A partir da década de 1960, a instituição promoveu iniciativas de rastreamento em massa do câncer do colo do útero. Em 1968, já depois do período de Sarah como primeira-dama, foi criada uma Escola de Citopatologia destinada à formação de técnicos capazes de interpretar lâminas de exames.[11]

O estudo de Rosana Temperini relaciona as Pioneiras Sociais a algumas das primeiras ações organizadas em grande escala para o controle do câncer do colo do útero no Brasil. O antigo Centro Luiza Gomes de Lemos foi posteriormente incorporado ao Instituto Nacional de Câncer, tornando-se o Hospital do Câncer III.[11]

Reabilitação física e origem da Rede Sarah

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A experiência familiar com os problemas de coluna enfrentados por Márcia Kubitschek é mencionada pela bibliografia como um dos estímulos para o interesse de Sarah pela reabilitação física. As Pioneiras passaram a apoiar a aquisição de cadeiras de rodas, próteses e aparelhos ortopédicos e a defender a criação de centros especializados.[12]

Em 21 de abril de 1960, data da inauguração de Brasília, foi inaugurado na nova capital o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek. A unidade destinava-se ao tratamento e à reabilitação de pessoas com deficiências físicas e motoras.[14]

Em 1968, o médico Aloysio Campos da Paz Júnior assumiu a direção do centro. No ano seguinte, a instituição foi ampliada e passou a realizar também procedimentos cirúrgicos. Um novo hospital foi inaugurado em Brasília em 12 de setembro de 1980, incorporando conceitos arquitetônicos e terapêuticos que posteriormente serviriam de base para a expansão da rede.[14]

Em 1991, a Lei n.º 8.246 criou a Associação das Pioneiras Sociais, serviço social autônomo de direito privado e sem fins lucrativos, destinado à administração dos hospitais de reabilitação. A nova entidade sucedeu a antiga fundação e passou a manter contrato de gestão com o governo federal.[15]

A instituição resultante tornou-se conhecida como Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação. O centro criado em 1960 constitui, portanto, a origem histórica de uma rede especializada que posteriormente se expandiu para diferentes regiões brasileiras.[14]

Imagem pública, moda e arrecadação

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Sarah tornou-se conhecida pela atenção dedicada ao vestuário e pela associação de sua imagem à elegância das primeiras-damas dos anos 1950. Usava peças de casas de alta-costura estrangeiras, entre elas a de Christian Dior, e aparecia com frequência nas colunas sociais e revistas ilustradas.[16]

A moda também foi integrada às campanhas beneficentes. Em 1956, Sarah participou da organização de uma apresentação no Golden Room do Copacabana Palace. A partir do ano seguinte, festivais de moda tornaram-se eventos recorrentes, reunindo estilistas, modelos, empresários, artistas e integrantes da alta sociedade. Parte da renda era destinada às Pioneiras Sociais e a instituições de combate ao câncer.[16]

Esses eventos não constituíam apenas entretenimento social. A exposição da primeira-dama atraía imprensa e patrocinadores e convertia prestígio pessoal em recursos para as obras assistenciais. O vestuário ajudava a construir uma representação de modernidade, sofisticação e respeitabilidade associada ao governo Kubitschek.[16]

A análise histórica da moda permite compreender uma aparente contradição de sua imagem pública. Sarah reforçava padrões tradicionais de feminilidade e elegância, mas utilizava esses mesmos padrões para dirigir organizações, negociar com autoridades e empresários e adquirir um protagonismo que ultrapassava as funções cerimoniais esperadas de uma primeira-dama.[16]

Depois da Presidência

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O mandato de Juscelino terminou em 31 de janeiro de 1961. Embora Sarah tenha deixado a condição de primeira-dama, continuou vinculada às Pioneiras Sociais e à defesa das instituições criadas durante o governo. A manutenção dos projetos tornou-se uma preocupação diante das mudanças administrativas e das disputas entre Juscelino e seus sucessores.[6]

Em 1963, Sarah participou da criação de um comitê feminino de apoio à candidatura de Juscelino à eleição presidencial prevista para 1965. A campanha foi interrompida pelo golpe de 1964, que depôs João Goulart. Em junho daquele ano, o mandato de Juscelino como senador foi cassado e seus direitos políticos foram suspensos por dez anos.[9][6]

Juscelino partiu para o exílio na Europa, retornou temporariamente em 1965 e voltou definitivamente ao Brasil em 1967. Durante esse período, Sarah participou da preservação de contatos familiares e políticos e continuou aparecendo em cerimônias, eventos sociais e homenagens relacionadas à trajetória do marido.[9]

Embora nunca tenha disputado um mandato eletivo, seu nome chegou a ser mencionado pela imprensa em especulações sobre candidaturas. A circulação dessas hipóteses demonstrava que Sarah havia adquirido reconhecimento público próprio, não se limitando inteiramente à representação do marido.[6]

Juscelino morreu em 22 de agosto de 1976, num acidente automobilístico ocorrido na Rodovia Presidente Dutra, nas proximidades de Resende, no Rio de Janeiro. A partir de então, Sarah concentrou parte significativa de suas atividades na preservação da memória política e pessoal do ex-presidente.[9]

Memorial JK

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Após a morte de Juscelino, Sarah liderou as articulações para a construção de um monumento, museu e centro de documentação dedicado ao ex-presidente. O projeto envolveu negociações com o governo federal, o Governo do Distrito Federal e o arquiteto Oscar Niemeyer.[6]

O terreno escolhido situava-se no Eixo Monumental, na região do Cruzeiro, nas proximidades do local onde havia sido celebrada a primeira missa de Brasília. O projeto arquitetônico foi elaborado por Niemeyer e previu espaços destinados à guarda de objetos pessoais, documentos, fotografias, biblioteca e restos mortais de Juscelino.[6]

A campanha nacional de arrecadação foi lançada em 12 de setembro de 1979, em Diamantina, cidade natal de Juscelino. Sarah percorreu estados, reuniu empresários e recebeu contribuições de governos, entidades e cidadãos. O jornalista e empresário Adolpho Bloch, amigo de Juscelino, participou da direção da campanha.[6]

A pedra fundamental foi lançada em 17 de abril de 1980. Sarah acompanhou as etapas de financiamento, construção, organização do acervo e definição da narrativa museológica. O Memorial JK foi inaugurado em 12 de setembro de 1981, data em que Juscelino completaria 79 anos.[6][9]

Os restos mortais do ex-presidente foram transferidos para a câmara mortuária do monumento. Sarah tornou-se presidente da instituição e permaneceu ligada à sua administração até morrer. O Memorial consolidou-se como um dos principais locais de preservação documental e de construção da memória pública sobre Juscelino e Brasília.[6]

A atuação de Sarah no projeto não se limitou à condição de viúva. Ela selecionou documentos, participou da definição das homenagens, mobilizou recursos e procurou estabelecer uma determinada interpretação do legado político de Juscelino, enfatizando democracia, desenvolvimento econômico e construção da nova capital.[6]

Sarah enfrentava problemas respiratórios provocados por enfisema pulmonar. Morreu em Brasília na tarde de 4 de fevereiro de 1996, aos 87 anos, após uma parada cardiorrespiratória.[17][18]

O corpo foi velado no Memorial JK e sepultado em 5 de fevereiro, no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília. O funeral reuniu familiares, antigos colaboradores, autoridades e representantes de diferentes grupos políticos.[19]

Legado e interpretações históricas

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A imagem tradicional de Sarah foi construída em torno da esposa discreta, elegante e dedicada às obras de caridade. Estudos mais recentes, contudo, têm procurado compreender a assistência social como um campo de participação política feminina. Nessa interpretação, a filantropia permitiu que mulheres de elite ingressassem no espaço público sem romper abertamente com as convenções de gênero de seu tempo.[2]

Sarah apresentou suas atividades como extensão dos deveres femininos de cuidado e maternidade. Ao mesmo tempo, presidiu organizações, administrou recursos, coordenou voluntárias, estabeleceu relações com empresários e autoridades e vinculou sua imagem a programas nacionais de saúde e assistência. Sua trajetória demonstra como papéis considerados tradicionais podiam ser utilizados para conquistar poder de decisão e reconhecimento público.[2]

A atuação das Pioneiras Sociais também deve ser compreendida dentro dos limites do modelo assistencial daquele período. A instituição dependia da mobilização de mulheres das elites, da personalização das ações na figura da primeira-dama e da combinação de caridade privada com financiamento estatal. Esse modelo foi posteriormente identificado como uma das expressões do chamado primeiro-damismo, no qual esposas de governantes assumem a direção de políticas ou entidades assistenciais.[12]

Apesar desses limites, alguns projetos deixaram consequências institucionais duradouras. O Centro Luiza Gomes de Lemos foi incorporado à estrutura do Instituto Nacional de Câncer, enquanto o centro de reabilitação de Brasília deu origem à Rede Sarah. As iniciativas de rastreamento do câncer feminino são reconhecidas pela historiografia da saúde como experiências importantes na introdução de estratégias preventivas de maior escala no Brasil.[11][14]

Em Minas Gerais, o atual Serviço Social Autônomo Servas reconhece Sarah como a primeira presidente de sua tradição institucional, originada nas Voluntárias Sociais. Em 2025, a entidade instituiu a Medalha do Mérito Social Sarah Kubitschek para homenagear pessoas com atuação destacada na assistência social do estado.[20]

Seu nome também foi atribuído ao Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek, um dos principais espaços públicos de Brasília, e a instituições educacionais, médicas e assistenciais em diferentes estados brasileiros.[21]

O Memorial JK constitui outra dimensão de seu legado. Ao liderar sua construção e organizar a memória do marido, Sarah atuou como produtora e guardiã de uma narrativa histórica. A instituição não apenas preservou objetos, documentos e imagens, mas contribuiu para consolidar a representação de Juscelino como símbolo do desenvolvimento, da democracia e da construção de Brasília.[6]

Honrarias

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Sarah recebeu duas condecorações portuguesas durante o período em que Juscelino ocupou a Presidência da República:

Representações na cultura

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Em 2006, Sarah foi uma das personagens centrais da minissérie JK, produzida pela TV Globo. Foi interpretada por Débora Falabella na fase jovem e por Marília Pêra na fase madura.[23]

Em 2023, foi representada pela atriz Raquel Monteiro numa participação especial na telenovela Amor Perfeito. Na mesma sequência, Alexandre Borges interpretou Juscelino durante o período em que ele era prefeito de Belo Horizonte.[24]

Ver também

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Referências

  1. Há divergência entre as fontes quanto ao ano de nascimento. Dayanny Deyse Leite Rodrigues, em sua tese de doutorado, e Rosana Temperini, em artigo publicado pela Revista Brasileira de Cancerologia, registram 1909. O obituário contemporâneo da Folha de S.Paulo, entretanto, informou que Sarah morreu aos 87 anos em fevereiro de 1996, correspondendo ao ano de 1908, também tradicionalmente adotado nos registros biográficos. Ver: RODRIGUES, Dayanny Deyse Leite. “Primeiro-damismo” no Brasil: uma história das mulheres na cultura política nacional (1889–2010). Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2021, p. 149; TEMPERINI, Rosana Soares de Lima. Fundação das Pioneiras Sociais: contribuição inovadora para o controle do câncer do colo do útero no Brasil, 1956–1970. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 58, n.º 3, 2012, p. 341; Morre Sarah Kubitschek aos 87 anos. Folha de S.Paulo, 5 de fevereiro de 1996.
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Silva, Bruno Sanches Mariante da (2026). «"Presidente Sarah Kubitschek": gênero e participação política na trajetória da primeira-dama Sarah Kubitschek». Goiânia. História Revista. 30 (2): 334–354. Consultado em 1 de julho de 2026
  3. 1 2 3 4 5 «Fundação das Pioneiras Sociais». História do Câncer — Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e Instituto Nacional de Câncer. Consultado em 1 de julho de 2026
  4. 1 2 «Decreto n.º 39.865, de 29 de agosto de 1956». Câmara dos Deputados. 29 de agosto de 1956. Consultado em 1 de julho de 2026
  5. 1 2 «Lei n.º 3.736, de 22 de março de 1960». Presidência da República. 22 de março de 1960. Consultado em 1 de julho de 2026
  6. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Silva, Bruno Sanches Mariante da (2026). «"Presidente Sarah Kubitschek": gênero e participação política na trajetória da primeira-dama Sarah Kubitschek». Goiânia. História Revista. 30 (2): 346–354. Consultado em 1 de julho de 2026
  7. 1 2 Silva, Bruno Sanches Mariante da (2026). «"Presidente Sarah Kubitschek": gênero e participação política na trajetória da primeira-dama Sarah Kubitschek». Goiânia. História Revista. 30 (2): 337–340. Consultado em 1 de julho de 2026
  8. 1 2 3 Rodrigues, Dayanny Deyse Leite (2021). “Primeiro-damismo” no Brasil: uma história das mulheres na cultura política nacional (1889–2010) (PDF) (Tese de doutorado em História). Goiânia: Universidade Federal de Goiás. pp. 149–152. Consultado em 1 de julho de 2026
  9. 1 2 3 4 5 6 7 8 «Juscelino Kubitschek». Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil — Fundação Getulio Vargas. Consultado em 1 de julho de 2026
  10. «Congresso homenageia 100 anos de JK». Senado Notícias. 12 de setembro de 2002. Consultado em 1 de julho de 2026
  11. 1 2 3 4 5 6 7 8 Temperini, Rosana Soares de Lima (2012). «Fundação das Pioneiras Sociais: contribuição inovadora para o controle do câncer do colo do útero no Brasil, 1956–1970». Revista Brasileira de Cancerologia. 58 (3): 339–349. Consultado em 1 de julho de 2026
  12. 1 2 3 4 5 Rodrigues, Dayanny Deyse Leite (2021). “Primeiro-damismo” no Brasil: uma história das mulheres na cultura política nacional (1889–2010) (PDF) (Tese de doutorado em História). Goiânia: Universidade Federal de Goiás. pp. 153–164. Consultado em 1 de julho de 2026
  13. «Decreto n.º 48.543, de 19 de julho de 1960». Presidência da República. 19 de julho de 1960. Consultado em 1 de julho de 2026
  14. 1 2 3 4 «História da Rede Sarah». Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação. Consultado em 1 de julho de 2026
  15. «Lei n.º 8.246, de 22 de outubro de 1991». Presidência da República. 22 de outubro de 1991. Consultado em 1 de julho de 2026
  16. 1 2 3 4 Silva, Bruno Sanches Mariante (2022). «"Dona Sarah veste Dior": o entrelaçamento de moda e assistência social na atuação da primeira-dama Sarah Kubitschek». Diálogos. 26 (2): 47–76. doi:10.4025/dialogos.v26i2.58040. Consultado em 1 de julho de 2026
  17. «Morre Sarah Kubitschek aos 87 anos». Folha de S.Paulo. 5 de fevereiro de 1996. Consultado em 1 de julho de 2026
  18. «Sarah Kubitschek, 87, morre de enfisema pulmonar em Brasília». Folha de S.Paulo. 5 de fevereiro de 1996. Consultado em 1 de julho de 2026
  19. «Sarah é enterrada em Brasília». Folha de S.Paulo. 6 de fevereiro de 1996. Consultado em 1 de julho de 2026
  20. «Governo de Minas participa de cerimônia do Servas que celebra legado feminino». Agência Minas. 26 de março de 2025. Consultado em 1 de julho de 2026
  21. «Locais de interesse em Brasília: Parque da Cidade Dona Sara Kubitschek». Câmara dos Deputados. Consultado em 1 de julho de 2026
  22. «Cidadãos estrangeiros agraciados com ordens portuguesas». Pesquisa pelo nome “Sarah de Lemos Kubitschek de Oliveira”. Presidência da República Portuguesa — Ordens Honoríficas Portuguesas. Consultado em 1 de julho de 2026
  23. «JK». Memória Globo. 29 de outubro de 2021. Consultado em 1 de julho de 2026
  24. «Amor Perfeito: Marê faz retorno triunfal e afronta Gilda na frente de todos». Gshow. 30 de março de 2023. Consultado em 1 de julho de 2026

Bibliografia complementar

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  • Bojunga, Cláudio (2010). JK: o artista do impossível. Rio de Janeiro: Objetiva. ISBN 9788539000432 
  • Guedes, Ciça; Melo, Murilo Fiuza de (2019). Todas as mulheres dos presidentes. Rio de Janeiro: Máquina de Livros. ISBN 9788594158130 

Ligações externas

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