Abu Talibe ibne Abede Almotalibe
| Abu Talibe | |
|---|---|
Miniatura islâmica representando Abu Talibe (ao centro, na parte superior, com vestes azuis), Alabás ibne Abede Almotalibe (ao seu lado, com vestes verdes) e outros líderes coraixitas interrogando Maomé sobre a Isra e Miraje no Siyar-i Nabî | |
| Nascimento | |
| Morte | c. 619–620 |
| Etnia | Árabe |
| Progenitores | Mãe: Fátima binte Anre Pai: Abede Almotalibe |
| Cônjuge | Fátima binte Açade |
| Filho(a)(s) | |
Abu Talibe ibne Abede Almotalibe (em árabe: أبو طالب بن عبد المطلب; Meca, c. 535 – Meca, c. 619–620), cujo nome pessoal era Abede Manafe (em árabe: عبد مناف; romaniz.: ʿAbd Manāf), foi um membro dos haxemitas, clã dos coraixitas, chefe de seu clã e tio paterno do profeta islâmico Maomé. Filho de Abede Almotalibe e Fátima binte Anre, era irmão germano de Abedalá, pai de Maomé. Após a morte de Abede Almotalibe, assumiu a tutela do sobrinho, então com cerca de oito anos, e herdou as funções da sicaia e da rifada, relacionadas ao fornecimento de água e alimentos aos peregrinos de Meca. Posteriormente, devido a dificuldades financeiras, transferiu essas funções a seu irmão Alabás, mas permaneceu chefe dos haxemitas até sua morte.
Abu Talibe desempenhou papel central na proteção de Maomé durante os primeiros anos de sua pregação. Apesar da crescente oposição dos coraixitas, recusou-se a entregar o sobrinho a seus adversários e mobilizou os haxemitas e os almotalibitas para protegê-lo. Essa solidariedade clânica manteve-se durante o boicote imposto aos dois clãs, cujos membros permaneceram concentrados durante parte desse período no Xibe Abi Talibe, assim denominado em referência a ele. Abu Talibe morreu pouco depois do encerramento do boicote, cerca de três anos antes da Hégira. Sua morte, ocorrida aproximadamente na mesma época que a de Cadija binte Cuailide, privou Maomé de um de seus principais protetores em Meca, e o período ficou conhecido na tradição islâmica como o Ano da Tristeza.
A posição religiosa de Abu Talibe tornou-se objeto de controvérsia entre as tradições islâmicas. A tradição sunita predominante sustenta que morreu sem aderir ao Islã, posição também considerada historicamente mais provável por Watt, enquanto a tradição xiita afirma que era crente e teria ocultado sua fé. A questão deu origem a uma extensa literatura teológica e apologética posterior. Abu Talibe é também contado entre os poetas de Meca, sendo-lhe atribuídas diversas composições, entre as quais a Lâmia, cássida tradicionalmente relacionada à sua defesa de Maomé contra os coraixitas, embora a autenticidade de parte dos versos atribuídos a ele tenha sido contestada.
Vida
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Abu Talibe nasceu em Meca por volta de 535. Seu nome pessoal era Abede Manafe, sendo conhecido principalmente por sua cúnia. Era filho de Abede Almotalibe, chefe dos haxemitas, e de Fátima binte Anre, pertencente aos maquezumitas. Era irmão germano de Abedalá, pai de Maomé, e de Azobair.[1] Com a morte de Abede Almotalibe, Abu Talibe assumiu a tutela de Maomé, que tinha então cerca de oito anos. Herdou também do pai a sicaia e a rifada, funções relacionadas respectivamente ao fornecimento de água e alimentos aos peregrinos que visitavam a Caaba. Sua situação financeira, contudo, deteriorou-se e ele acabou transferindo ambas as funções a seu irmão Alabás. Apesar das dificuldades econômicas, permaneceu chefe dos haxemitas até sua morte, e o bairro de Meca em que residia ficou conhecido como Xibe Abi Talibe.[2] Segundo a tradição islâmica, Abu Talibe dedicou particular atenção à criação de Maomé e costumava levá-lo consigo em suas viagens. Participou de uma caravana comercial coraixita com destino à Síria quando o sobrinho tinha cerca de doze anos. Embora inicialmente pretendesse deixá-lo em Meca, teria decidido levá-lo consigo na viagem.[3] A narrativa situa a passagem da caravana por Bostra, onde teria ocorrido o célebre encontro de Maomé com Baira, um monge cristão associado pela tradição à juventude do futuro profeta. Segundo o relato, Baira teria reconhecido em Maomé sinais da missão profética que lhe estava destinada e advertido Abu Talibe a protegê-lo.[4][1] As versões divergem quanto ao que ocorreu em seguida: algumas afirmam que Abu Talibe desistiu de prosseguir para a Síria e regressou com o sobrinho a Meca, enquanto outras sustentam que Maomé continuou a viagem sob seus cuidados.[5]
Anos mais tarde, segundo uma tradição reproduzida por Subhani, diante da situação econômica de Maomé, Abu Talibe sugeriu que o sobrinho procurasse trabalho junto a Cadija binte Cuailide, rica comerciante coraixita que empregava homens para conduzir suas mercadorias nas caravanas. Abu Talibe teria chamado a atenção de Maomé para as atividades comerciais de Cadija e para a possibilidade de representar seus interesses numa caravana destinada à Síria.[6] Após o início da pregação de Maomé, Abu Talibe tornou-se seu principal protetor dentro dos haxemitas. Ao descobrir que Maomé e seu próprio filho Ali realizavam secretamente a oração, teria declarado que não abandonaria a religião de seus antepassados, mas assegurou ao sobrinho que continuaria a protegê-lo.[1] Com a intensificação da pregação pública de Maomé e de suas críticas ao culto dos ídolos, representantes coraixitas procuraram repetidamente Abu Talibe para que interviesse junto ao sobrinho e o convencesse a abandonar ou moderar suas atividades. Abu Talibe recusou-se, contudo, a retirar-lhe sua proteção.[7][2] Uma das tradições relativas a essas negociações afirma que os coraixitas ofereceram a Abu Talibe Umara ibne Alualide, filho de Alualide ibne Almuguira, para que o adotasse em troca da entrega de Maomé. Abu Talibe teria rejeitado indignado a proposta, argumentando que lhe ofereciam um filho para que o sustentasse enquanto pretendiam matar o seu.[8]
Diante da continuidade das ameaças, Abu Talibe procurou mobilizar os haxemitas e os almotalibitas em defesa do sobrinho. Os membros dos dois clãs, independentemente de sua adesão à religião pregada por Maomé, teriam concordado em protegê-lo por solidariedade familiar, com a exceção de Abu Laabe.[9][1] A proteção concedida por Abu Talibe tornou-se particularmente importante durante o boicote imposto pelos demais clãs coraixitas aos haxemitas e almotalibitas. Watt considera provável que o boicote também tivesse motivações econômicas.[2] Durante esse período, tradicionalmente situado em cerca de três anos, os membros dos dois clãs permaneceram concentrados no Xibe Abi Talibe, onde enfrentaram restrições econômicas e dificuldades de abastecimento. Segundo Subhani, Abu Talibe organizou a vigilância das elevações que circundavam o local para prevenir possíveis ataques.[10] Segundo a tradição transmitida por Subhani, alguns coraixitas acabaram mobilizando-se contra a continuação do boicote. Hixame ibne Anre ibne Rebia teria procurado Zuair ibne Abi Omaia, neto de Abede Almotalibe, e obtido posteriormente o apoio de Mutime ibne Adi, Abu Albaquetari e Zama ibne Alaçuade. O grupo defendeu publicamente o encerramento do pacto, apesar da oposição de Abu Jal, contribuindo para o fim das restrições impostas aos dois clãs.[11] Abu Talibe morreu em Meca pouco depois do encerramento do boicote, cerca de três anos antes da Hégira, por volta de 619 ou 620.[2] Sua morte, ocorrida aproximadamente na mesma época que a de Cadija, privou Maomé de dois de seus principais apoiadores, e o período ficou conhecido na tradição islâmica como o Ano da Tristeza.[12] Watt considera provável que Abu Talibe tenha sido sucedido na chefia dos haxemitas por Abu Laabe.[2]
Legado e família
[editar | editar código]A posição religiosa de Abu Talibe tornou-se objeto de controvérsia na tradição islâmica. Apesar de sua proteção a Maomé, a tradição sunita predominante sustenta que ele não aderiu ao Islã. Relatos preservados em coleções de hádices e obras exegéticas relacionam à sua morte os versículos 28:56 e 9:113 do Alcorão, interpretados como referentes respectivamente à incapacidade de Maomé de conduzir à fé uma pessoa que estimava e à proibição de pedir perdão pelos politeístas. Segundo essas tradições, Maomé teria procurado persuadir o tio a pronunciar a profissão de fé antes de morrer, mas Abu Talibe teria recusado fazê-lo.[1] Watt igualmente considera que Abu Talibe não se tornou muçulmano, observando, contudo, que a questão deu origem a tradições divergentes relacionadas ao problema teológico do destino daqueles que viveram no período inicial da missão de Maomé.[13] A tradição xiita, em contraste, sustenta que Abu Talibe era crente e que teria ocultado sua fé, e sua condição religiosa tornou-se objeto de uma extensa literatura apologética posterior.[14] Abu Talibe foi casado com Fátima binte Açade, com quem teve quatro filhos, Talibe, Aquil, Jafar e Ali. Destes, Jafar e Ali aderiram ao Islã, enquanto Talibe é mencionado entre os coraixitas presentes contra Maomé na Batalha de Badre.[13] Segundo a TDV, o casal teve ainda pelo menos duas filhas, Ume Hani e Jumana, enquanto alguns autores acrescentam Raita e Asma. As dificuldades econômicas de Abu Talibe também repercutiram na criação dos filhos: segundo a tradição, Maomé encarregou-se da criação de Ali, enquanto Alabás ibne Abede Almotalibe acolheu Jafar.[12]
Obra poética
[editar | editar código]Abu Talibe é contado pelas fontes entre os poetas de Meca, e versos atribuídos a ele foram utilizados por estudiosos árabes como testemunhos linguísticos. Sua produção poética foi posteriormente reunida por Abu Hifane Abedalá ibne Amade Almizemi (m. 869) numa coletânea publicada sob o título Diwan Shaykh al-Abatih. Entre as composições que lhe são atribuídas destaca-se uma cássida de 94 versos conhecida como Lâmia, tradicionalmente associada à defesa de Maomé diante da oposição dos coraixitas. O poema foi preservado integralmente por Ibne Hixame em sua redação da Sira e recebeu posteriormente um comentário de Ali Fehmi Jabic, publicado em Istambul sob o título Tilbat al-talib fi sharh Lamiyyat Abi Talib. A autenticidade integral da Lâmia, contudo, é discutida. Ibne Salame Aljumai considerava que alguns dos versos atribuídos a Abu Talibe haviam sido acrescentados posteriormente. Outra composição atribuída a ele é uma cássida conhecida como Dália. A Lâmia e a Dália foram traduzidas para o alemão pelo orientalista Hellmut Ritter.[12]
Referências
- 1 2 3 4 5 Fığlalı 1994, p. 237.
- 1 2 3 4 5 Watt 1986, p. 152.
- ↑ Subhani 2017, p. 99.
- ↑ Subhani 2017, pp. 99–100.
- ↑ Lings 2006, p. 30.
- ↑ Subhani 2017, p. 109.
- ↑ Subhani 2017, pp. 148–151.
- ↑ Subhani 2017, p. 151.
- ↑ Subhani 2017, pp. 152–153.
- ↑ Subhani 2017, p. 189.
- ↑ Subhani 2017, p. 190.
- 1 2 3 Fığlalı 1994, p. 238.
- 1 2 Watt 1986, pp. 152–153.
- ↑ Fığlalı 1994, pp. 237–238.
Bibliografia
[editar | editar código]- Fığlalı, Ethem Ruhi (1994). «Ebû Tâlib» [Abu Talibe]. Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 10. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 237–238. Cópia arquivada em 8 de agosto de 2026
- Jafariyan, Rasul (2020). The Life of the Messenger (em inglês). São Diego: Noor Collective Publications
- Lings, Martin (2006) [1983]. Muhammad: His Life Based on the Earliest Sources (em inglês). Rochester, Vermont: Inner Traditions. ISBN 978-1-59477-153-8
- Subhani, Jafar (2017) [1984]. The Message: The Life of the Holy Prophet of Islam (PDF) (em inglês). Cume: Islamic Seminary Publications
- Watt, W. Montgomery (1986). «Abū Ṭālib». The Encyclopaedia of Islam. I: A–B 2 ed. Leida: E. J. Brill. 438 páginas